Silvia Izquierdo/AP
Silvia Izquierdo/AP

Igreja dos Estados Unidos gera medo e destroça famílias no Brasil

Investigação revela que a Word of Faith Fellowship comanda 2 congregações no País e impõe uma interpretação rigorosa da Bíblia

Peter Prengaman, Mitch Weiss e Holbrook Mohr, Associated Press

25 Julho 2017 | 14h49

SÃO JOAQUIM DE BICAS - Nas igrejas da Word of Faith Fellowship nas cidades brasileiras de São Joaquim de Bicas, na Grande Belo Horizonte, e Franco da Rocha, na Grande São Paulo, há sinais de famílias destroçadas por toda parte: pais separados dos filhos, irmãos que não se falam e avós que se perguntam se um dia conhecerão os netos.

A agência americana Associated Press (AP) apurou que por duas décadas a matriz da Word of Faith Fellowship nos Estados Unidos comandou duas comunidades nessas cidades brasileiras valendo-se de uma interpretação rígida da Bíblia que inclui punições físicas e duras restrições aos integrantes.

Muitos dos mais de 30 ex-membros entrevistados pela AP disseram viver com eterno medo de retaliação. Alguns já tinham procurado ajuda psicológica. Outros se perguntavam como toleraram os abusos por tanto tempo.

A ex-integrante Juliana Oliveira, de 34 anos, lembra-se de quando a vida era normal na igreja de São Joaquim de Bicas, anos antes de os americanos virem de Spindale, no Estado da Carolina do Norte. Antes de mesmo de removerem as tradições brasileiras, os gritos e espancamentos começaram.

“Quando você está em uma seita, você não sabe que está em uma seita porque pouco a pouco isso se torna ‘normal’”, afirmou Juliana. “É como um sapo em uma panela de água. Quando está fervendo, ele não consegue pular fora.”

A disseminação da Word of Faith Fellowship no maior país da América Latina é parte de uma longa investigação da AP na igreja evangélica fundada em 1979 por Jane Whaley, uma ex-professora de matemática, e seu marido, Sam.

Com base em entrevistas exclusivas com dezenas de ex-membros, a AP informou em fevereiro que os integrantes nos Estados Unidos eram frequentemente espancados, esmurrados e sufocados para supostamente expulsar demônios e “purificar” pecadores. A AP também detalhou como a Word of Faith Fellowship frequentemente enviava aos país jovens brasileiros com vistos de turista e estudante para forçá-los a trabalhar na igreja e empresas dos líderes da seita.

Nem Whaley nem os pastores das unidades brasileiras ligadas à Word of Faith Fellowship responderam aos pedidos para comentar o assunto.

A seita tem quase 2 mil membros somando Brasil, Gana e suas filiadas na Suécia, na Escócia e em outros países.

Em Spindale, há 750 integrantes. No Brasil, o controle das duas igrejas foi passado em uma lenta transição que culminou em regras drásticas para quase todos os aspectos da vida, segundo ex-integrantes.

Muitos dos decretos vinham de decisões de Jane na Carolina do Norte, como proibir o uso de calça jeans e impedir crianças conversarem com pessoas do sexo oposto sem aprovação.

Em Franco da Rocha, ex-membros dizem que Jane os proibiu de jogar futebol às vésperas da Copa do Mundo de 2014 porque ela sentia que os jovens da igreja estavam focados no evento em detrimento de Deus.

“Nós acabamos de lidar com um grande ‘demônio do futebol’ que baixou no Brasil há duas semanas”, disse Jane aos integrantes em Spindale durante um sermão transmitido aos membros no Brasil e em Gana visto pela AP.

Quando Juliana era adolescente no final dos anos 1990, a escola evangélica que frequentava era “rigorosa, mas normal”. A Bíblia era o principal guia no Ministério Verbo Vivo, mas as matérias gerais

eram ensinadas como em qualquer escola brasileira.

Quando ela voltou da faculdade para dar aulas na mesma escola, a vida na Verbo Vivo era quase irreconhecível, disse Juliana, que rompeu com a Word of Faith em 2009.

Os livros didáticos analisados pela AP também mostram fortes restrições. Em vez da sexualidade humana, por exemplo, o ciclo da vida é ensinado por meio da reprodução de vegetais.

“A influência de pastores americanos foi se tornando cada vez mais forte na escola e na igreja”, afirmou Juliana, enxugando as lágrimas durante uma entrevista em sua casa na região de Betim, na Grande Belo Horizonte. “Eles interromperam a ênfase no ensino de Português, Geografia, Matemática - as coisas normais. E mudaram principalmente para o estudo da Bíblia e um monte de abusos.”

Os estudantes considerados “rebeldes” eram isolados na escola, obrigados a ler a Bíblia ou ouviam gritos por horas para “expulsar demônios”, de acordo com muitos ex-estudantes e seus pais.

Quando agentes públicos visitavam, a longa calçada com palmeiras do portão até a escola oferecia muito tempo para os funcionários da escola colocarem livros tradicionais e fazerem as coisas parecerem “normais”, segundo Oliveira.

Ao longo dos anos, ex-membros contaram que nas unidades brasileiras estavam sendo agredidos fisicamente e com gritos - a última é uma prática da Word of Faith Fellowship na qual os ministros e integrantes cercam os membros e soltam a voz por horas até os demônios saírem.

Flavio Correa, de 52 anos, disse que seu filho mais velho levou tantos tapas durante uma sessão de gritaria dos pastores na igreja de Franco da Rocha que sofreu vários cortes no rosto.

“Naquele momento eu pensei que era absurdo, exagerado”, contou Correa, que deixou a igreja no ano passado após 23 anos. “Mas eu confiava neles e você começa a pensar que é bom para a pessoa. Hoje, eu só penso que é estupidez.” /COLABOROU SARAH DILORENZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Como a igreja Word of Faith Fellowship entrou no Brasil e cresceu

Seita começou atividades no País com missionário americano em MG; estratégia foi isolar os frequentadores do resto do mundo

Peter Prengaman, Mitch Weiss e Holbrook Mohr, Associated Press

25 Julho 2017 | 15h31

FRANCO DA ROCHA E SÃO JOAQUIM DE BICAS - Foi com John Martin, um missionário americano que se casou com uma brasileira no final da década de 1970, que a Word of Faith Fellowship chegou ao Brasil. Ele foi pastor em uma igreja batista próximo a Belo Horizonte. Os ex-membros afirmam que Martin conheceu Sam Whaley em um avião em 1986, iniciando uma relação que levou o casal Whaley e outros ministros de Spindale, na Carolina do Norte, a visitarem a igreja de Martin.

Martin fundou a Verbo Vivo em Belo Horizonte em 1987 e, gradualmente, ano a ano, os americanos tomaram o controle do grupo, segundo os ex-membros.

Em 2005, Martin mudou sua igreja para São Joaquim de Bicas, uma pequena cidade a cerca de 45 minutos da capital mineira. Naquele mesmo ano, dezenas de famílias da igreja se mudaram para um terreno em Betim, outro município da Grande Belo Horizonte. Os ex-membros dizem que o plano era claro: isolar o rebanho do mundo.

As crianças frequentavam a escola nas terras da igreja - uma propriedade protegida por uma cerca de 2,5 metros de altura com arame farpado por cima. Elas voltavam para casa em um bairro fechado por um portão e uma cerca também de 2,5 metros.

Os adultos tinham pouco contato com o mundo exterior, apenas iam ao trabalho e voltavam direto para casa na comunidade. Alguns ex-membros continuam vivendo no local, como a família de Juliana Oliveira. 

Integrantes atuais e antigos passam uns pelos outros diariamente sem se falarem.

Franco da Rocha

Cerca de 580 quilômetros ao sul, uma transformação parecida aconteceu. Ex-membros dizem que o casal de pastores evangélicos Solange Granieri e Juarez de Souza Oliveira conheceu os Whaley em uma conferência religiosa em São Paulo em meados dos anos 1980.

Em 1988, Juarez Oliveira abriu o Ministério Evangélico Comunidade Rhema, que inclui uma igreja e uma escola em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo.

Assim como em São Joaquim de Bicas, os integrantes na segunda comunidade eram estimulados a comprar terrenos em uma área remota fora da cidade, segundo ex-membros. Em ambos os locais, havia ênfase em construir comunidades fechadas assim como as da seita original na Carolina do Norte.

Em 2009, quase duas décadas depois da fundação de Verbo Vivo, o tratamento cada vez mais severo e as regras rigorosas impostas pelos americanos levaram a uma revolta de dezenas de integrantes em São Joaquim de Bicas.

Dois pastores brasileiros deixaram a seita e disseram na TV que Martin e outros ministros americanos visitantes faziam “lavagem cerebral” para controlar os integrantes seguindo ordens de Whaley.

Essas saídas criaram uma ruptura tão grande - e levou a tantas queixas - que o comitê de direitos humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais teve de realizar audiências.

Abusos e agressões

Duas dezenas de ex-membros testemunharam sobre abusos, indo do isolamento forçado até chacoalhões a agressões nas missas e na escola da igreja. Ex-estudantes afirmaram terem sido espancados com colheres de madeira. Eles também ouviram gritos por longos períodos diante dos colegas de classe.

Andre Gustavo Morais de Oliveira, que não é parente dos outros Oliveiras, afirmou ter sido levado a Spindale quatro vezes quando adolescente, começando aos 13 anos de idade. Ele disse que não trabalhou durante a primeira viagem de 27 dias e apenas passou os dias orando e aprendendo a doutrina da igreja.

“Nas viagens seguintes, fui obrigado a trabalhar como pintor, jardineiro, tudo para o bem da seita”, ele afirmou na audiência. 

Contatado pela AP, Morais de Oliveira confirmou seu testemunho, mas não quis ser entrevistado.

Pais também testemunharam que seus filhos foram enviados aos Estados Unidos e doutrinados ao ponto de se voltarem contra suas famílias.

Eduardo Gonzaga, um dos pastores que deixaram a igreja, disse que seu filho de 19 anos e sua filha de 22 tinham cortado o contato após a viagem à Carolina do Norte.

“Pai, não tente falar mais conosco”, disseram eles, segundo Gonzaga, em um telefonema de Spindale no Dia dos Pais. Toda comunicação a partir dali deveria ser feita por meio dos líderes da igreja em Spindale, ele afirma ter ouvido.

Gonzaga declarou que tentou contato com os filhos repetidamente e até viajou para Spindale. Como eles já são adultos, as autoridades americanas não interviriam.

As audiências no Brasil criaram tensão, mas no fim ninguém foi denunciado. Grande parte dos abusos se resumiram à palavra dos ex-membros contra a dos dirigentes da seita, assim como aconteceu nas investigações sobre a matriz da Carolina do Norte que acabaram paralisadas ao longo das décadas.

Martin, o pastor líder, negou as acusações e chamou as regras disciplinares de “orientações, e não proibições”, conforme a imprensa da época noticiou. Ele se recusou fazer novos comentários para a AP.

As turbulências levaram pelo menos a uma mudança: ex-membros afirmam que houve uma queda acentuada no número de membros da seita de Martin, de cerca de 600 para 300.

Apesar de o grupo de Franco da Rocha não ter sofrido o mesmo conflito interno, os membros que saíram nos últimos anos estimam que o número de integrantes caiu de 700 há uma década para 250 agora.

Naara Abe, de 51 anos, integrante da igreja de Franco da Rocha por 25, disse que as mudanças drásticas na igreja fizeram que ela desejasse sair uma década atrás, mas ela afirma só ter criado coragem no ano passado.

Seu ponto final foi uma conversa com Jane Whaley sobre seu filho adolescente, que gostava de uma membro da seita, mas não podia conversar com ela por causa da rígida separação de gênero. Se fosse uma boa mãe, disse Whaley a Naara, o filho seria punido.

Naara vive cheia de arrependimento - dos aniversários não comemorados porque a igreja proibia até a extrema tensão no seu casamento. Seu marido, que também frequentava a seita havia muito tempo, tinha dúvidas sobre a igreja e passou anos dizendo que eles deveriam sair.

“Pouco a pouco, a igreja faz com que você faça mais coisas, coisas sutis que você não chega a notar”, disse Naara, citando o corte de contato com amigos que não são membros. “Aí, você é como um animal enjaulado que não sabe mais como é viver fora.” /COLABOROU SARAH DILORENZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.