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‘Instituições não responderam aos protestos’

BÁRBARA FERREIRA SANTOS, FELIPE NEVES e VICTOR VIEIRA - O Estado de S. Paulo

06 Julho 2014 | 02h 00

A sensação de desrespeito às leis é acompanhada por uma crise de legitimidade das instituições. A pesquisa, feita após as manifestações de junho de 2013, evidencia baixa confiança no governo, nos partidos políticos, no Judiciário e na polícia.

“As instituições políticas e representativas não souberam responder aos protestos”, avalia a professora da Direito GV Luciana Gross Cunha. O descontentamento popular com a corrupção no governo visto nas manifestações, entretanto, não se traduz em maior controle sobre o cumprimento de normas de um cidadão em relação ao outro. “Talvez aumente o pessimismo: se o outro faz, faço também. E, sem incentivo do governo ou da Justiça, não me comporto de acordo com a lei”, diz.

Mendez, fotógrafo de 24 anos, não acredita em seguir regras a todo custo. “A lei supõe que somos a Suíça. Mas ando quarteirões com lixo na mão sem achar uma lixeira”, critica ele, que se considera transgressor. “Não significa que eu seja antiético. Apenas contra hipocrisias. É preciso questionar as leis”, sugere.

Para o professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Carlos Kauffmann, porém, ainda há a ideia de que o resultado justifica a ação. “Alguns acham que falsificar documento de estudante é menor. Mas é crime grave”, explica ele, que também defende mudança de cultura. 

Transformações. O professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) José Álvaro Moisés identifica contestações e desconfiança no governo como parte do processo de amadurecimento do País. “Há menos passividade, com grande atenção ao que se passa na política”, aponta. Segundo ele, as infrações não são aceitáveis, mas também explicadas por desigualdades sociais. “Até hoje não é universal o acesso à educação, por exemplo”, afirma.

A pesquisa confirma diferenças de percepção entre classes: ricos creem ser mais fácil desobedecer às leis. “Quem é vítima de maior controle social não é a população de alta renda”, explica Luciana. Dos entrevistados que recebem mais de oito salários mínimos, 85% dizem ser fácil descumprir leis. Já entre os que ganham menos de um salário, são 71%.

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