Em ruínas, fazenda dos inconfidentes será restaurada

Acordo firmado com Promotoria de Minas prevê que empresa de mineração transforme imóvel do século 17 em centro cultural

Marcelo Portela, O Estado de S. Paulo

19 Abril 2012 | 23h00

BELO HORIZONTE - Quem passa pela MG-383 perto do limite de Conselheiro Lafaiete e São Braz do Suaçuí, na região central de Minas, e vê uma propriedade quase em ruínas dificilmente imagina a história que pesa sobre a castigada estrutura. Mas era ali que o advogado e poeta Inácio José de Alvarenga Peixoto recebia, no século 18, amigos que planejavam se livrar do domínio da coroa portuguesa. O grupo, composto entre outros pelos também poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga e pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, encabeçava a Inconfidência Mineira e usou a Fazenda Paraopeba para reuniões.

Agora, começa a ser afastado o risco de que o resto dessa história se perca sob os escombros da propriedade, batizada nos Autos da Devassa - inquéritos que incriminaram os conjurados - de Covão, por causa da cova formada pela topografia que a cerca. A prefeitura de Conselheiro Lafaiete acaba de decretar o bem de utilidade pública e desapropriar a fazenda, que será restaurada pela Ferrous Resources do Brasil para ser transformada em um centro cultural e ponto de referência da Estrada Real.

As medidas fazem parte de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público Estadual (MPE) de Minas como parte da compensação pelo impacto ambiental que a Ferrous causará com a mina Viga, de minério de ferro, também na região. "A fazenda tem grande importância. E a atividade mineradora tem um impacto forte. Dessa forma, todo mundo sai ganhando, porque a fazenda é preservada e a empresa ganha em sua imagem", avalia o promotor de Justiça e curador do Patrimônio Histórico de Conselheiro Lafaiete, Glauco Peregrino. "Sozinho, o município não teria condição de fazer a desapropriação e o restauro", observa o prefeito José Milton Rocha (PSDB).

Peregrino conta que, com o decreto e consequente processo de desapropriação, a Ferrous já fez o depósito judicial para o pagamento pela propriedade e agora terá 60 dias para escorar a estrutura. O procedimento exige pressa. A parte mais antiga da casa, construída entre o fim do século 17 e início do século 18, está fechada e ameaça desabar a qualquer momento. O telhado já não cobre nada e, apesar de não ser possível abrir as portas, pelos buracos nas paredes é possível ver não só a estrutura de pau a pique, mas as vigas do teto caídas, atravessando parte da sala, e grandes tábuas do piso se transformando em entulho.

Cheias. Além da falta de manutenção - apesar de a fazenda ser tombada pelo patrimônio histórico municipal -, a estrutura ainda é ameaçada pelas cheias do Rio Paraopeba, que passa a poucos metros. Entre o fim do ano passado e início deste ano, uma enchente derrubou a estrutura que servia para abrigar escravos e a produção da fazenda. A estrebaria está visivelmente inclinada, com risco de ruir. A água, que chegou a atingir mais de 1,80 metro dentro da casa, também se encarregou de destruir o que o tempo não havia dado conta. "Será preciso fazer o restauro de ruínas e a recuperação do que ainda não desabou", salientou a coordenadora do setor de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura de Conselheiro Lafaiete, Mauricéia Ferreira Maia.

Para o gerente-geral de Meio Ambiente da Ferrous, Cristiano Parreiras, a empresa "se sente honrada em poder realizar essa parceria para a preservação da Fazenda Paraopeba, que faz parte da história de Minas".

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