Insatisfação constante

Acredito que hoje a sensação de frustração tenha alcançado níveis inéditos, trazendo ao mundo infelicidade no atacado

Daniel Martins de Barros *, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 00h00

Não sei se alguma vez você já teve a sensação de estar continuamente insatisfeito, de querer sempre um pouco a mais: um bombom extra, um último beijo, mais um minutinho, mais R$ 100, R$ 1 mil, R$ 1 milhão. Parece que só com esse bocado adicional obteremos uma satisfação definitiva. Sem ele, tememos ficar com um gosto de quero mais nos perturbando, maculando a alegria anterior. Mas, quando temos a chance de alcançar esse bônus, tudo o que conseguimos é ver o ciclo recomeçar. Só mais um.

O ser humano traz a insatisfação embutida no DNA. Se parece que você está sempre insatisfeito, é porque está mesmo, o que faz sentido do ponto de vista de sobrevivência. Evoluindo no inóspito ambiente onde fome e escassez eram regra, ansiar por mais devia ser inevitável. No contexto em que tudo faltava, os mais insatisfeitos deixaram proles maiores, inserindo de modo indelével em nós a avidez eterna.

Até hoje os custos de ter a mais, seja o que for, tendem a ser menores do que os de ter a menos. Uma prática em prontos-socorros onde não há exame de glicemia disponível é a de aplicar glicose na veia de pacientes que chegam inconscientes. Mesmo se a taxa de açúcar no sangue estiver alta, subir não fará mal; mas se estiver muito baixa, salva-se sua vida. Beber água em exagero pode ser perigoso, mas deixar de bebê-la mata mais rapidamente. Os efeitos da desnutrição têm impacto imediato, ao contrário das complicações de longo prazo da obesidade.

A essa altura não é difícil imaginar as consequências desse ímpeto acumulador. A epidemia de obesidade é só a mais visível delas. Nossa programação mental para comer tudo o que conseguirmos na hora em que pudermos - porque não sabíamos quando haveria outra refeição - faz com que seja difícil parar de comer quando estamos satisfeitos. Porque nunca estamos. Só paramos mesmo é quando vemos o fim.

Há outra epidemia que nos aflige, contudo, sem que dela muitas vezes nos demos conta. Mais silenciosa, dá sinais esparsos, revelando-se aqui e ali: a epidemia de frustração. Não sei se há números oficiais, mas acredito que hoje a sensação tenha alcançado níveis inéditos, trazendo ao mundo infelicidade no atacado. Pois assim como em todas as outras áreas da vida, também no que diz respeito a cargos, bens e valores, por mais que tenhamos, sempre parece que poderíamos ter mais. 

Não que o desejo seja ruim por si só. Ele é um grande motor de mudança e evolução. O problema é que os desejos vivem no mundo das ideias, onde não há limites, ao contrário da vida real. Por isso, não importa onde estejamos, gostaríamos sempre de alcançar mais. Mas chega uma hora em que os limites se impõem. Não conseguimos mais fingir, nem para nós mesmos, que iremos além. O gerente descobre que nunca será presidente, o ator internacional que jamais ganhará um Oscar, o casal desiste de ter o segundo filho.

Antes das redes sociais, isso demorava mais para acontecer. Como certa vez ilustrou bem meu vizinho de caderno dominical Luis Fernando Veríssimo, isso ocorria lá pelos “seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu”. Já era frustrante, mas, ao menos, éramos adultos lidando com a frustração. Agora não mais.

Nesses tempos de superexposição e de evasão de privacidade, nos quais a ostentação deixou de ser defeito para se tornar um estilo, cada vez mais cedo nos damos conta de tudo o que jamais conseguiremos alcançar. Se essa perda precoce das ilusões nos tornará mais realistas ou mais cínicos, só o tempo dirá.

* É PSIQUIATRA

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