1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Em um ano de papa, venda de lembrancinhas renasce em Roma

Fernando Nakagawa - Agência Estado

13 Março 2014 | 15h 00

Depois de crise diminuir vendas em 2013, faturamento cresceu 10% nos último 12 meses

ROMA - O comércio na Itália tem vivido dias difíceis. A crise diminuiu as vendas em quase 2% no ano passado. Há, porém, uma ilha de prosperidade em Roma. Nas ruas estreitas perto do Vaticano, lojinhas de presentes comemoram o faturamento que cresce a um ritmo chinês: as vendas aumentaram mais de 10% nos últimos 12 meses. Tanto sucesso tem explicação: Francisco. Basta colocar um produto com o rosto do papa para esvaziar a prateleira. De ímãs de geladeira a capas de celular, o argentino tem gerado um verdadeiro boom no comércio.

Há exatamente um ano, o mundo viu a fumaça branca e o anúncio da escolha do argentino Jorge Mário Bergoglio para liderar a Igreja Católica. Em poucos meses, Francisco mudou os rumos do Vaticano e revelou um carisma que tem conquistado até não católicos. Tanta admiração resultou em algo além das missas lotadas: o papa Francisco é um verdadeiro fenômeno de vendas. Não há números oficiais, mas comerciantes consultadas pelo Broadcast nas proximidades do Vaticano dizem que as vendas aumentaram em pelo menos 10% em um ano. Lojistas estão animados e o espaço dado ao papa nas prateleiras e vitrines cresce cada vez mais.

"Tudo que tem o rosto do Papa ou cita o nome dele vende mais. Temos camisetas, moedas, canecas, pratos, calendários, ímãs de geladeira e tudo isso", diz Sandra Fiorini apontando para uma parede repleta de lembrancinhas com o rosto de Francisco. Na loja de Sandra, a 300 metros do Vaticano, o papa está nos dois produtos que mais fazem sucesso: um rosário em edição especial pelo primeiro ano do pontificado e as camisetas coloridas com a inscrição "I Love Pope Francis". As camisetas, inclusive, lembram aquelas em homenagem a ídolos adolescentes, como a banda britânica One Direction.

Outro sucesso são os ímãs de geladeira. "Há dezenas de modelos", diz Sandra Fiorini. Cada ímã com a foto de Francisco sai por 3 euros. Na promoção, quatro saem por 10 euros. Antes do argentino, os enfeites não fazia tanto sucesso. Um pouco constrangida, Sandra lembra que a procura e a variedade de modelos eram bem menores. "Só existiam uns dez modelos", diz em tom mais baixo.

Lojistas explicam que é comum que a chegada de um novo pontífice aumente a venda de lembrancinhas. O boom acontece logo após o Conclave quando chegam os primeiros produtos em homenagem ao novo papa. Desta vez, não foi diferente. O movimento, porém, não diminuiu meses depois como geralmente acontece. Ao contrário, a popularidade do argentino aumentou as vendas.

Esse interesse ultrapassa o universo religioso e, às vezes, flerta com o mundo das celebridades. Na livraria Coletti, especializada em temas católicos, há mais de cem títulos sobre o papa argentino. Alguns chamam atenção. "Il Papa Che Ama Il Calcio" ("O Papa Que Ama o Futebol"), por exemplo, conta histórias da infância de Bergoglio em Buenos Aires e fala da paixão do papa pelo futebol, em especial pelo San Lorenzo de Almagro, time da primeira divisão do campeonato argentino.

"Esses livros vendem mais que a média. É interessante ver essa variedade de temas sobre o papa Francisco e como o público interessado é amplo, de idosos a crianças, de teóricos a pessoas que nem são ligadas à Igreja", diz Filipo Coletti, dono da livraria. O livreiro diz estar contente com o interesse pelo novo pontífice e nota que o Francisco mudou o perfil dos interessados no tema. "Com Bento XVI, o papa despertava interesse em pessoas mais técnicas, muitos teólogos e estudiosos. Agora, o público é muito mais amplo. Francisco conquistou muita gente pelo carisma e simpatia", diz.

A diferença é notável. Nos livros relacionados a Francisco, a capa normalmente é ilustrada com um foto do religioso argentino. "Normalmente sorrindo", nota Filipo Coletti. Livros de Joseph Ratzinger normalmente usam capas sóbrias. "E têm muito mais páginas", diz Coletti.

Tanto interesse começa a atrair grandes empresas. A editora Mondadori, a maior da Itália, lançou no início do mês a revista semanal "Il Mio Papa" (O Meu Papa). Com 68 páginas, a publicação em italiano é dedicada exclusivamente às atividades religiosas e pessoais de Francisco. Haverá um pôster com uma citação do papa toda semana e o editor promete que não haverá sensacionalismo. "É uma espécie de revista para fãs, mas claro que não pode ser algo como faríamos para o One Direction", disse o editor da revista, Aldo Vitali, em entrevista ao jornal The New York Times.