Instituto faz versões em braile por encomenda

Estudante critica dificuldade de acesso a obras técnicas

O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Há leitores com problemas mais complicados do que falta de dinheiro no bolso. É o caso dos deficientes visuais, que sofrem com a carência de livros em braile no mercado. A questão não é só de acesso à literatura, mas de formação profissional. Boa parte dessas pessoas têm como única opção recorrer ao Instituto Vivo, que tem um serviço de transcrição de livros para o braile. "Quando você leva em disquete, eles fazem a tradução em poucos dias; mas, se o original é um exemplar impresso, pode levar até três meses", diz a universitária Lucimara Gonçalves, de 21 anos. Lucimara nunca enxergou. Até completar o ensino fundamental, estudou no Instituto de Cegos Padre Chico, no Ipiranga, zona sul. "Quando fui para o ensino médio começaram os problemas. Os livros didáticos, em braile, chegam atrasados na escola pública. Muitas vezes, conseguia o livro quase no fim do ano. E agora, na faculdade, não encontro um livro na minha área, Relações Públicas", diz Lucimara. "Não adianta nem querer comprar, porque não existe." "Já produzimos materiais muitos específicos", diz Marcelo Alonso, diretor de Comunicação e Relações Institucionais da Vivo, que mantém o serviço há quatro anos. "Uma vez, passamos para o braile a apostila de um curso de radialista. O pedido partiu de um cego que queria seguir carreira." O instituto atende a pedidos particulares, mas trabalha mais para instituições especializadas. Além do material em braile, a entidade também oferece audiobooks, livros narrados. "O trabalho com os deficientes visuais foi uma iniciativa do corpo de voluntários da empresa", diz Alonso. Funcionários interessados em aprender as técnicas da narração fizeram um curso para que pudessem produzir os audiobooks. "A idéia é desenvolver projetos que levem à inclusão do deficiente visual." CINEMA Outra vertente do trabalho do instituto é o espetáculo narrado. "A primeira experiência foi com o teatro", conta Alonso. Um especialista em narração assiste aos ensaios e se prepara para gravar a descrição das cenas. Ele conta tudo, dos detalhes da roupa dos atores à arrumação do cenário, da entrada dos personagens ao que eles fazem em cena. A descrição é gravada para que o deficiente visual possa escutá-la durante o espetáculo, em fones parecidos com os de tradução simultânea. Um dia antes do espetáculo, ele ainda é levado ao palco para tatear o cenário. A técnica vale para sessões de cinema. Na terça-feira, o instituto patrocinou uma sessão de Passado, do diretor Hector Babenco. Um dos deficientes presentes comentou com o amigo: "É a primeira vez que consigo rir ao mesmo tempo que a platéia."

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