EUA creem que lobby pró-Boeing deu certo

Na véspera da visita de Obama chegou às mãos de Dilma carta do Senado americano

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

22 Março 2011 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL / SANTIAGO     Os Estados Unidos acreditam ter começado a virar o jogo favorável à França no processo de compra de caças para a Força Aérea Brasileira (FAB). Na sexta-feira, véspera do encontro entre os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama, os líderes dos dois partidos americanos no Senado enviaram ao governo brasileiro carta conjunta na qual expressaram apoio à venda dos aviões Boeing F-18 Super Hornet.

No texto, democratas e republicanos indicaram que o contrato e a oferta de transferência de tecnologia não sofrerão mudanças posteriores. A informação foi confirmada por duas autoridades do governo americano.

Segundo essas fontes, coube à própria Dilma levantar a questão na conversa com Obama. A presidente introduziu o tema quando abordava a necessidade de os dois países iniciarem um diálogo sobre a modernização do comércio bilateral, adotando uma "visão de futuro". A compra de caças, explicou Dilma, poderia representar um meio de Brasil e EUA explorarem interesses específicos e construírem uma relação concreta também em transferência de tecnologia e capacitação de recursos humanos.

Na conversa, Obama insistiu com a brasileira na decisão de conceder ao Brasil o mesmo tratamento dado aos principais aliados dos EUA, como Reino Unido e Austrália, nos contratos de venda de aviões de combate e de outros equipamentos militares.

Obama já contava com a carta dos dois líderes no Senado - o democrata Larry Reed e o republicano Mitch McConnell - devidamente entregue ao gabinete de Dilma no dia anterior. "Tomara que esse jogo realmente vire. É óbvio que as pessoas encarregadas de estudar os três concorrentes consideram o Super Hornet o melhor", afirmou, referindo-se ao único dos caças amplamente testado em combate.

Aberto há mais de dez anos, o processo está suspenso - o governo brasileiro alega não haver condições orçamentárias neste ano para a definir a compra.

Em setembro de 2009, em uma surpreendente declaração, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, na véspera da visita oficial do presidente da França, Nicolas Sarkozy, ao Brasil, que as negociações com a francesa Dassault para a compra dos Rafale estavam "avançadas" e que o governo chegaria a um acordo com o país. Com isso, deu um sinal forte de que o F-18 e o Grippen, da sueca Saab, haviam perdido a disputa.

"Sucesso". De acordo com a mesma autoridade americana, o encontro entre os presidentes foi "excelente" e a primeira visita de Obama ao Brasil, "um sucesso". Em sua avaliação, ambos estabeleceram "uma relação bem definida", baseada nas convergências, e um jeito próprio de dialogar. Trata-se de algo que Obama e Lula não conseguiram ao longo dos últimos dois anos. Antes, Lula havia mantido bom diálogo com George W. Bush. Porém, a relação mais afinada se deu entre Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton. "O mais importante desse encontro foi notar o claro interesse da presidente Dilma em estabelecer uma relação diferente com os EUA, com base em uma agenda de futuro, na qual a educação e a inovação tecnológica estão no centro do diálogo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.