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‘Eu nunca tinha atirado em ninguém, mas atirei de susto’

O Estado de S.Paulo

13 Abril 2014 | 03h 00

Depois de participar de dois latrocínios no mesmo dia, e de três fugas, Flávio Machado passa quase toda a vida adulta na prisão

Flávio Machado, 59 anos

O que fez: matou um homem e participou de assalto que resultou em outra morte

Idade ao cometer latrocínio: 22 anos

Pena total: 50 anos (48 por dois latrocínios e furto e 2 por ter fugido)

O que o fez ir para o crime: desejo de comprar casa

O que o teria evitado: ouvir os conselhos do pai

Estudei até o 4.° ano primário. Com 19 anos, me amasiei. Fiz um concurso em empresa de carro-forte. Passei em todos os exames. Fiz academia de polícia na Cidade Universitária. Consegui emprego. Trabalhei 10 meses.

Eu queria pegar um dinheiro que pudesse ajeitar minha vida. Minha mulher estava grávida. Queria comprar uma casinha, não pagar aluguel. Meu plano era continuar trabalhando. Sem experiência nenhuma, eu pensava que, pegando o dinheiro, continuava minha vida normal, mudava de bairro e ia viver tranquilo. Estava trabalhando quando em 1977 entrei nessa vida do crime devido a não ter ouvido os conselhos que meu pai me dava. Entrei em companhias erradas. Eu tinha 22 anos. Ouvi outras pessoas e entrei de gaiato. Não era pra ter entrado nessa vida. Foi de tanto ficarem me procurando que acabei indo. Me procuravam porque eu tinha armas e emprestei para eles. Furtei essas armas na casa de um sargento reformado do Exército.

Quinze dias depois, foi um assalto a um mercado. Estava eu e mais os três que me convidaram pra fazer isso. Disseram que tinha 60 milhões, e tal. Eu nunca tinha atirado em ninguém. Mas atirei de susto. Na hora que os guardas vieram tirar a corrente o comerciante saiu, foi pegar uma coisa. Achei que ele fosse pegar uma arma na gaveta, e atirei. fomos ver e tinha uma arma. Os caras que tavam comigo pegou a arma e levou embora.

Eu sempre falava pros caras: "Esse negócio aí de assaltar pode dar desacerto. Se a vítima reage, você vai tentar se defender, vai atirar." Eles: "Não, não vai acontecer nada, a gente não vai precisar matar ninguém não, vai dar tudo certo".

No mesmo dia, depois desse primeiro assalto, (a gente) fez outro, que já tava complicado mesmo. Foi numa casa de câmbio. Aí, a mesma coisa. O pessoal esboçou reação e o outro que estava junto atirou. Eu estava junto, pego o mesmo tempo de cadeia que o outro pega.

Eu não era pra ter entrado nessa situação. Depois que entrou, sujou tudo.

Mas tentei me recuperar lá fora mesmo, antes de ser preso. Não adianta. Era tarde. Uma hora eles iam me pegar. Me afastei dos caras. Fiquei com bronca de todos eles. Fugia deles. Não queria saber mais de conversa com aqueles caras. Até que fiquei sabendo que a polícia matou os três, na hora da prisão. Deve ter sido troca de tiros. Só faltava eu. Eu sabia que uma hora ia ser pego. Estava desesperado. Pelo empenho que eles fizeram para pegar eu, a impressão que eles tinham era que eu ia reagir. Eu não reagi na hora que a polícia chegou.

Fui preso 6 meses depois de cometer o crime. Fui encontrado pela polícia numa casa para onde mudei, próxima da outra, com medo de ser preso. A polícia investigou, perguntou para um e para outro, até descobrir onde eu estava. Quando eram 2 horas da madrugada, a Rota entrou. Arrebentou a porta. Não deu tempo de fazer nada. Eu tinha dois filhos, um de dois anos e uma de um ano. Revistaram minha mulher. Ela não sabia de nada. Meu filho e minha mulher começaram a chorar.

Logo que cometi essas coisas, parei de trabalhar, com medo de ser pego. Depois que fiz os dois delitos, fiquei com tanto medo que vivia correndo de lá pra cá, mudando de um lugar pro outro. Não fui mais trabalhar. Minha vida desandou. Quando cometi, achei que errei gravemente e vivia sempre fugindo. Pegamos um pouco de dinheiro. Fui gastando, gastando. Não comprei a casa que eu queria, por causa do medo. Fiquei sabendo das mortes. Os roubos normalmente não levam a prisão. É mais o latrocínio, sequestro. A polícia se empenha mais até pegar.

Fui condenado a 48 anos de cadeia. Fui para a Cadeia Pública de Guarulhos, de lá para o antigo Presídio do Hipódromo e depois para o Carandiru, onde fiquei 10 anos. Eu trabalhava de motorista numa firma de segurança. Fiz treinamento com armas, defesa pessoal. Não precisava. Mas de repente entrei e cometi. Depois de 10 anos que eu estava no Carandiru, tive o benefício de sair no regime semiaberto. Fui para o Instituto Penal Agrícola de Bauru. Fiquei mais ou menos 6 meses dentro do Agrícola, depois me passaram para trabalhar na firma na rua. Trabalhei mais ou menos um ano. Depois lá tava havendo muita pressão entre os presos, muita confusão, e eu via que cada dia as coisas iam piorando, que a qualquer hora poderia acontecer alguma coisa comigo. Pressão entre os presos, que acham que a gente é alcaguete, informante, porque sempre me comportei de forma diferente da malandragem. Convivia com eles mas não queria ser igual a eles. O pessoal só vivia no crime. Só fala nisso. Eu sou diferente. Não falo gírias de cadeia. Aí a situação vai piorando a cada dia que passa.

E lá, quando acontece alguma coisa com o preso, ele vai diretamente pro fechado. Então depois de um ano, e de ter ido várias vezes na rua e voltado, trabalhando na firma, é que eu resolvi abandonar no semiaberto, em 1987. Fui trabalhar num sítio em Lauzane Paulista. Fiquei lá dois anos. Seu eu ficasse ali, não ia acontecer nada. Mas comprei um Opala velho e comecei a fazer comprinhas. Saía e retornava pro sítio. E numa dessas vezes, voltando, passa um comando, parou, pediu documentação. Cadê a carta, o documento? Tinha o documento do carro, mas o restante eu deixava tudo em casa. Fizeram averiguação e constataram que eu tinha abandonado o semiaberto. Depois de dois anos trabalhando sem me envolver com nada. Entrei primário na cadeia e lá aprendi tudo. Mas não nasci pra vida do crime. Se não, tinha saído diplomado, malandro. Sempre trabalhei nas cadeias, nas copas e cozinhas. Sempre com respeito pelos funcionários e presos.

Voltei pra Casa de Detenção, o Carandiru. Ali fiquei mais uns bons quatro anos. Com bom comportamento trabalhando na copa, na cozinha, consegui novamente o semiaberto pela segunda vez. Fui para Ataliba Nogueira, em Hortolândia. Fiquei mais um ano ali. Trabalhava no Ceasa de Campinas. Devido à pressão, acabei abandonando. Eu sentia que estava sendo ameaçado. Nessas conversas escondidas entre os presos. Vira e mexe acontecia alguma coisa lá, blitz, achavam que alguém alcaguetou. Foi se apertando. Eu achava que uma hora, em uma saída na rua, podia acontecer alguma coisa comigo. Tem cinco saídas por ano no semiaberto: Páscoa, Dia das Mães, dos Pais, Finados, Natal e Ano Novo, que são 11 dias emendados. Então, saí. Fiquei trabalhando em outro sítio. Me casei e junto com minha mulher fui trabalhar. Fiquei lá seis anos. E era bem querido pelos patrões. Até hoje se procurar saber, fui um bom empregado. Não falei que tinha estado preso. Se falasse, eles não tinham me dado emprego. Eles falaram isso pra mim depois que foi descoberto: "Mas independente de tudo que você fez no passado, eu agora te aceitaria de volta, porque a gente sabe a personalidade que você é. Mas, de cara, não daria". Me ajudaram. Foram até me visitar no regime fechado.

Comprei um carro. Um dia, tinha viatura, que me deu uma paradinha só pra averiguar. Pediram os documentos e de novo aconteceu a mesma coisa.

Agora pela terceira vez abandonei o semiaberto, trabalhei dois anos e fui pego novamente. Fiquei um total de 10 anos trabalhando na rua: a primeira vez, dois anos, a segunda, seis anos, e a terceira, dois anos. A polícia me pegou sempre trabalhando e sempre os meus patrões tentaram me ajudar.

Agora aqui (penitenciária), eu estava trabalhando na cozinha, e devido a um probleminha que teve na troca dos funcionários me colocaram pra trabalhar na jardinagem, pra roçar, fazer plantação, e assim estou trabalhando, sempre com respeito por todos.

Tem gente que sai pra liberdade e comete delitos até piores. Não sei como pode existir pessoas assim. Eu abandonei o semiaberto três vezes, mas não foi pra cometer crime. Foi pra trabalhar. Vou fazer 60 anos. Entrei na cadeia com 22. Não nasci pra vida do crime. Foi uma coincidência. Meu pai me deu educação. Me arrependi muito. No Carandiru, sofri toda espécie de humilhação e decepção que um ser humano pode sofrer. Só tô livre porque Deus me permitiu.

Quando cheguei no Carandiru, fui para o Pavilhão 9, de primário. Naquele tempo, existia toda espécie de coisa: estupro, não tinha visita íntima. Não cheguei a esse ponto de acontecer comigo. Mas aconteceu com um monte de rapazes. E ser morto também. Vi tantas mortes lá. A prisão era o último lugar onde um homem pode chegar.

Estava no massacre dia 2/10/1992. Era carrinheiro da cozinha geral do Pavilhão 6. Houve uma briga no campo do Pavilhão 9 e por volta das 4 da tarde era hora de recolher todos os presos. No 3.o andar, os que fizeram a briga no campo entraram em choque. Formava-se família zona norte e zona sul, e eles usavam estiletes e facas. Um começou a furar o outro. E um funcionário subiu pra fazer a contagem. Quando deparou com aquele cena, se assustou, largou a caixinha de contagem e desceu com tudo pelas escadas, porque o elevador estava quebrado. Lá embaixo, comunicou que estavam reunido e matando lá. Foi uma briga entre eles e não rebelião. O Pavilhão 9 esvaziou (de funcionários). Foram tirados todos de lá. Por volta de 6 da tarde entraram.

Quando cheguei na Casa de Detenção, tinha 9 mil presos. Quando aconteceu isso, estava com 7.600 presos. No Pavilhão 9, tinha 1.200.

Passaram a noite todinha atirando. Os presos todos soltos. 111 foram só o que as famílias reconheceram. Na verdade, foram mais de 400. Fui obrigado a carregar os corpos.

Fui condenado a 48 de cadeia e 2 de medida de segurança. Antes de ir para o semiaberto, fiquei à disposição do COC (Centro de Observação Criminológica) durante seis meses. Trancado numa cela, a cada dois dias era chamado pra fazer um exame, responder perguntas. Foi cessada minha periculosidade e com a graça de Deus consegui pela primeira vez ir para o semiaberto. Todas as vezes foi a mesma coisa. A pena estava em 43 anos. Estou cumprindo, tirando os 10 anos (de fuga), 26 anos. Ouvi falar que a pessoa, tirando um ano de castigo, pode requerer novamente o benefício. Tenho direito ao condicional, a todo tipo de benefício. Só que tenho que pagar o castigo, porque voltei há pouco tempo, 7 meses (depois da recaptura). Meu advogado é do Estado.

Meu patrão colocou o filho dele, que é advogado criminalista, que veio me visitar uma vez. Ele falou: "Não posso fazer nada por você no momento. Você foi capturado, tem que pagar o castigo de um ano. Depois de um ano, posso pedir a sua condicional". Mas depois disso, não voltou mais.

Meu plano, quando sair daqui, é voltar a trabalhar no mesmo serviço de caseiro em sítio.

Tenho três filhos. Um filho entrou no vício do crack e passou a ficar devendo. No dia 28 de agosto de 1998, numa emboscada, deram dois tiros nele. Meu filho se foi. Até hoje ninguém foi preso. Ele tinha 19 anos. Tenho outro filho, de 32 anos, que está com 4 filhos. É pobre, mas é digno, trabalhador. Minha filha de 36 anos também. Trabalha dia sim dia não de guarda à noite na prefeitura.

Eles não me visitam. O rapaz não gosta de mim porque quando eu estava preso mandei que a mãe dele doasse ele. Ele acredita na mãe dele, não na minha versão: eu achava que o filho não era meu. Ela disse que era, que ia no Ratinho provar, mas nunca provou, até hoje. Mas tudo leva a crer que é, sim, porque ele é a minha cara. Mas na verdade eu queria ver a prova. Porque eu estava preso e não tinha visita íntima. Nós só se encostava, namorava, se relava. E ela acha que pode passar o sêmen do homem através da roupa. Mas eu não acredito nessa versão.

O que evita que as pessoas entrem no crime é uma boa educação familiar, que os pais sempre estejam verificando a situação dos seus filhos.

Tive que mudar meu filho três vezes de escola porque queriam que ele fumasse maconha. Chamavam-no de nomes, achavam ruim porque ele não participava. No fim, acabei tirando da escola. Trouxe ele para trabalhar comigo no sítio. Ele não quis saber de trabalhar em sítio. Quis ficar com a mãe dele. Eu estava evadido. Não podia buscar ajuda. Às vezes, levava ele no pronto-socorro, mas tinha medo de ser pego. Três dias depois, mataram ele.

As escolas tinham que mudar, ter mais disciplina, ser mais rigoroso, não deixar essas crianças. Mas isso vem dos pais, da criação.

Vivi pouco tempo com minha mãe. Quando eu tinha 9 anos, meu pai se separou dela, e ela ficou lá em Ibirama, Santa Catarina, onde morávamos. Meu pai veio para São Paulo, trabalhar em uma empresa na Parada Inglesa. Arrumou outra mulher e vivi com madrasta. Não fiquei com minha mãe porque ela me disse: "Mamãe não sabe para onde vai. Não sei o que me espera. Se eu for para casa, seu pai vai me bater. Fique aí, que depois venho buscar vocês". Foram as últimas palavras que ouvi dela. Passaram muitos anos. Realmente ela veio, quando eu tinha 17 anos. Mas não conseguiu pegar os filhos. Meu pai não deixou. É difícil ser criado por uma pessoa que não dá o mesmo carinho que a mãe dava.

Fiquei seis meses à disposição da equipe de psiquiatria no Centro de Observação Criminológica. Mas isso foi depois do crime. Antes, não tinha conhecimento dessas coisas.

Queria que todos tivessem consciência de que o principal é a educação. Fiz até o 4.º ano porque meu pai não me deixou estudar mais. Tive que ir trabalhar. No Instituto Penal Agrícola de Bauru, fiz o supletivo do 1.º grau e 2.º grau incompleto, devido a ter saído.

Se eu pudesse voltar tudo de novo, eu não faria isso (o crime). A cadeia não regenera. A cadeia é como uma escola do crime, onde se aprendem todas as coisas. Eu não nasci para esse tipo de coisa.

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