Em tom de despedida, presidente diz ter feito mandato ''republicano''

Lula discursou em Angra dos Reis e afirmou nunca ter discriminado nenhum partido político durante sua gestão

Luciana Nunes Leal e Alexandre Rodrigues, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2010 | 00h00

No primeiro compromisso público do segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou referências diretas à disputa eleitoral e, num discurso em tom de despedida, disse ter feito um "mandato republicano", sem discriminar nenhum partido político. Na cerimônia de batismo da plataforma da Petrobrás P-57, Lula falou para um grupo de cerca de 500 operários do estaleiro Brasfels, em Angra dos Reis.

"Fizemos um mandato republicano como o Brasil sempre deveria ter tido, com o presidente que tivesse. Duvido que um governador ou um prefeito, de qualquer partido, possa dizer na televisão que precisou de um real e o Lula não deu porque não era do partido dele. Eu não faço política assim. Tenho divergência com muita gente, mas como presidente trato todo mundo em igualdade de condições", disse Lula.

O presidente exaltou como um de seus feitos a aposta no aumento da participação da indústria nacional na construção de plataformas e voltou a criticar os antecessores por preferirem a importação de maior parte das embarcações e equipamentos. "O País estava se autodestruindo", afirmou. "Um país que não exercita a capacidade intelectual de seu povo vai sendo tratado como se fosse insignificante."

Bem-humorado, Lula brincou com o fato de que só governa até o dia 31 de dezembro. "No dia 31, quando der meia-noite, eu ainda não vou entregar a faixa presidencial. Estou pensando em colar a bichinha na barriga e sair correndo", afirmou. Disse que, quando for um "cidadão comum", quer ver quem vai convidá-lo para passeios e pescarias.

Legado. "Quero me despedir dizendo que o legado que quero deixar na cabeça de cada homem e cada mulher é a certeza de que não existe um ser humano inferior ao outro", disse. "Se eu pude ser presidente da República, qualquer um de vocês pode ser presidente, governador, prefeito."

Ao elogiar a gestão do governador Sérgio Cabral (PMDB), reeleito no primeiro turno, o presidente defendeu indiretamente a continuidade de seu próprio governo, citando a intenção de estender a experiência das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) para todo o País. "Se Deus quiser, vamos fazer nas favelas de todos os Estados brasileiros."

O presidente destacou a nova forma de atuação da polícia nas áreas pacificadas, em parceria com os moradores. "Nós estamos dizendo para aquele povo de lá: "não vamos mandar a polícia apenas para bater. A polícia vai vir para cá para bater em quem tem de bater, proteger quem tem de proteger. O Estado tem de trazer para cá educação, emprego, decência"."

Ao fim da solenidade, Lula posou com outros políticos exibindo, sem perceber, uma faixa que trazia originalmente uma inscrição com o nome da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, mas foi adaptada de última hora para o evento. A palavra "Dilma" foi substituída por "festa" e a versão final foi a seguinte: "Senhor presidente, obrigado por acreditar no nosso trabalho. Agora é festa." Com a tinta ainda fresca, era possível, sob a luz, perceber o nome da petista encoberto. Duas estrelas vermelhas, símbolo do PT, completavam a homenagem.

Ao contrário de vários discursos feitos no primeiro turno, o presidente não citou Dilma nem fez referências à eleição presidencial. Cabral e o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, tiveram o mesmo cuidado.

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