Gilmar Mendes flertou como 'votocídio'

Na política, o mais ingênuo desenha uma vaca na parede e ordenha leite. A cúpula da campanha petista é capaz até de fazer um Camembert.

Análise: Luiz Alberto Weber, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2010 | 00h00

Numa eleição que pode ser decidida no tira-teima do Galvão Bueno, as abstenções jogam um papel importante, segundo institutos de pesquisa, capaz de empurrar o pleito para o segundo turno. Potencializá-las com a exigência de dois documentos - o título eleitoral mais uma carteira oficial com foto - afetaria uma fração dos ninhos eleitorais da dupla Dilma-Lula.

Guiado pelo manual lulopetista de eleger a todo custo Dilma Rousseff, o PT entrou há dias - um ano depois de aprovada a lei com todos os ritos pelo Congresso e com a sanção de Lula - com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra a exigência.

Apresentado o recurso petista, o ministro Gilmar Mendes produziu seu próprio "laticínio". No julgamento de quarta-feira, diante de um placar de 7 a 0 contra a exigência da dupla identificação, Mendes pediu vista do processo e insinuou que poderia devolvê-lo só após as eleições.

A força e prestígio do atual Supremo - uma criação em boa medida do próprio Mendes - devem-se à anabolização da corte no controle de constitucionalidade das leis. Desde a promulgação da Constituição até hoje, o STF julgou procedente 4.429 Adins. Leis que foram barradas ou alteradas pelos ministros, apesar de aprovadas segundo o rito da democracia. Mendes argumentou que a urgência da ação do PT era pré-fabricada. Sim, ela foi gestada no comitê de campanha de Dilma. Mas ao ensaiar o engavetamento temporário da ação até depois da eleição, Mendes ameaçou interditar o debate na corte e flertou com o "votocídio".

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