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Escola contra violência

A humilhação, combinação de vergonha e raiva, geraria no longo prazo um conflito psicológico corrosivo e perigoso

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Jairo Bouer

09 Abril 2017 | 05h00

Como pensar em uma escola que possa contribuir para a prevenção das diversas formas de violência existentes em nossa sociedade? Alguns trabalhos publicados nas últimas semanas dão pistas nessa direção. Em uma fase do desenvolvimento em que crianças e jovens estão estruturando os padrões de comportamento que vão adotar na vida, que intervenções ou abordagens poderiam ser utilizadas?

O primeiro estudo sugere que a humilhação é um dos combustíveis para o escalonamento de ideias radicais e extremistas, que contribuiriam, por exemplo, para que jovens decidam se engajar em práticas terroristas ou em atos de violência exacerbada. 

A humilhação, combinação de vergonha e raiva, geraria no longo prazo um conflito psicológico corrosivo e perigoso. Os textos foram publicados em uma edição especial do periódico American Psychologist e foram divulgados pelo jornal inglês Daily Mail. 

Especialistas acreditam que se os impactos da humilhação no comportamento fossem melhor compreendidos e até evitados, a violência em um determinado grupo poderia ser reduzida. Outro aspecto surpreendente dos trabalhos mostra que não são apenas os mais “fracos” que podem se sentir humilhados. A sensação de impunidade causada, por exemplo, por um ato terrorista contra um grupo ou um governo, em que os responsáveis não são devidamente punidos, pode gerar humilhação nos mais “fortes”. Assim, o ciclo de violência seria retroalimentado. 

Extrapolando para o ambiente escolar o impacto que a humilhação pode ter na radicalização de ideias e comportamentos, seria interessante que professores, pais, alunos e direção pudessem pensar em projetos e programas que evitassem essa situação entre os jovens. Incluir e não excluir todos os envolvidos parece ser o melhor caminho.

Sabemos que o bullying é um dos fatores que pode gerar vergonha, desprezo, raiva e isolamento. Ao combater essa forma de pressão emocional e assédio moral, se reduziria a humilhação vivida no dia a dia por muitos jovens e, assim, por tabela, se diminuiria tanto o sofrimento e a tristeza deles como eventuais reações violentas e potencialmente explosivas dos dois lados.

Outro estudo, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, mostra que 42% dos jovens britânicos que gostam de humilhar os colegas enfrentam uma preocupação excessiva em perder peso ou ganhar mais músculos. Entre as vítimas, esse índice é ainda maior, de 55%. Essa situação tornaria esses jovens mais propensos a desenvolver transtornos como anorexia e bulimia, segundo o estudo, publicado no periódico International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity.

Assim, a escola que trabalha melhor as diferenças e combate ativamente os preconceitos geradores de humilhação pode estar contribuindo para a formação de indivíduos melhores e mais felizes, o que, em última instância, levaria a uma sociedade mais justa e menos violenta.

Nesse sentido, aqui no Brasil, no momento em que o Ministério da Educação define a Base Nacional Comum Curricular, retirar as menções a “identidade de gênero” e “orientação sexual” do texto final vai na contramão do que é razoável e amplamente amparado em evidências em vários países. A medida desobriga ou, na melhor das hipóteses, deixa na mão de cada escola ou rede municipal ou estadual decidir se esse assunto é ou não relevante na redução de preconceito e violências. E está mais do que óbvio que é! Ainda dá tempo de mudar e evitar, assim, a perpetuação desse equívoco histórico. 

É PSIQUIATRA

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