Fazer sucessor ''nem JK e Getúlio conseguiram''

Lula fez referências a presidentes populares para comentar expectativa de vitória de Dilma hoje

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

Após enfrentar quase 30 dias de tensão neste segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a demonstrar tranquilidade. A amigos, ele avaliou que o debate sobre o aborto e o caso Erenice Guerra foram os principais obstáculos que impediram a vitória de sua candidata, a petista Dilma Rousseff, no primeiro turno das eleições.

Nas últimas 48 horas, Lula fez referências a presidentes populares para comentar o momento. "Se tudo der certo neste domingo, vai ser uma coisa extraordinária, porque há muito tempo um presidente não faz seu sucessor. Juscelino nem Getúlio conseguiram", disse Lula, segundo relato do assessor Gilberto Carvalho.

Lula se referia a Getúlio Vargas do período democrático (1951-1954), que não terminou o mandato. Ao final de uma primeira passagem pelo governo, o então ditador Vargas lançou em 1945 a candidatura do ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, que venceu a disputa. Mas, antes da eleição, Vargas foi deposto por um grupo que incluía o próprio Dutra e só manteve o apoio ao candidato por conveniência política. No pleito de 1960, Juscelino Kubitschek não emplacou Henrique Teixeira Lott, derrotado por Jânio Quadros.

Convidado para participar de uma carreata no ABC paulista, o presidente preferiu passar o sábado recolhido no apartamento da família em São Bernardo do Campo. A orientação dada por Lula era para evitar demonstrações de euforia, que passassem a impressão de que o grupo cantou vitória antes da abertura das urnas.

Mesmo a festa de uma possível vitória de Dilma foi discutida pelos assessores do governo com discrição. A princípio, um grupo de pessoas mais próximas de Lula acompanhará o resultado das eleições no Hotel Naoum, em Brasília. Lula ficará no Palácio da Alvorada. A presença de Lula no hotel ou em qualquer outro local de festa na capital dependerá do "clima", segundo Gilberto Carvalho. O presidente votará em São Bernardo do Campo, pela manhã. Logo depois, embarca para Brasília.

Análise. O governo avalia que faltou debate político na disputa, especialmente no primeiro turno. "Embora tenha todo um desgaste, o segundo turno foi importante para mobilizar a militância e mostrar que Dilma não é um apêndice", disse o auxiliar de Lula. O presidente e seus assessores reconheceram também a dificuldade em entrar na discussão do aborto, quando se viram reféns de grupos religiosos.

Gilberto Carvalho avaliou que José Serra (PSDB) não conseguiu desmontar Dilma nos debates. Na noite de anteontem, pouco antes do embate na Globo, Lula conversou com Dilma por telefone e pediu a ela tranquilidade. Um "empate" com Serra era o suficiente, pois as pesquisas mostravam que ela estava na dianteira.

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