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Guerra do Gatilheiro Quintino

O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2010 | 00h 00

Após 25 anos, região vive à luz de vela e sob a lei do mais forte

O gatilheiro Quintino foi o homem mais idolatrado da história recente do Guamá, território encravado no nordeste paraense de 28 mil quilômetros quadrados, do tamanho de Alagoas, que apresenta os piores índices de desenvolvimento humano da Amazônia. O fuso histórico aqui é o mesmo da época do gatilheiro. E o tempo de Quintino, que também se apresentava como Armando Oliveira da Silva, está próximo do período de barbárie da repressão aos cabanos, entre 1835 e 1840.

A morte do gatilheiro produziu imagens de realismo mágico. Ao final dos combates, em vez de comemorar a vitória e a expulsão da Cidapar - a empresa de mineração que queria desalojar os agricultores que ali viviam -, uma multidão de posseiros foi para o cemitério de Capanema, a 147 quilômetros de Belém, para retirar e dar uma nova sepultura ao corpo de Quintino, enterrado às pressas pela polícia três dias antes. O caixão comprado pela polícia foi trocado por um modelo até mais simples e o cadáver, levado nos braços para ser festejado nos povoados da mata. As cenas ocorreram há apenas 25 anos. No Guamá, ainda hoje, o tempo é da luz de vela e da lei do mais forte.

Pelas suas estradas de terra, tomadas agora por caminhões carregados de madeira ilegal, o cortejo de carros pequenos, ônibus e carroças passou por Santa Luzia, Japim e finalmente Viseu. Em cada ponto onde houvesse gente, o cortejo parava e os homens adentravam com o caixão trilhas e varadouros para que nenhum sitiante deixasse de fazer sua homenagem ao comandante. Em Viseu, onde Quintino havia desafiado uma juíza, a multidão desfilou com o caixão do fórum até o porto.

O ataúde foi colocado num barco e levado a São José do Piriá. Lá, dois dias e 180 quilômetros depois, o rei do cangaço do Guamá, como Quintino também se intitulava, foi sepultado à noite, dessa vez ao lado do pai, o migrante cearense Domingos, que ensinou ao filho a arte do gatilho ainda nos tempos de seca e tiroteio no Vale do Jaguaribe.

"Meu irmão me disse, horas antes de sofrer a emboscada da polícia, que iria deixar a guerra, pois estava cansado do cangaço", relata Raimundo Lira, que liderou a multidão na retirada do corpo de Quintino. "Disse que só tinha perdido companheiros e não ia mais lutar."

Raimundo, 68 anos, vive na Vila do Moça, um grotão sem energia elétrica, ignorado pelo Estado brasileiro como na época de Quintino. Raimundo anda armado, usa bigode e chapéu de feltro preto. É mania dos contemporâneos do líder tentar se parecer com o gatilheiro. "Dei um abraço forte nele. Eu tive o entendimento, pelo meu remorso, que não veria ele nunca mais."

No final dos anos 1970, a Cidapar, apoiada pelo governo estadual, começou a expulsar famílias numa área de 380 mil hectares. Viviam ali cerca de 10 mil pessoas. O capitão James Vita Lopes comandava a "guarda de segurança", uma milícia de 102 pistoleiros. Quando a milícia executou o agricultor Sebastião Mearim, no Alegre, os homens do povoado se reuniram para discutir a defesa. Não tinham experiência em combater inimigo tão forte, que tinha apoio político.

Um dia apareceu na casa do posseiro Benedito Tavares, o Bené Duzentos, no Igarapé do Pau, um homem em fuga, que havia matado o fazendeiro Cláudio Paraná, no Broca, município de Ourém. Era Quintino, que tinha sido expulso de uma terra por ordem da Justiça. Paraná havia expulsado ainda outros 32 posseiros da fazenda Cambará. Quintino matou os pistoleiros Luizão e Changatô, contratados pela viúva de Paraná para vingar a morte do marido. Quintino poupou a viúva e deu início à construção do mito de justiceiro.

"Um dia apareceu o Quintino. Ele me perguntou: "Você está desconfiado de mim?" Eu respondi que não. "Eu sou Quintino, matei um cara que tomou minha terra. Este revólver era dele, este chapéu era dele. Mas defunto não adianta ficar com essas coisas"", relembra Bené. Ele estava diante do homem que o Alegre precisava como chefe militar. "Eu nunca tive coragem", diz Bené. "Ninguém tinha disposição de morrer pelo povo", relata. "Com a chegada do Quintino, fomos para a guerra."

Comida e munições. Quintino, que deixou o Ceará com a família na seca de 1958, tinha um modelo a seguir. Era Lampião, personagem das narrativas dos velhos no Jaguaribe. "Quintino dizia para a gente que era melhor que Lampião", lembra o primo Raimundo Batista.

Na função de comandante dos posseiros, Quintino montou seu estado-maior: Bodão, Zé Mixaria, Corujinha, Manoel Cego, Mundiquinho, Matias, Vicente Bate Pé, Vicente Sola, Cearensezinho, Sodré, Pedro Elias e Abel - este último montou grupo independente. Nessa época, Quintino se separara da mulher, Helena de Aviz, e estava em companhia de Antônia, moça loira que ninguém sabe ao certo de qual família era. "Antônia era cearense também, parecia uma boneca, de tão bonita", diz Raimundo, irmão de Quintino.

Os líderes políticos dos posseiros faziam a logística, garantindo o esconderijo, a comida e as munições. Forneciam até 200 homens para servir de soldados. Nas cidades, o grupo passou a ser conhecido como o "pessoal da mata". Em Faveiro, um dos redutos rebelados, Quintino montou seu quartel-general, uma casa com três grandes cômodos, paredes de taipa - de barro, mas com estrutura de madeira - e coberta com tabuinhas de ipê. Tinha apoios em Timbozal, Cristal, Vila do Baixinho e nos garimpos de Enche Concha, Tatu, Jiboia, Alegre e Fogão.

"Ele só gostava de andar bonito, igual a Lampião", lembra João Justino de Oliveira, 47 anos, um dos adolescentes que acompanhavam Quintino quando o comandante entrava em Santa Luzia jogando balas para as crianças. Andar bonito nos povoados à beira da rodovia PA-MA, a BR-316, era andar armado até os dentes. O jogo no Guamá estava equilibrado.

A guerra começara. O posseiro Raimundo Roxo, da Vila do Baixinho, um dos líderes civis da revolta, foi torturado pelos capangas da Cidapar. "Quintino não guerreava sem avisar", diz Raimundo Batista, primo do gatilheiro. "Ele mandava bilhete para o cabra sair da área", completa. "Foi um herói que não teve paciência para esperar a Justiça."

Começara também a guerra de versões. Quintino foi acusado de mandar bilhetes, hábito comum no Cangaço nordestino, para pedir propinas a fazendeiros. Aliados dele dizem que chefes de grupo assinavam esses bilhetes sem seu consentimento.

O gatilheiro comandou ações que mataram dois gerentes da empresa. A morte de Japonês, o segundo a morrer, marcou o epílogo da guerra de três anos. A "guarda de segurança" da Cidapar estava arrasada. Do lado dos rebeldes, estavam mortos Manoel Cego, Mixaria, Cearensezinho e Bodão. Abel desapareceu.

Era o fim da aventura violenta da Cidapar, montada para produzir borracha, explorar madeira, criar bois e extrair ouro. As instalações viraram esqueletos numa área devastada. Os posseiros permaneceram na terra. "Se eu tivesse paciência para contar, a história do Quintino daria um romance", diz o ex-posseiro Bertolino Oliveira. Ele diz ter testemunhado, em Viseu, o discurso de Quintino contra a Justiça. Bertolino foi localizado a partir do cadastro de fregueses de um comerciante da cidade.

Fuga na mata. Para o governo Jader Barbalho, era questão de honra acabar com Quintino. A Polícia Militar armou uma operação de guerra. Em Guajará, os agentes trocaram tiros com o gatilheiro, que escapou na mata. Antônia, a Maria Feinha - uma alusão invertida à Maria Bonita de Lampião -, foi morta e jogada na mata. "Antônia estava grávida", relata Maria Oliveira Campos, mulher de Bené Duzentos. "Ela estava deitada numa rede quando a polícia chegou atirando."

Fazendeiros de cidades próximas, como Manoel Coutinho, de Capitão Poço, se empenharam na captura de Quintino. Coutinho chegou a criar uma milícia própria para dar apoio à polícia ou tentar caçar sozinho o gatilheiro. Era uma repetição dos nazarenos, grupos armados de famílias que perseguiam Lampião. "Os fazendeiros saíam em caminhonetes cheias de gente armada", lembra Bertolino.

A repressão chegou ao Japim e ao Igarapé do Pau. Bené foi preso. Antes, ele chegou a dar guarita para Quintino. "Eu disse: "Olha, rapaz, o batalhão está no 28 (quilômetro 28 da BR-316), tem muita polícia atrás de você". Ele não me ouviu." Mesmo com a área tomada, o gatilheiro aceitou um convite para uma festa em uma casa de Vila Nova. A tropa comandada pelo capitão Cordovil cercou o local. Quintino tentou escapar pelos fundos, mas foi atingido por um policial. "É o Quintino que vocês buscavam? Ele está aí, morto", teria dito, resignado, o dono da festa, Raimundo Dentista, que arrancava dentes em Japim e ganhou fama de ter sido o delator.

Bené mostra o título de terra dado pelo Incra. Pelos mapas dos terrenos, o agricultor dá as indicações dos locais onde ocorreram os combates. Ele reclama que as três glebas desapropriadas pelo governo paraense foram batizadas de Cidapar. "Por que Cidapar, se nós ganhamos a guerra?"

Herói vira tronco. O cortejo com o cadáver do gatilheiro não evitou que moradores da mata passassem a duvidar da morte dele. Era forte a crença de que ele virara tronco de maçaranduba e cobra em momentos de perigo. Raimundo Lira, irmão de Quintino, diz acreditar que o gatilheiro morreu porque perdera os papéis de orações e santos no ataque no Guajará, dias antes de ser emboscado em Vila Nova. "Quando começou a guerra, meu irmão foi até uma preta no Codó fazer um "trabalho". Ela mandou Quintino ficar sozinho no mato, dentro de um toco, durante nove dias. No décimo dia, um bicho apareceu à meia-noite. Daí em diante ele se transformava em veado ou cachorro, ninguém pegava."

A vida continuou dura nas vilas rebeldes. Depois de visitar a região na companhia da morte, o Estado brasileiro não voltou ao Guamá para oferecer boas condições de vida aos que resistiram. Ainda hoje, faltam energia elétrica, postos de saúde e escolas. Na Vila do Moça, onde Raimundo mora com a mulher Zilda e nove filhos, a mesa de sinuca no bar e as celebrações na pequena igreja evangélica que funciona num barraco de madeira são as atrações para quem quer sair de casa. Outra opção é recepcionar, no centro do povoado, à noite, os moradores que chegam no velho ônibus que vem de Castanhal.

No Faveiro, onde Quintino morou, crianças se acotovelam na sala de uma casa improvisada como escola. À época de Quintino, o lugar tinha dez famílias - hoje são 300. Vive aqui o agricultor Paulo Campos de Oliveira, o Paulão, 55 anos, um dos últimos integrantes do grupo do gatilheiro. Paulão planta malva, banana, feijão, arroz, milho e mandioca e cria galinhas. Diabético, enfrenta 40 quilômetros numa moto para se consultar no Japim.

Mesmo com família numerosa - vive com a mulher e dez filhos -, Paulão demonstra ser um homem que vive na solidão. É da guerra que diz sentir mais saudade. Usa bigode no estilo Quintino. "Foi um companheiro que deixou o nome na história", diz, emocionado. "Não foi só o Quintino quem lutou. Foi todo mundo. Essa briga foi tipo uma guerra, cada um querendo defender sua pátria. Graças a Deus estamos de parabéns, vencemos a guerra."

Paulão lembra que Quintino passava alguns dias no Faveiro e depois se enfiava na mata. "Ele saía pelo mato e não dava endereço", conta. O amigo lamenta que Quintino não tenha ouvido os conselhos de Bené após o combate do Guajará.

"O Bené Duzentos fez um plano para ele não morrer", diz Paulão. "Ele deveria pegar uma canoa e descer à noite o Rio Piriá até a terra do pai. Durante o dia, deveria se esconder no mato. Chegando lá, era para raspar o bigode e tirar o chapéu."

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