''Eu sou o cara'', disse Alves, após atirar em PM

Na quarta, depois de libertada, Nayara revelou que no cativeiro ele muitas vezes não sabia o que fazer, batia em Eloá e alternava calma e violência

Marcela Spinosa, O Estadao de S.Paulo

20 Outubro 2008 | 00h00

"Sou o príncipe do gueto e o cara que manda no local." Foi o que disse Lindemberg Fernandes Alves, quando viu pela janela do apartamento onde manteve a ex-namorada refém que o prédio estava cercado. A frase dita na segunda-feira, primeiro dia do seqüestro, foi revelada por Nayara, a refém que sobreviveu, em depoimento a polícia na quarta-feira, um dia após ter sido libertada. Na quinta-feira, a pedido de Alves, ela voltou para o cativeiro. O depoimento de Nayara mostrou a rotina dos reféns nos dois primeiros dias do cárcere privado e ajudou a polícia a construir um perfil do criminoso. Alves estava violento e fez quatro ou cinco disparos, segundo a adolescente. Ela disse que o seqüestrador não sabia o que fazer, batia em Eloá e seu humor se alternava entre momentos de calma e tensão. Alves também ria dos policiais que fizeram as primeiras negociações. Ele entrou no apartamento de Eloá às 13h30 de segunda-feira, com o revólver calibre 32 e um saquinho contendo 20 ou 30 estojos íntegros de munição. Quando chegou, dois amigos da jovem estavam no quarto de Eloá, mexendo no computador. A garota preparava o almoço e Nayara arrumava a cama da amiga. O seqüestrador ordenou que todos fossem para o quarto da adolescente. Ao entrar lá, deu um tapa na cara de um dos meninos e, em seguida, no outro jovem porque não acreditava que eram amigo de escola de Eloá. "Ele dizia que estava uma pilha de nervos", disse Nayara no depoimento à polícia. Quando Eloá tentava falar com Alves, ele a agredia com chutes, tapas e puxões de cabelo. Nayara e um dos reféns foram usados como escudo quando o seqüestrador foi na janela ver a movimentação. Pediu a todos que ficassem em silêncio. A campainha do apartamento tocou duas vezes e o irmão mais novo de Eloá atirou pedras na janela para chamar a irmã. Ele ordenou que todos ficassem em silêncio. Foi quando os pais dos reféns começaram a ligar. O primeiro a saber do seqüestro foi Aldo, pai de Eloá, quando Alves atendeu uma das ligações. Orientada por ele, Eloá disse ao pai que os quatro eram mantidos reféns e Alves estava armado. "Ninguém podia se aproximar do prédio e a polícia não deveria ser acionada", afirmou Nayara. Aldo ainda tentou convencer Alves a deixá-lo entrar na casa, mas não teve sucesso. O pai dela disse que o tinha como um filho. O seqüestrador respondeu "que o respeitava, o considerava e tinha muita amizade por ele, mas ele tinha pisado na bola com ele". A Polícia Militar foi acionada pelo pai de um dos reféns. Nesse momento, Nayara convenceu Alves a libertar os dois garotos. O primeiro foi solto às 22 horas e, o segundo, às 23 horas. Em seguida, o seqüestrador, por celular, passou a negociar com o sargento Atos Antonio Valeriano. "Ele disse que os PMs não estavam acreditando nele e somente ?iriam botar uma fé? quando uma das reféns fosse morta", disse Nayara. Alves, então, atirou contra o sargento. "Em seguida, ele começou a rir e disse: ?Eu sou o cara?." Os policiais, por segurança, saíram da porta do apartamento. Alves, em um novo contato, pediu para eles retornarem. O pedido foi negado, por causa do tiro que havia sido disparado. Alves achou a conversa divertida e comentou que os PMs estavam com medo dele. Nesse momento, acalmou-se um pouco e passa a tratar Eloá de uma forma mais afetiva e simpática. O comportamento durou pouco. Logo ele pegou o celular da ex-namorada e viu uma mensagem de texto de um rapaz. Alves ficou nervoso e começou a discutir com as meninas no quarto dos pais de Eloá. "Ele saiu de lá, foi até a janela do banheiro e atirou contra as pessoas que estão na frente do prédio", contou Nayara. Ao voltar para o quarto, a briga recomeçou. LIBERTAÇÃO Na terça, Alves prometeu que libertaria Nayara no dia seguinte, mas ela o convenceu a liberá-la naquela noite. Ele a levou até a porta e disse para ela correr. Caso saísse devagar, receberia um tiro nas costas. Após 33 horas em poder de Alves, Nayara seguiu as orientações do seqüestrador. Mas voltou na quinta-feira e só saiu do local na sexta, baleada. .

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