Freiras enterradas no Mosteiro da Luz passaram fome, diz expert

Primeira etapa da análise dos corpos constata sinais físicos de muito trabalho e privações

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

03 Outubro 2008 | 00h00

Depois de sete meses de pesquisa arqueológica, chega ao fim a primeira etapa de análise das múmias encontradas no Mosteiro da Luz, no centro de São Paulo, em fevereiro. No início, os técnicos estimavam em 40 o número de freiras concepcionistas enterradas no local. Hoje, sabem que são 130. Dessas, 12 foram localizadas em seis carneiros, uma espécie de gaveta mortuária, e uma numa tumba de chão. "Os restos dos corpos avaliados até aqui sugerem o tipo de mulher que eram e principalmente como a Igreja Católica tratava seus mortos", diz o arqueólogo Sérgio Monteiro da Silva, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), da Universidade de São Paulo (USP), membro da equipe de estudo. "Dá para ver que essas freiras passaram por muitas dificuldades. Além do trabalho pesado, comum nos mosteiros, como lavar, passar e limpar, há sinais físicos de privações alimentares", diz Silva. Nos esqueletos, os técnicos acharam problemas de coluna e dentição. "Uma delas era totalmente banguela, o que não significa necessariamente idade avançada, mas uma carência de vitaminas, por exemplo." Os resultados da primeira etapa estão baseados no material encontrado em dois carneiros e no levantamento de registros escritos a mão, que datam do início da formação do Mosteiro da Luz. Fundado em 1774 pelo frei Antonio de Sant''Anna Galvão, a edificação é um dos mais importantes monumentos arquitetônicos do século 18 em São Paulo. Até hoje, abriga irmãs franciscanas da Ordem da Imaculada Conceição, da qual faziam parte as religiosas encontradas nesses carneiros. Eram religiosas enclausuradas, que alimentavam-se apenas do que produziam. "Dos quatro corpos descobertos em dois carneiros, apenas um apresentava sapatos", diz Silva. "Ela usava uma sandália de couro bem surrada. As outras três foram enterradas descalças." Os sinais de pobreza também podem ser avaliados pelas roupas e adereços. "Elas usavam um hábito preto e branco, pesado e bem largo. Na cabeça, encontramos restos de um pano azul, que não sabemos se era parte de um véu ou de uma capa." O tecidos serão encaminhados ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), para analisar a fibra e a cor original. No pescoço das freiras, os pesquisadores encontraram uma corrente feita de sementes e um crucifixo de metal barato. Apesar das múmias terem surgido por acaso em fevereiro, durante uma reforma no mosteiro, elas fazem parte de um cemitério oficial da ala interna que esteve ativo, segundo os técnicos, até o século 19. "Até então, as freiras eram enterradas sem qualquer identificação, um indício judaico-cristão, onde só a alma importa. E, para economizar espaço, colocavam dois corpos em cada carneiro", diz Silva. No século 20, isso teria mudado. "Do lado externo do mosteiro, há um outro cemitério com túmulos devidamente identificados, e que recebem a visita de familiares." Os técnicos avaliaram o solo onde os corpos foram encontrados, numa tentativa de descobrir a época em que foram enterrados. "A técnica avalia a última vez que o material viu a luz", explica o arqueólogo. "Achamos três datas muito distintas, uma delas antes da fundação do mosteiro, o que seria impossível." Para resolver a questão, na semana que vem, uma falange de uma das múmias será separada e depois encaminhada para um laboratório nos Estados Unidos, especializado em exame de carbono 14 e de termoluminescência. O primeiro revela com exatidão a idade da múmia, e o segundo, a data de sepultamento.

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