Eduardo Nicolau/AE
Eduardo Nicolau/AE

Falta padre no Nordeste, região mais católica do País; distribuição é desigual

Número de sacerdotes, porém, aumentou de 13 mil para 22 mil em 40 anos, mas eles se concentram principalmente no Sul do Brasil

Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli, de O Estado de S. Paulo,

20 Julho 2013 | 15h38

O papa Francisco, primeiro líder latino-americano da história da Igreja, está prestes a visitar o maior país católico do mundo. Se fosse rodar além do Rio e de Aparecida, o pontífice certamente conheceria um país de desigualdades - incluindo aí o acesso dos fiéis aos padres. Dados oficiais da Igreja mostram que a região mais católica do Brasil, o Nordeste, com 72,2% da população professando essa religião, é a que menos tem padres em relação ao tamanho da sua população.

 

Os números são da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e foram compilados pela reportagem. E revelam um Brasil dividido: enquanto no Paraná há um padre responsável por 5,9 mil habitantes, essa média chega a ser mais de duas vezes maior no Maranhão: 13,7 mil pessoas por sacerdote. O Estado nordestino, vale lembrar, tem proporção de católicos bem acima da média nacional - 74% ante 64%.

 

Lá, a região com mais falta de padres é o entorno da cidade de Caxias, na fronteira com o Piauí. São quase 700 mil habitantes, mas só 30 padres para atendê-los - ou seja, uma média de 21,9 mil habitantes para cada religioso. O problema se agrava na zona rural, onde há povoados cuja igreja só recebe missa uma ou duas vezes por ano.

 

Esse é o caso de Estiva, um lugarejo com cerca de 30 casas erguido à beira da BR-316, a 52 km de Teresina. Os moradores dali só veem um padre duas vezes por ano - no festejo de Nossa Senhora de Fátima e na missa anual, que neste ano foi rezada em maio. “Os moradores têm de ir para outro povoado para batizar seus filhos”, afirmou a professora Conceição Brito, que leciona no local. “Agora está mais fácil. Antigamente, já teve época que, se chovesse, só haveria casamento ou batizado um ano depois”, contou José Ribamar Silva, morador da região.

 

Equilíbrio. Ao analisar os dados, é possível distinguir dois perfis de regiões onde há poucos padres por habitantes. Além de cidades do interior do Nordeste e seu entorno, como Caxias (MA) e Salgueiro (PE), há municípios com maior concentração de evangélicos, normalmente na periferia das grandes capitais. Guarulhos (SP), Nova Iguaçu (RJ) e Duque de Caxias (RJ) estão nesse grupo. A região com maior proporção de habitantes por padre no Brasil é justamente Guarulhos, onde há um padre para cada 24,4 mil habitantes.

 

“Uma das explicações para haver mais padres no Sul e Sudeste do Brasil é que são os locais com a maior parte da organização eclesiástica. Mas existe uma preocupação da CNBB no sentido de trabalhar para uma melhor distribuição dos padres pelo território”, explicou o padre Antonio Manzatto, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

 

Crescimento. Apesar dessa disparidade, os números mostram que nunca houve tantos padres quanto agora no Brasil. Em 1970, eram 13 mil sacerdotes, número que pulou para 22 mil em 2010. O período de maior crescimento foi justamente de 2000 para cá. 

 

“De fato nós hoje temos um número de padres como nunca tivemos, sobretudo de brasileiros. Até os anos 1980, metade do clero do Brasil era de estrangeiro, eram padres missionários”, afirmou ao Estado o cardeal arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer. Para ele, esse número tende a continuar crescendo nos próximos anos. “A Igreja precisa continuar a fazer o que sempre fez a Pastoral das Vocações: zelar para formar bem os jovens, os católicos, as famílias, para que possam despertar vocações.”

 

Manzatto tem uma visão diferente desse fenômeno e acredita que a tendência atual é de queda no número de novos sacerdotes. “O crescimento atual provavelmente se deve às ações sociais da Igreja nas décadas de 1980 e 1990. Mas hoje a situação da sociedade mudou. Há uma diminuição muito grande da prática religiosa. Nos tempos futuros, deveremos ver um decréscimo nesses números.” / COLABOROU ERNESTO BATISTA, ESPECIAL PARA O ESTADO

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