André Dusek/ AE
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'Estão com nervos à flor da pele por razões que desconheço', diz Cardozo

Ministro da Justiça diz que governo paulista quer transformar investigação em disputa política

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2013 | 22h16

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que o governo de São Paulo, comandado pelo tucano Geraldo Alckmin, está com os "nervos à flor da pele" desde que veio à tona a investigação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sobre a formação de cartel nas licitações de trens e metrôs em administrações do PSDB. "Estão com nervos à flor da pele por razões que desconheço", afirmou Cardozo. "Querem transformar em político o que é investigativo."

Estado - O governador Geraldo Alckmin disse ser "estranho e lamentável" o Cade ter decretado sigilo de informações sobre investigações referentes a um cartel em licitações de trem e metrô. Por que esse sigilo?

Cardozo - Tenho a impressão de que há uma estratégia deliberada (do governo paulista) para transformar uma investigação séria e técnica em uma disputa política.

Estado - Por quê?

Cardozo - Algumas pessoas estão com nervos à flor da pele por razões que desconheço. Todos sabem que a Justiça Federal determinou o sigilo processual em relação ao material apreendido. Logo, o Cade não pode entregar os documentos a quem quer que seja sem autorização da Justiça. A própria Polícia Federal está pedindo autorização judicial para obter esses documentos.

Estado - A Justiça Federal negou hoje o mandado de segurança impetrado pelo governo de São Paulo para ter acesso aos papéis...

Cardozo - O que me causa surpresa é o fato de o governo de São Paulo ter optado por impetrar mandado de segurança para obter os documentos sob investigação do Cade, criando um litígio com conotações políticas, quando poderia ter feito uma simples petição à juíza federal que decretou o sigilo. Querem transformar em político o que é investigativo.

Estado - Para o ex-governador Alberto Goldman, que também é do PSDB, o Cade é um braço do PT no governo. Ele diz ter ouvido que o presidente do Cade, Vinícius Carvalho, é sobrinho do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Isso procede?

Cardozo - Só posso entender isso como uma piada bem humorada. Aliás, não é do feitio do nosso vice-governador falar as coisas sem checar. O presidente do Cade não é parente do ministro Gilberto Carvalho. Tem apenas em comum o sobrenome. Dizer que o Cade é braço de qualquer partido traz espanto e indignação.

Estado - O PSDB alega haver um "vazamento seletivo" das investigações. Como o sr. responde a essa acusação?

Cardozo - A situação é tão inusitada e os nervos estão tão à flor da pele que é a primeira vez que vejo uma acusação de vazamento seletivo por quem diz não ter as informações do caso. Como sabem se foi seletivo se não têm as informações? Das duas uma: ou já sabem as informações, e dizem que é seletivo, ou não sabem e prejulgam sem conhecimento.

Estado - O primeiro inquérito da Polícia Federal já foi relatado pelo Ministério Público. O governo paulista diz não entender o motivo de uma investigação tão antiga só ter vazado agora. Seria por causa da eleição?

Cardozo - Tenho certeza de que o Cade não vazou. Há outros órgãos respeitáveis, envolvidos nas investigações, como a Polícia Federal, o Mnistério Público Estadual e o Ministério Público Federal. Por que elegeram o Cade como autor do vazamento? É muito estranho. Só posso atribuir isso a nervos à flor da pele que não permitem que os fatos sejam vistos como são.

Estado - Documentos obtidos pelo Estado mostram que o cartel de trens e metrô pode ter desviado recursos de R$ 577, 5 milhões em São Paulo e no Distrito Federal. O governador Alckmin diz que, se for confirmado o cartel, entrará com ação de ressarcimento dos prejuízos. É possível reaver o dinheiro?

Cardozo - Se for comprovada a lesão aos cofres públicos nessa dimensão, todos os envolvidos terão de responder nos termos da lei com sanções pesadas. É legítimo o Estado entrar com essa ação. O Cade está fazendo uma apuração isenta e todos têm interesse em conhecer os fatos. Não podemos aplaudir uma investigação quando ela é contra os adversários e falar em perseguição política quando atinge nossos parceiros.

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