Ibope capta ''esterelização'' do segundo voto em SP

Esse fenômeno e o fato de ter herdado votos de Quércia explicam como tucano acabou se elegendo no domingo

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2010 | 00h00

Aloysio Nunes Ferreira Filho (PSDB) terminou na ponta a eleição para senador em São Paulo por dois motivos: foi a primeira opção de tucanos e dos peemedebistas órfãos da candidatura de Orestes Quércia; e porque nada menos do que 8 em cada 10 de seus eleitores "esterilizaram" seu segundo voto.

Como eles fizeram isso? Metade votou em um candidato que aparecia muito atrás nas pesquisas e não ameaçava a vitória de Aloysio, como Ricardo Young (PV) ou Romeu Tuma (PTB). E 27% simplesmente anularam ou votaram em branco.

O leitor deve estar se perguntado como é possível saber tudo isso, se o voto é secreto. Pelo cruzamento da pesquisa de boca de urna do Ibope com o resultado da votação. Na saída da seção, o entrevistado dizia em quem tinha votado para senador e em qual ordem.

Combinando-se as duas informações, é possível estimar que dos 11,2 milhões de votos obtidos pelo candidato tucano, cerca de 9,4 milhões foram a primeira opção do eleitor. O restante veio de segundos votos de eleitores de Romeu Tuma (PTB), por exemplo.

Ou seja: mesmo que não tivesse sido a segunda opção de mais ninguém, Aloysio teria sido eleito na frente de Marta Suplicy (PT), que recebeu 8,3 milhões de votos e ficou com a segunda vaga paulista no Senado. Isso em tese.

Porque, se mais eleitores seus tivessem feito uma dobradinha informal com Marta e/ou Netinho, o tucano poderia não ter tido o mesmo sucesso. Juntos, a candidata do PT e o do PC do B receberam cerca de 2 milhões de votos de eleitores que primeiro votaram em Aloysio.

O número absoluto impressiona, mas representa pouco mais de 20% do eleitorado do tucano. É tanto quanto o desconhecido Ricardo Young recebeu de outros eleitores de Aloysio, e menos do que os que anularam ou votaram em branco após sufragar o candidato do PSDB.

Esses dois segundos votos denotam uma estratégia deliberada do eleitorado tucano. Após Quércia abandonar a disputa por problemas de saúde, uma grande parte desses eleitores se viu sem uma dobradinha. Nas pesquisas, citavam apenas Aloysio.

Deixaram para decidir o que fazer com o segundo voto praticamente na urna e privilegiaram uma tática que minimizava o risco de seu candidato principal ficar de fora do Senado. Se a maioria dos eleitores de Aloysio tivesse votado também em Netinho, o cantor teria sido eleito.

Dois em cada três dos 7,8 milhões de votos recebidos pelo candidato do PC do B foram segundos votos: 78% deles vieram dos eleitores de Marta. Praticamente todo o resto saiu dos dedos de eleitores "distraídos" de Aloysio.

Marta, por sua vez, foi a primeira opção de 5,7 milhões de eleitores, cerca de 70% do seu total de votos. Ela formou com Netinho a dobradinha mais popular da eleição para o Senado em São Paulo, o duplo-voto de 16% dos paulistas que foram às urnas.

Os eleitores da candidata do PT foram mais fiéis à aliança com Netinho do que os do cantor foram com Marta. Mesmo assim, ela ficou com a segunda vaga por ter o dobro de primeiros votos do que o candidato do PC do B.

Mais surpreendente do que a atropelada de Aloysio na reta final da corrida para o Senado foi a votação de Ricardo Young. Ele teve quase 150 mil votos a mais do que Tuma, que, mesmo hospitalizado com graves problemas cardíacos, concorria à reeleição.

Dos 4,1 milhões de votos de Young, 30% foram primeiros votos e podem ser atribuídos ao "efeito Marina Silva": eleitores da presidenciável do PV que votaram verde do começo ao fim. Mas a maioria veio do segundo voto de eleitores de Aloysio.

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