Estrutura de antigo Cais da Imperatriz é achada durante escavação no Rio

Construído para receber a imperatriz Teresa Cristina, o atracadouro sucumbiu às reformas urbanas que mudaram - e mais uma vez prometem mudar - a feição da zona portuária do Rio

Felipe Werneck, O Estado de S. Paulo

01 Março 2011 | 20h44

RIO - Estruturas do antigo Cais da Imperatriz, projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny em 1843, foram reveladas durante escavações feitas pela prefeitura do Rio para a instalação de novas galerias pluviais na Avenida Barão de Tefé. Construído para receber a imperatriz Teresa Cristina, o atracadouro sucumbiu às reformas urbanas que mudaram - e mais uma vez prometem mudar - a feição da zona portuária do Rio.

 

Por recomendação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), arqueólogos do Museu Nacional foram chamados para supervisionar as obras. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) disse que vai preservar as estruturas e integrá-las ao novo desenho urbano, criando um centro de visitação. "Achei absolutamente fantástico. A ideia é fazer daquilo nossas ruínas romanas." O superintendente do Iphan, Carlos Fernando Andrade, solicitou ao consórcio responsável pelo projeto Porto Maravilha naquele trecho que aumente a área de escavação.

 

"Provavelmente, há um cais mais antigo abaixo", disse ele, que foi convocado pelo prefeito para uma reunião na sexta-feira. A arqueóloga responsável pelo trabalho no local, Tânia Andrade Lima, não quis dar entrevista, mas especialistas ouvidos pela reportagem atestaram a autenticidade e a importância histórica da construção encontrada na Barão de Tefé.

 

A historiadora, arquiteta e urbanista Margareth da Silva Pereira, professora do programa de pós-graduação em Urbanismo da Federal do Rio (UFRJ), iniciou no sábado uma campanha, por e-mail, pedindo a ajuda de amigos e colegas na "luta pela valorização e preservação da história do Rio". Ela citava o que chamou de "redescoberta" do Cais da Imperatriz, aterrado no início do século XX. "Até a semana passada pensávamos que essas estruturas tivessem sido destruídas. Mas não estão!"

 

Escravos. Margareth defendeu uma prospecção "mais ampla" na área. O interesse maior, segundo o Iphan, é achar o Cais do Valongo, "de densidade histórica inconteste, particularmente para a trajetória da comunidade afro-descendente". Ali, desembarcavam os escravos. Para Margareth, trata-se de uma "oportunidade magnífica". "A arqueologia urbana ainda está pouco integrada aos processos de renovação da cidade, muitas vezes feitos sem atenção aos vestígios da história", disse a professora.

 

Agora, as manilhas de águas pluviais terão que ser desviadas. "Já solicitamos a alteração do desenho geométrico da pista próxima ao Hospital dos Servidores para que o sítio socializado tenha maior significância. Evidentemente não podemos fazer isso com o cais inteiro, pois teríamos que inviabilizar a cidade que temos. Quanto às novas galerias, ficarão assentes sobre um trecho mínimo da estrutura do cais e, em seguida, recobertas", informou o Iphan.

 

A historiadora cita o projeto do arquiteto espanhol Santiago Calatrava para o Museu do Amanhã, no Píer Mauá, considerado um dos principais na reforma da zona portuária, ao defender a preservação do antigo cais, "uma relíquia nossa". "Devemos ter ali várias camadas de história. Temos que começar a valorizar isso."

 

No projeto de Montigny, o Cais da Imperatriz era precedido de uma Praça Municipal que, segundo Margareth, representa "um emblema das lutas municipalistas do século XIX". "Por outro lado, é obra de grande erudição e domínio de escalas", disse ela, torcendo para que, no Rio de 2011, haja diálogo entre patrimônio e inovação.

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