Força-tarefa é essencial para doação

Equipe do Instituto Dante Pazzanese teve participação fundamental para garantir a possibilidade de transplantes

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

20 Outubro 2008 | 00h00

A família de Eloá foi comunicada da morte cerebral da jovem por volta das 23h30 de anteontem. Onze horas depois, veio a notícia: decidiram doar os órgãos. Mas nem sempre é assim. "Falta de informação e religião são alguns dos problemas que os grupos de captação encontram quando conseguem um possível doador", diz Jarbas Dinkhuysen, chefe da sessão médica de transplante do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Notificados pelo Centro Hospitalar Municipal de Santo André sobre a possível doadora, sua equipe entrou em contato com a família anteontem. Antes mesmo de conseguir o aval da doação, a equipe esteve no hospital para verificar em que condições Eloá estava sendo tratada. "Perdemos muitos doadores porque alguns hospitais não seguem os procedimentos básicos indicados nesses casos ou não têm estrutura para manter intactos os órgãos depois de comprovada a morte encefálica." Quando o cérebro deixa de funcionar, alguns órgãos, caso do coração, que é vital e mais sensível, precisam de uma atenção maior. Entre os procedimento de um transplante estão os exames comprobatórios de morte encefálica. Por isso, na manhã de anteontem, os médicos de Eloá suspenderam as sedações, que diminuíam a atividade cerebral. "Quando um paciente está em coma e tem um edema cerebral, os médicos rebaixam o metabolismo na região justamente para proteger o cérebro", diz o neurocirurgião Jorge Pagura, do Hospital Albert Einstein. "Mas quando a morte encefálica é quase certa, as drogas são suspensas. É praxe." Os exames comprobatórios só podem ser feitos depois que o organismo está limpo. A menina passou por dois testes. O primeiro foi por volta das 16h30 e o último e derradeiro, às 23h30 de anteontem. O PROCESSO Na manhã de ontem, já com a autorização da família para iniciar o processo de captação, a equipe do Dante administrou três drogas inotrópicas no corpo de Eloá. Elas garantem o bom batimento cardíaco. "O coração continua em atividade depois que o cérebro pára, mas as drogas evitam, por exemplo, arritmias", diz o cardiologista Nabil Gorayeb, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. São os tais cuidados especiais, necessário para preservar o órgão. "De cada 100 doadores, apenas 20 têm seus corações aproveitados", diz Dinkhuysen. "Já os rins são quase sempre aproveitáveis. " CORAÇÃO Mesmo depois de captado, o coração ainda continua o órgão mais problemático. Ele dura apenas quatro horas fora do corpo, quando devidamente conservado. O rim agüenta até 30 horas, um fígado, de 8 a 12 horas. De acordo com as estatísticas, a fila de espera do coração é a menor de todas. No Estado de São Paulo, há uma média de 40 pessoas à espera de um. "Os números enganam", diz Dinkhuysen. "Ela é pequena porque os pacientes morrem na fila. Eles não agüentam esperar." Um paciente crítico, internado num hospital à espera de um coração tem uma média de vida de seis meses." São 14 os pacientes do Dante que esperam por um coração. Desses, três estão internados em estado grave. Instituto do Coração e Dante, ambos da capital, são os principais captadores de coração do Estado. Vítima de um trauma violento, porém jovem e aparentemente saudável, Eloá seria a doadora perfeita. Mas a equipe precisava ter certeza disso. Às 17 horas, o grupo do Dante saiu do hospital de Santo André com um kit de mostras sanguíneas dentro de uma maleta térmica. Elas foram levadas para um laboratório, onde seria feita a tipagem sanguínea, além da sorologia para verificar a existência de vírus ou doenças infecciosas que impediriam o uso dos órgãos da menina. "São testes parecidos com os realizados para transfusão de sangue", diz Dinkhuysen. "HIV positivo, por exemplo, seria um tipo de doença que impossibilitaria um transplante." Em média, os resultados dos testes demoram no máximo seis horas. Segundo Luiz Roberto Barradas Barata, secretário da Saúde do Estado, as equipes de transplantes deveriam retornar ao hospital por volta das 22 horas para iniciar a retirada dos órgãos. A lista de espera de órgãos fica nas mãos da Secretaria da Saúde, que com a tipagem do sangue e o peso de Eloá consegue descobrir quais são os receptores compatíveis. "O sistema está informatizado. É rápido", diz Dinkhuysen. No final da tarde, a equipe do Dante não sabia ainda quais seriam esses órgãos. Ela não dependia só da resposta dos exames. A família não havia dito o que pretendiam doar. A equipe do Dante voltaria a falar com eles no começo da noite de ontem. O processo é muito longo. Para cada órgão, a família tem de assinar um documento separado. Cada papel, uma segunda chance de vida para alguém da fila de transplante.

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