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Exército se prepara para ocupar Complexo da Maré neste sábado

Marcelo Gomes - O Estado de S. Paulo

04 Abril 2014 | 13h 46

Equipes fizeram trabalho de reconhecimento do terreno; 2,5 mil militares do Exército e da Marinha devem entrar no conjunto de favelas

RIO - Na véspera da ocupação pelas Forças Armadas do Complexo da Maré, na zona norte do Rio, equipes do Exército estiveram na manhã desta sexta-feira, 4, na Vila do Pinheiro, uma das 15 favelas da região, fazendo trabalho de reconhecimento do terreno. Um caminhão com sete militares foi visto circulando pela comunidade.

Os militares conversaram com policiais militares do Batalhão de Choque, que montaram uma base na Vila do Pinheiro desde a ocupação da Maré pelas forças de segurança, na madrugada do último domingo.

Também nesta sexta, um labrador do Batalhão de Ações com Cães (BAC) da PM encontrou 13 tabletes de maconha escondidos no telhado de uma casa na Favela Salsa e Merengue. Na quinta, PMs do Batalhão de Choque apreenderam na Maré um fuzil, munição, cinco granadas defensivas e R$ 31 mil em espécie. E o Bope localizou uma tonelada de maconha, que estava enterrada sob a Linha Vermelha, na Favela Baixa do Sapateiro.

Ocupação. A partir deste sábado, 5, as Forças Armadas vão atuar com 2.500 militares do Exército e da Marinha na Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em 15 favelas do Complexo da Maré. Serão 2.050 homens da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército e 450 fuzileiros navais da Marinha.

Darão apoio 200 policiais militares do Rio, totalizando 2.700 homens na ocupação, batizada de "Operação São Francisco". Devido à maior complexidade da Maré, o número de militares federais que atuarão na região será cerca de 40% maior do que o utilizado na Força de Pacificação dos complexos do Alemão e da Penha, entre 2010 e 2012. Naquela ocasião, a tropa continha cerca de 1.800 militares (apenas do Exército).

"A Maré tem área e população maiores que os complexos do Alemão e da Penha. Além disso, atuam na Maré três organizações criminosas", explicou o general de Brigada Ronaldo Lundgren, chefe do Centro de Operações do Comando Militar do Leste (CML).

Com cerca de 130 mil moradores, o território da Maré é de aproximadamente 10 km². Atuam no complexo de favelas traficantes do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro, além de uma milícia. Já no Alemão e na Penha havia apenas criminosos do CV. Constam da área de atuação da GLO as favelas Roquette Pinto e Praia de Ramos, onde atua uma milícia. Após a ocupação de domingo, a reportagem do Estado circulou por essas localidades por dois dias consecutivos, mas não avistou nenhum PM em patrulhamento. Havia policiais apenas nas favelas controladas pelo tráfico.

Caso necessário, a Aeronáutica também poderá ser acionada e está em condições de integrar a Força de Pacificação da Maré. Todos os envolvidos na operação serão comandados pelo general de Brigada Roberto Escoto, comandante da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército. Além do oficial, grande parte da tropa participou da operação de paz no Haiti.

"Este ano completamos dez anos na missão de paz no Haiti, onde adquirimos grande experiência. O mesmo ocorreu na Força de Pacificação dos complexos do Alemão e da Penha, que consideramos que foi um sucesso. Conseguimos trazer bem-estar para a população em termos de segurança. Vamos entrar na Maré com todo o cuidado, de forma a garantir os direitos de todos os cidadãos", disse Lundgren.

Logística. Os militares federais vão substituir os 300 PMs dos batalhões de Operações Especiais (Bope), de Choque e de Ações com Cães (BAC) que estão na região desde o último domingo, quando a Maré foi ocupada com ajuda da Marinha. Não houve resistência dos traficantes. A transmissão do controle do território da PM para as Forças Armadas será realizada no amanhecer de sábado.

A ocupação vai contar com blindados do Exército e da Marinha, além de diversas outras viaturas para transporte de tropa e logística, motocicletas e aeronaves do Comando de Aviação do Exército. A Marinha vai empregar os mesmos 21 blindados usados no apoio à ocupação pela PM no domingo. Serão seis veículos do tipo Lagarta Anfíbio (CLAnf) e cinco M-113 (que se locomovem sobre esteiras), e dez viaturas Piranha (que se deslocam sobre rodas).

A base da Força de Pacificação ficará no quartel do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Rio), na Avenida Brasil, nas imediações do Complexo da Maré. Serão montadas no quartel uma Delegacia de Polícia Judiciária Militar (que vai investigar crimes militares) e uma base avançada da 21ª Delegacia de Polícia Civil, de Bonsucesso (responsável por apurar crimes comuns).

Inicialmente, a GLO está prevista para terminar em 31 de julho. "É possível haver prorrogação. Depende do interesse do governador do Estado encaminhar o pedido à presidente da República, nossa comandante em chefe. Se ela autorizar, estamos prontos para prosseguir", afirmou o General.

Segundo ele, o Exército não pretende solicitar à Justiça Militar mandados de busca e apreensão coletivos, isto é, sem individualização do endereço exato a ser vasculhado. "Vamos agir pontualmente em cada caso. Se houver necessidade de vasculhar uma casa, vamos seguir tudo o que está no aparato legal."

A Força de Pacificação da Maré vai disponibilizar um telefone 0800 para receber informações sobre esconderijos de traficantes, armas e drogas, bem como de possíveis excessos cometidos pelos militares. O procedimento já havia sido adotado na pacificação do Alemão. O Ministério Público Militar montou uma comissão que vai acompanhar de perto a atuação das Forças Armadas na Maré. Os promotores pretendem ir à comunidade neste sábado.