Fama de 'xerife' o marcou na polícia e na política

Tuma entrou para a polícia ao 20 anos, foi investigador e delegado em São Paulo até ser transferido para a PF

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2010 | 00h00

O filho de imigrantes sírios que aos 20 anos, para desgosto dos pais, Zike e América, trocou uma próspera loja de vestidos de noiva da Rua 25 de Março pela Academia de Polícia, jamais deixou de ser policial. Fez carreira de investigador e delegado na Secretaria de Segurança paulista e foi transferido para o Departamento de Polícia Federal - e ganhou fama como dedicado policial da ditadura militar. Na hora de se aposentar, disputou e conseguiu uma vaga no Senado, onde suavizou sua biografia durante os últimos 16 anos.

Somadas essa última etapa, em que construiu boas amizades na política, mais os 20 anos como "xerife" mantenedor da ordem, Tuma deixou admiradores e críticos. Nem foi "durão" e cruel, como tantos policiais ligados à tortura nos anos de chumbo - pois são muitos os episódios que comprovam sua moderação no trato com presos daquele período -, nem tão inocente quanto os que vigiava e prendia, ele acabou sendo uma versão macia e civilizada de alguém que, no entanto, estava "do lado errado" das coisas.

Tuma deixa, também, a imagem de alguém obstinado pelo trabalho. Vivia pendurado ao telefone, que não deixava de atender nem de madrugada. Ligava constantemente para repórteres de sua confiança, para saber ou informar o que estava acontecendo. Para ganhar tempo, almoçava ou comia sanduíches em botecos vizinhos ao seu gabinete. Na hora de lazer, em casa, via filmes policiais na TV.

Nascido em 4 de outubro de 1931, ele cumpriu uma promessa que fez em 1992, ao voltar a São Paulo em meio aos inquéritos que apuravam desmandos e corrupção no governo Collor. "A aposentadoria vai esperar, porque enquanto eu tiver pernas para andar, cabeça para pensar e boca para falar, eu vou trabalhar", anunciou Tuma em entrevista ao Estado, adiando seus planos para 1994.

Nesse ano elegeu-se senador com mais de 5,5 milhões de votos, repetindo o feito em 2002, quando arrebanhou 7,3 milhões de votos. Gostou tanto da política que, em 2000, resolveu disputar a Prefeitura da capital. Ficou em quarto lugar - a eleita foi Marta Suplicy, do PT - e desistiu de cargos executivos, refugiando-se de novo em Brasília.

Seu currículo determinou seu destino no Senado: tornou-se corregedor parlamentar - e apreciava que, nessa função, continuassem a chamá-lo de "xerife". Também presidiu a Comissão de Relações Exteriores e atuou em várias outras - mas foi como corregedor que deixou sua marca. Por exemplo, supervisionando a proibição de porte de arma, com poderes para revistar e desarmar quem infringisse o decoro, a ordem e a disciplina.

Mas seus 14 anos como corregedor deixaram questionamentos. Era conhecido por ameaçar medidas duras contra senadores que atentavam contra o mandato, mas na prática pouco fazer. Foi assim na denúncia contra Efraim Morais (DEM-PB), acusado de fazer contratos superfaturados. Depois, contra Renan Calheiros (PMDB-AL), alvo de cinco denúncias. A Polícia Federal considerou suspeitos, ainda, alguns contratos feitos quando Tuma era primeiro-secretário da Mesa.

Dops. Foi no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) que Tuma trabalhou por mais tempo, 30 anos, numa carreira iniciada em 16 de janeiro de 1953. Primeiro como investigador, depois como delegado, tornou-se um conhecido pelas qualidades que, em sua avaliação, deve ter esse profissional: conhecimento técnico e um pouco de sorte.

Em seu caso, muita sorte. Atuou na repressão a militantes de esquerda na ditadura, enfrentou o narcotráfico, caçou nazistas alemães escondidos em São Paulo - entre eles o médico Joseph Mengele, "o carrasco de Auschwitz", cuja ossada descobriu numa praia do litoral paulista. Prendeu o mafioso italiano Tommaso Buscetta, comandou o confisco de boi gordo no Plano Cruzado, acumulou a direção-geral da Polícia Federal com o cargo de superintendente da Receita Federal, combateu a corrupção e esclareceu sequestros de gente importante, sempre com sucesso. Seu nome atravessou fronteiras e, ganhando prestígio internacional, acabou sendo vice-presidente da Interpol - cargo que continuou a ocupar, como título honorário, depois de eleito senador.

Alguns episódios deixaram, em sua vida, marcas que Tuma não esqueceu. Uma delas foi a invasão da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) em 1977 - quando a polícia ocupou o campus da Rua Monte Alegre, em Perdizes, no governo Paulo Egydio. O delegado do Dops e sua equipe de agentes participaram da operação, identificando e prendendo líderes do movimento estudantil. Tuma, que havia cursado Direito da PUC, descreveu assim o episódio numa entrevista à revista Veja, em janeiro de 1982:

"Os estudantes insistiram em realizar uma manifestação ilegal. Não atenderam aos apelos da polícia e do próprio secretário da Segurança, coronel Erasmo Dias. Então, tivemos de dispersá-los. Na área, não havia espaço para a fuga e os estudantes se acotovelaram no interior da faculdade, em corredores estreitos, e os incidentes se sucederam."

Outro caso, para ele inesquecível, foi a investigação da morte do padre Josimo Tavares, assassinado em maio de 1986 em Imperatriz, sul do Maranhão. Diretor da PF, ele saiu de Brasília preocupado, ciente da violência na região. "Chegando lá, tinha até passeata a meu favor", contou mais tarde,

Esses dois episódios levaram o delegado a mexer com uma ala da Igreja que não era a de sua simpatia. Católico de missa e comunhão semanais, embora seu pai pertencesse à Igreja Ortodoxa, na qual se casou, Tuma discordava da ação política de bispos e padres do Brasil. Dizia que essa era a posição do papa João Paulo II. Ao lembrar que fora congregado mariano e era devoto fervoroso de São Judas Tadeu, o delegado insistiu que vinha de uma época em que a Igreja não entrava no campo da reivindicação social, mas cuidava da alma. Por sua origem síria, sempre teve relações com a colônia árabe de fé ortodoxa em São Paulo.

Respeito. Como policial de informação que defendia o recurso a métodos científicos e técnicos para o combate ao crime, Tuma dizia-se contra a tortura e a violência. Para quem duvidasse de sua palavra, evocava o testemunho insuspeito de militantes sindicais, como o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para provar que respeitava os presos.

Em 1980 ele autorizou Lula a visitar a mãe doente no hospital e, em seguida, a ir a seu enterro. "Escalei dois policiais, que o acompanharam até o hospital, onde ele falou com a mãe. Ela morreu sem saber da prisão - os policiais se disfarçaram de operários e foram apresentados como colegas de Lula", contou Tuma tempos depois. Na mesma época, convenceu Lula e seus companheiros a desistirem de uma greve de fome e lhes serviu um prato especial no xadrez, porções de lulas à doré, encomendadas num restaurante das proximidades do Dops.

As denúncias contra Tuma partiram de militantes de esquerda e de vítimas da repressão. Em abril de 1992, membros da Comissão dos Familiares de Presos Políticos Desaparecidos afirmaram que o delegado sabia que o ex-preso político Rui Carlos Vieira Berbert estava morto e enterrado com nome falso em Natividade (TO), mas não deu essa informação à família. Num debate em 1994, a ex-ministra Luiza Erundina o acusou de ter omitido informações sobre a morte de ex-ativistas, pelas repressão militar dos anos 70. / COLABOROU ROSA COSTA

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