Esperando por Obama

Quando cheguei ao Brasil, anos atrás, fui advertido. "O Brasil não é o melhor lugar para um jovem repórter americano", diziam os mais comedidos. A preocupação dos amigos e colegas não era com minha segurança nas ruas tenebrosas do Rio de Janeiro, senão com o meu futuro. É que ninguém se importava com a América Latina, diziam. Logo, o Brasil seria o túmulo de carreiras.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

Acabei ignorando os céticos e ficando por aqui, onde fiz amigos, família, muitas voltas - e também uma carreira, cujo prazo de validade ainda não expirou. Gostaria de dizer que foi tudo pressentimento, a minha convicção de que, mais dia, menos dia, este país surpreenderia a todos, levantando-se de vez do berço esplêndido para mostrar a que veio e abraçar o destino.

De fato, acabei ficando mais por teimosia ou, quem sabe, fascínio com este país que a todo momento parecia prestes a ruir para depois se reinventar. Mesmo assim, me senti de alma lavada quando em janeiro passado o presidente Barack Obama anunciou, em seu discurso do Estado da União, a intenção de vir ao Brasil. O itinerário e o momento da sua visita são emblemáticos.

Há quem minimize a visita como um gesto simpático, mas essencialmente ornamental. Afinal, o Oriente Médio está em chamas. A devastação no Japão ameaça a saúde de milhões, a fé na energia nuclear e, agora, a economia internacional. E agora o Congresso americano, com maioria republicana, está em revolta aberta contra o governo Obama.

Por essas e outras, o líder da combalida, mas ainda indiscutível, hiperpotência do planeta não teria muito a oferecer aos "sócios igualitários" do hemisfério ocidental, como Obama chegou a dizer em 2009, a não ser o seu sorriso. Esqueça, portanto, o fim das barreiras comerciais americanas contra a carne e o etanol brasileiros, que dependem de um Parlamento onde Obama não manda mais. E nem pensar no sonhado assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Mas, mesmo que não nasça nenhum grande acordo ou iniciativa inovadora bilateral, a vinda de Obama sinaliza uma mudança tectônica nas relações nas Américas e no mundo. Pautada para crescer acima de 4% neste ano, enquanto os países ricos patinam, a América Latina já é vista como solução, e não mais região problema para a economia mundial, sobretudo americana.

Há muito em jogo. Enquanto Obama se distrai com turbulências distantes, também preside um meltdown comercial e diplomático no seu próprio quintal. A China chega sorrateira com contratos, tratados e navios de renminbi, comprando de bauxita a petróleo. Já ultrapassou os EUA como maior importador de matéria-prima latina e principal parceira comercial do Brasil, Peru e vizinhos.

A pauta econômica é apenas um dos motivos da reaproximação norte-sul. Os três países na agenda pouco se parecem, mas ostentam ativos importantes que podem ser a senha para o futuro das Américas. O Chile está na pauta porque é um pequeno celeiro de bom gerenciamento e convivência pacífica entre ideologias divergentes. Pobre e miúdo, El Salvador se credencia porque sobreviveu a uma guerra civil dilacerante e ainda soube reinventar a democracia. E o Brasil é o Brasil, um portento com voz ponderada e viés pragmático - traços que ganham relevo num momento de transição nas relações entre as nações.

Antes do colapso financeiro, enquanto as maiores bolsas internacionais só subiam, o Brasil era quase desprezível. Democrático, sim. Estável, idem. Mas sua economia crescia pouco e mal iluminava as telonas dos corretores e especuladores à caça de prêmios mais promissores, seja na China comunista, seja na África autoritária. "Autocracia não atrapalha", admitia Mark Mobius, megainvestidor especializado em mercados emergentes. Tradução: a exuberância irracional ofuscou a estabilidade, desmoralizou a democracia.

As sensibilidades mudaram. Com a revolta no mundo árabe e ditaduras "confiáveis" na berlinda, o dinheiro busca refúgios mais serenos. De repente, a democracia virou sexy, também. Para os EUA, mais vale contratar a promessa do petróleo do pré-sal brasileiro do que hipotecar o futuro do abastecimento de energia nas areias e pântanos de petrocratas e califas. Melhor para o Brasil.

Os mercados latinos ainda não garantem retornos chineses, mas oferecem algo mais, segurança e previsibilidade, num tabuleiro democrático. Uma democracia confusa e falha, talvez, mas funcional. Se nada mais de concreto surja da visita de Obama ao Brasil, o reconhecimento da democracia como moeda de lastro nas relações entre nações já seria um golpe de mestre.

A visita de Obama não confere um upgrade ao Brasil. É consequência. Se de fato o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era "o cara", como Obama o batizou antes de a relação dos dois desandar, era apenas porque o Brasil era o País. Continua sendo.

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