ENTREVISTA-Falta independência a sistema aéreo brasileiro--FSF

O pior acidente da história da aviação brasileira esta semana mostrou que o sistema aéreo nacional precisa de mais independência para funcionar, afirmou o presidente da Flight Safety Foundation (FSF), uma fundação internacional para segurança de vôo. Para Willian Voss, é preocupante constatar que o acidente que matou cerca de 190 pessoas tenha se tornado mais um problema do governo e da Justiça do que algo puramente técnico. "Parece que há um jogo político sendo jogado no alto nível do governo", disse em entrevista telefônica à Reuters nesta sexta-feira. "E por mais que o objetivo seja nobre, o papel do Jucidiário em determinar se a pista (do aeroporto de Congonhas) era segura é completamente inapropriado." Na terça-feira, um avião A320 da TAM, que fazia o vôo 3054, explodiu ao se chocar contra prédios vizinhos a Congonhas, em São Paulo, após tentar pousar. "Onde estão as pessoas que deveriam estar cuidando do problema no nível técnico? As decisões deveriam ter sido tomadas antes que os políticos se envolvessem", afirmou Voss. Sobre se há ou não problemas com a infra-estrutura dos aeroportos brasileiros, indicou o presidente da FSF, cabe averiguar se o dinheiro coletado com impostos pagos pelos passageiros nos aeroportos e pelas companhias aéreas ao governo está sendo bem empregado. "A aviação se autofinancia. A estrutura dos aeroportos deve ser financiada dessa forma, o sistema é desenhado para que os aeroportos possam funcionar. Sigam o dinheiro", recomendou. Ele disse também que tão importante quanto a estrutura física de um aeroporto é aumentar investimentos em mão-de-obra para a formação de bons pilotos e mecânicos. Reter talento tem sido difícil em vários países, afirmou, já que o crescimento do tráfego aéreo internacional aumentou a demanda por profissionais. Ele relatou casos de pilotos brasileiros indo trabalhar na China, e contou que a Indonésia perdeu 30 por cento de seus pilotos para o Oriente Médio. Voss acredita que a situação é ainda pior na base da pirâmide, onde os salários são mais baixos, como é o caso dos controladores de vôo. O especialista acredita que já era tempo de o governo achar uma solução para a insatisfação desses profissionais no pais. "Eu tenho ouvido muito barulho sobre isso. Mas eu não tenho visto muita ação positiva." MAIS TRÁFEGO Voss, que já foi diretor da Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO, na sigla em inglês), filiada à Organização das Nações Unidas, concorda que o fluxo de vôos está aumentando no Brasil e na América Latina, mas advertiu de que há outras regiões sob mais pressão. Esse é o caso do Oriente Médio, onde se projeta maior crescimento em número de passageiros no mundo até 2010, de 6,9 por cento, e é, curiosamente, a região que registra menos acidentes segundo a Associação Internacional de Aviação Civil (Iata). De oito regiões no mundo, a América Latina é a quarta com maior crescimento estimado no fluxo de passageiros, com 4,6 por cento, diz a Iata. Sobre o Brasil, porém, recai pressão sobre os vôos domésticos, disse Steve Lott, porta-voz da organização em Washington. O tráfego aéreo dentro do país deve crescer 8,3 por cento em 2007.

ADRIANA GARCIA, REUTERS

20 Julho 2007 | 18h30

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