Em meio à crise, Dilma ensaia voo solo

Na rapidez com que se livrou de Nascimento e no embate para definir o sucessor, a presidente abre espaço para uma gestão com sua cara

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2011 | 00h00

Desta vez foram apenas quatro dias entre a denúncia do escândalo e a demissão do ministro - não mais um mês inteiro. E o demitido foi, de novo, um nome diretamente ligado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Completando o episódio, a escolha do sucessor desembocou num duro embate entre a presidente Dilma Rousseff e o PR, o "dono" do Ministério dos Transportes.

Isso tudo é sinal, dizem alguns cientistas políticos, de que algo se move na definição, ou redefinição, do governo Dilma. Apesar do delicado momento e dos obstáculos práticos que enfrenta, ela parece abrir espaços e criar condições para montar, com seis meses na Presidência, um governo com sua cara . Mais afastado do legado lulista e, enfim, estruturado à sua imagem, semelhança e temperamento.

"Ficou claro, no episódio, que ela aprendeu rápido com o caso Palocci", diz Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas. A presidente, diz ele, percebeu que se enfraqueceria diante da opinião pública se a crise nos Transportes, a exemplo da que envolveu Antonio Palocci na Casa Civil, se arrastasse por muito tempo. "Ela sabe que presidente mais fraco significa negociações mais caras com a base de apoio."

Como ele, o historiador Marco Antonio Villa acredita que o episódio da saída de Alfredo Nascimento dos Transportes, mesmo ainda não concluído, amplia os espaços políticos da presidente: "Ela pode achar o caminho, daqui por diante, para estabelecer suas prioridades", observa o historiador. Mas um bom teste, já de início, "é que consiga escolher alguém que não seja prenúncio de nova crise aí pela frente".

Outro desafio é levar adiante um projeto acima do toma-lá-dá-cá entre Planalto e Congresso que vem sendo elegantemente chamado de presidencialismo de coalizão. "Dilma tem de achar o ponto ótimo entre impor seus preferidos e preservar o apoio da base aliada", prossegue Villa. A saída pode ser o "modelo PT" usado por Lula: o partido aliado indica o ministro que quiser "mas o governo controla a secretaria-geral do ministério, onde cargos e verbas são decididos".

Às vezes isso funciona, às vezes não. Como ressalta outro estudioso da política brasiliense, Humberto Dantas, "é bom lembrar que o demitido da vez, o ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, não só participa da escolha do seu sucessor como volta ao Congresso e lá vai articular durante mais quatro anos. E na condição de presidente de um partido com 46 votos".

Herança. Nesse meio ano de governo, iniciado com 13 ministros herdados de Lula - alguns, em pastas diferentes - Dilma atravessou nas últimas semanas o período mais conturbado de sua convivência com esse legado. Foram três ministros afastados - além de Palocci e Nascimento, também Luiz Sérgio, que deixou a Articulação e foi relegado à Pesca, trocando de cadeira com Ideli Salvatti. Outros dois Dilma recebeu desgastados - Fernando Haddad, da Educação, pelas falhas do Enem, e Orlando Silva, dos Esportes, por suspeitas de má gestão. Mas o cientista político Carlos Melo, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo, ressalta: "Os nomes são herança de Lula, mas a estrutura, não." E essa estrutura é uma enorme pedra no caminho: qualquer alteração que se tente "esbarra no fato de que o jogo político, em Brasília, é baseado em distribuição de espaços, não em projetos", diz Carlos Melo.

Sem transparência. Essa transformação de negociações republicanas entre partidos em leilões de verbas e cargos é apontada por outro estudioso, José Álvaro Moisés, do Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas (Nupps) da USP, como a matriz das grandes crises brasilienses. Um fruto da inabilidade - ou desinteresse - das legendas pelo compromisso de expor à sociedade seus projetos políticos. "Está faltando transparência. No caso do escândalo envolvendo o Ministério dos Transportes, falta explicar à sociedade o que é esse partido (o PR), qual é o seu projeto para o País". Uma ampla análise desse cenário resultou no e-book O Papel do Congresso no Presidencialismo de Coalizão, que Moisés lançou no início do mês.

É significativo, diz o autor, que o Congresso tenha cedido espaço para o Executivo legislar e, ao mesmo tempo, "nenhum presidente, desde a redemocratização (em 1985), tenha conseguido que seu partido tivesse maioria absoluta no Congresso". Ele nota, ainda, que os partidos, afastados da sociedade, sequer investem na formação de novas lideranças. "Nossos melhores jovens não querem saber de política ou da causa pública. Qual o futuro de um país sem líderes?" / COLABORARAM LUCAS DE ABREU MAIA E WLADIMIR DE ANDRADE

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