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Ingresso para a Sapucaí? Só com plantão ao telefone

Roberta Pennafort, de O Estado de S. Paulo

15 Fevereiro 2014 | 18h 39

Liga se recusa a adotar a internet para a comercialização, mas as linhas ficam congestionadas; para alguns assentos, é preciso até aparelho de fax

RIO - Para comprar ingresso para os desfiles na Marquês de Sapucaí, ensina a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa), "é fácil": a pessoa liga para um telefone, digita o número relativo ao setor de onde deseja assistir; em seguida, insere o número de seu CPF; o sistema fornece uma senha e indica uma agência bancária para o comprador. De posse da senha, o pagamento deve ser efetuado para retirar o ingresso. O problema, no entanto, é conseguir ser atendido.

Para ficar em um determinado setor do sambódromo, é preciso obstinação para ligar seguidas vezes - as 920 linhas abertas pela Embratel para o atendimento ficam congestionadas.

No dia 13 de janeiro, quando as vendas foram iniciadas, todos os 28,8 mil ingressos de arquibancadas e cadeiras individuais acabaram em uma hora e meia. O que não é quitado volta a ser oferecido pela Liesa.

São 75 mil lugares no total, mas são descontados os 25% oferecidos a foliões de outros Estados (que têm de usar um call center específico), os do setor 9, destinados às agências de viagem, que os repassam aos turistas estrangeiros (por valores muito mais altos) e os entregues às escolas de samba.

Num tempo em que comprar pela internet se tornou corriqueiro, o sistema da Liesa é criticado pelos frequentadores da Sapucaí. "Tem de colocar a família e os amigos no telefone tentando ao mesmo tempo. Todo mundo reserva quatro ingressos (o máximo permitido por CPF) e depois a gente acerta", conta o pesquisador de carnaval Felipe Ferreira. "Se fosse pela internet, poderia ser mais simples. Por outro lado, um cara lá da China ‘competiria’ com a gente. É muito complexo, pois os turistas também têm direito", ressalta.

A Liesa assegura que o telefone é o meio mais democrático, já que praticamente todo cidadão tem acesso a um aparelho, enquanto o computador ainda não está em todos os lares. "O carnaval do Rio é um espetáculo luxuosíssimo, mas 30% dos ingressos são voltados às pessoas mais pobres. A Liga e as escolas têm essa preocupação social", explica o responsável por essa comercialização, Heron Schneider, referindo-se às arquibancadas populares, dos setores 12 e 13, que saem a R$ 10.

Quem quer o conforto de camarotes ou a proximidade dos desfiles das frisas precisa dispor de algo obsoleto na maior parte dos escritórios: um fax. A Liesa não abre mão do método, por considerá-lo o mais eficaz, e a entidade também não vê problema em admitir que dá preferência para os compradores habitués quando dezenas de faxes chegam juntos.

"Por que não abrir mão de um aparelho que é considerado retrógrado? Por segurança. São 330 camarotes e 3 mil interessados. Pela internet entrariam 3 mil pedidos ao mesmo tempo, como eu faria? Infelizmente, a internet ainda não é segura", diz Schneider, há 24 anos à frente da empreitada.

Acampamento. Até 2004, os ingressos eram comercializados em agências bancárias. Aficionados dormiam em filas por dois ou três dias. Na hora em que as agências abriam, oportunistas passavam na frente e estava criado o tumulto. Os cambistas prosperavam. Antes ainda, quando eram utilizados os guichês do Maracanã, as filas davam volta no estádio.

Para quem defende a venda pela internet - mecanismo adotado em São Paulo -, a resposta é categórica: a Liga não quer ter de recorrer a uma administradora de cartão de crédito. "Não queremos sócio. O cartão fica com 3% a 5%, e isso é muito para as escolas", justifica Schneider.

Outro complicador, segundo ele, é o fato de existirem muitos tipos de ingressos diferentes: são 13 setores e eles têm arquibancadas, frisas, camarotes e cadeiras. "Carnaval não é Rock in Rio, que tanto faz se você coloca 75 mil pessoas lá dentro ou 76 mil. Pela internet seria o caos."

Desde a ampliação das arquibancadas, em 2012, que aumentou a capacidade do sambódromo em 15 mil lugares, tem sobrado ingresso. Por causa dessa oferta maior, o preço está estabilizado. As arquibancadas que não são turísticas custam entre R$ 130 e R$ 320.