1. Usuário
Assine o Estadão
assine


‘Ganho menos que enfermeira’, diz cubano

Angela Lacerda e Tiago Décimo - O Estado de S. Paulo

08 Fevereiro 2014 | 22h 43

No Nordeste, profissionais reclamam de improvisos e promessas não cumpridas

Em cidades do Nordeste atendidas pelo programa Mais Médicos, cubanos também reclamam de promessas não cumpridas. O alto custo de vida surpreendeu os profissionais trazidos da ilha caribenha. Há relatos de médicos que comem de favor e precisam pegar carona para trabalhar.

Andres Manso, que atende em Quipapá, a 180 km do Recife, está decepcionado. "Teve dia de ir comer na casa de amigo", afirmou, por telefone, reclamando da bolsa de R$ 900. Ele divide a moradia - oferecida pela prefeitura - com mais três médicos. Trabalha muito, mas diz não ver recompensa. "Todos trabalham pela possibilidade de viver melhor e não é isso que acontece, estou vivendo mal", afirmou.

Manso diz que, "se não produzir muito ou não trabalhar, haverá reclamação, mas ninguém se preocupa se ele tem o que comer". Apesar das reclamações, garante que não faria como Ramona Matos Rodríguez, de 51 anos, que abandonou seu posto no Pará. "Não descumpriria um acordo", afirmou o médico.

Arnais Rojas, de 44 anos, três filhos, mora no Recife, onde trabalha em um posto de saúde em Mustardinha, e se sente satisfeito com a gratidão da população. O único aspecto negativo, para ele, é o pouco dinheiro. "Ganho menos do que a enfermeira que trabalha comigo."

Segundo o profissional, a reclamação por melhor remuneração é geral. "Mas, até agora, não houve resposta de aumento do salário ou de ajuda." Rojas diz que, além das despesas com alimentação e pessoais, há as imprevistas. Ele e o colega com quem divide moradia tiveram de comprar um ar-condicionado para suportar o forte calor. Ele tem moradia e transporte pagos pela prefeitura do Recife.

Carona. Acompanhado por duas funcionárias e uma enfermeira do posto de saúde de Cajazeiras, na periferia de Salvador, o médico cubano chega ao local de trabalho, no início da tarde de quinta-feira. Está no carro de uma das funcionárias, voltando de visitas a pacientes. A carona, conta ele, foi uma forma encontrada para economizar.

"Ela estava saindo para almoçar e perguntei se não poderia me levar até a casa de um morador, e me pegar na volta", diz o integrante do Mais Médicos, que pediu para não ser identificado. "Fiz o que precisava e não gastamos."

Os 34 cubanos que trabalham pelo programa federal em áreas periféricas de Salvador têm adotado diversas estratégias para reduzir os gastos. Praticamente todos, segundo a Secretaria de Saúde do município, vivem em bairros distantes do centro. De acordo com a prefeitura, cubanos recebem R$ 1,6 mil mensais como ajuda de custo, para moradia, transporte e alimentação.

Apesar do desconforto, o médico de Cajazeiras garante que estava preparado para viver no Brasil. "Viemos para trabalhar em comunidades pobres, assim como já fizemos em outros países", disse ele, que viveu em missões em outros países da América do Sul e da África.

Satisfação. Boa parte dos 30 cubanos enviados a Porto Alegre ainda mora em hotéis, mas não reclama da hospedagem, do vale-alimentação, do vale-transporte e das condições de trabalho. O pagamento está em dia. Nem do auxílio de R$ 900 se queixam.

"É uma forma de agradecermos ao nosso país pela nossa formação e é uma forma de ajudar o povo cubano", afirmou Osmany Matos Reyes, de 41 anos, que tem mulher e dois filhos em Holguín, em Cuba, e experiência de seis anos na Venezuela.

Como a Estratégia de Saúde da Família (ESF) prevê visitas domiciliares, os médicos devem se deslocar dos postos às casas dos pacientes. "Não vejo problema em caminhar até a casa de um paciente, estou acostumado", afirmou o também cubano Otto Arcides Torres Merino, de 39 anos. / COLABOROU ELDER OGLIARI