Irã segue tema incômodo no diálogo Brasil-EUA

Segundo conselheiro americano, questão ''certamente'' estará na conversa com Dilma; Patriota critica ''oportunidade perdida'' de acordo em 2010

Denise Chrispim Marin e Lisandra Paraguassu, O Estado de S.Paulo

19 Março 2011 | 00h00

A decisão do governo Dilma Rousseff de manter o apoio do Brasil ao programa nuclear iraniano será abordado pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante o encontro de hoje no Palácio do Planalto. Trata-se de uma questão com potencial de interferir negativamente no projeto dos dois países de resgatar a relação bilateral da inércia dos últimos oito anos.

"O tema do Irã certamente se tratará entre os presidentes", afirmou Daniel Restrepo, conselheiro adjunto de Segurança Nacional da Casa Branca para Assuntos Hemisféricos, com o cuidado de não responder diretamente à pergunta sobre as implicações dessa posição brasileira.

Restrepo preferiu chamar a atenção para a preocupação expressa pela presidente Dilma Rousseff sobre as violações dos direitos humanos no Irã - uma mudança em relação à posição do governo do antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Também reiterou o fato de o Brasil ter adotado as sanções adicionais ao Irã aprovadas em junho do ano passado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas - apesar do voto brasileiro contrário. O secretário assistente para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela, afirmou que os dois países estão avançando em relação ao Irã. "Estamos de acordo que há temas no Irã que preocupam os dois países", disse.

Críticas. Na quinta-feira, o chanceler Antonio Patriota também afirmou que o Irã seria certamente tema das conversas entre Obama e Dilma, mas não foi tão otimista quanto seus colegas norte-americanos. Apesar de ter dito que as negociações sobre o Irã deverão prosseguir "em novas bases", já que há um impasse, Patriota criticou a reação dos EUA à tentativa de Brasil e Turquia, no ano passado, fecharem um acordo com o governo iraniano.

"As propostas feitas não eram do Brasil, mas dos Estados Unidos e da Agência Internacional de Energia Atômica", argumentou o chanceler. "As sanções adicionais adotadas em 2010 não contribuíram até agora para que houvesse qualquer concessão do governo iraniano. Foi uma oportunidade perdida."

Poucas horas antes de seu encontro com a secretária de Estado, Hillary Clinton, em fevereiro passado, Patriota reiterou ao Estado o apoio brasileiro ao programa do Irã de enriquecimento de urânio a 20% para fins pacíficos. Alegou ser esse um direito consistente com as normas do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). O Irã, porém, foi proibido pelo próprio de Conselho de Segurança de enriquecer o metal nesse nível, dada a suspeita de seu interesse na fabricação de armas nucleares.

"O problema do Irã é a desconfiança em relação a seus compromissos internacionais. Por isso, o programa nuclear iraniano tornou-se item do Conselho de Segurança", afirmou Patriota na ocasião. "Temos de oferecer alternativas diplomáticas para superar esse impasse. O Acordo de Teerã (maio de 2010) foi uma alternativa para gerar confiança entre interlocutores que mal dialogavam entre si."

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