Família contesta polícia e diz que rapaz não andava armado

Policiais afirmam que adolescentes morreram na fuga, em tiroteio

Valéria França, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

05 Outubro 2007 | 00h00

No extremo sul da zona sul de São Paulo, no Grajaú, não existe morador que não tenha ao menos uma história para contar sobre jovens conhecidos mortos em confrontos com a polícia. E foi de lá que, há um ano, dois amigos de infância Leandro Carmo da Silva, de 15 anos, o Lelê, e Laion, de 17, saíram numa sexta-feira para uma festa num bairro próximo. Leandro deveria ir à igreja com a mãe, mas preferiu sair com o amigo, que estava de carro, um Astra cinza. Os dois saíram no início da noite e nunca mais voltaram. ''''Esperei o Lelê, na porta de casa, com uma amiga até as 4 horas'''', diz a irmã Janaína. ''''Estava preocupada, porque ele não costumava chegar depois da 1 hora.'''' Cansada, Janaína foi dormir. No sábado de manhã, uma amiga apareceu para acordá-la e disse que Leandro tinha sumido. Pouco depois, outro amigo da rua veio com a notícia de que os garotos estavam mortos. Segundo o boletim de ocorrência, os jovens estavam num carro roubado, um Astra cinza, e não pararam quando abordados pela polícia. Os PMs que teriam perseguido o carro dos adolescentes disseram, em depoimento, que os menores bateram o carro e desceram atirando, cada um com um revólver calibre 38. Segundo a PM, os dois morreram durante o tiroteio. No carro, segundo o BO, havia marcas de balas no carro. Os exames residuográficos, no entanto, foram negativos nas mãos dos mortos e dos policiais. O Estado esteve no Grajaú. Lá, os amigos e familiares não acreditam na versão da polícia. Dizem que Leandro e Laion nunca foram vistos armados, e também não costumavam se meter em ''''tretas''''. Leandro estava na 6ª série do ensino fundamental e tinha muitos amigos. Jogava futebol e dominó, mas não freqüentava botecos. Morava com a mãe, Elizete Carmo, de 33 anos, auxiliar de limpeza, quatro irmãos e o marido da mãe. Na porta ao lado, moravam os avós e o tio, Carlos Carmo, bombeiro civil desempregado. A casa de Laion ficava a menos de 100 metros dali. Filho de um motorista de caminhão e de uma professora, era o segundo de quatro irmãos. Na delegacia, no dia da morte, a mãe de Laion, Maria Sueli, declarou que o filho nem sabia dirigir. Contou que ela tem carro, mas que o filho nunca o dirigia. A história da vizinhança é outra. Não era segredo para ninguém a paixão do jovem por carros. Na quinta-feira, um dia antes de sua morte, ele passou de carro, um Astra cinza, buzinando para a galera da rua. ''''Ele estava se mostrando, todo feliz, por causa do carrão, que pegou emprestado de um parente'''', conta um dos amigos, que prefere não se identificar. Laion trabalhava e fazia um curso pré-vestibular. Segundo a mãe, queria fazer carreira militar. ''''Seu sonho era ser bombeiro'''', disse em depoimento à polícia. Leandro e Laion foram mortos na Rua Major Lúcio Dias Ramos, no Jardim Itajaí - região conhecida por ser violenta -, por volta de 23 horas, segundo a Polícia Militar. Pouco iluminada, a via é repleta de pequenos sítios e cercada por um favelão. ''''Aqui sempre tem tiroteio. Há uma semana, morreram uns garotos'''', diz o dono de uma vendinha, que não quis dar o nome. ''''Parece que também foi por causa de um carro roubado.''''N

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