NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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'Não há justiça social com discriminação de gênero', diz filósofa

Para pesquisadora, a identidade de gênero e a orientação sexual não estão automaticamente associadas ao sexo biológico

Entrevista com

Judith Butler

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2015 | 13h45

Uma das principais teóricas dos estudos de gênero no mundo, a filósofa americana Judtih Butler esteve em São Paulo na última quarta-feira, 9, para participar do primeiro "Seminário Queer, cultura e subversões das identidades", realizado pelo Sesc. Butler é considerada uma das responsáveis por uma mudança radical no cenário dos estudos de gênero, sua teoria defende a noção de que a identidade de gênero e a orientação sexual não estão automaticamente associados ao sexo biológico.

Judia e lésbica, Butler também têm trabalhos na área de filosofia política com teorias sobre a situação das vidas de grupos excluídos, como mulheres, negros, pobres, imigrantes e a comunidade LGBT.

Questionada sobre como se sente ao ser considerada uma "celebridade" dos estudos de gênero, Butler disse que se sente "cansada e sozinha" por carregar essa responsabilidade. "Mas não me deixo enganar pela possibilidade da fama, até pelo bem da minha saúde e das pessoas que estão a minha volta. Me sinto sozinha, mas tudo bem", disse.

Principal palestrante do seminário, a apresentação de Butler teve os ingressos esgotados em menos de duas horas e reuniu 600 pessoas ligadas à pesquisa das questões de gênero e à militância LGBT. No momento da apresentação, um grupo de religiosos realizou um protesto contra as teorias da filósofa. 

Leia a seguir a entrevista com a filófosa:

No Brasil, estamos discutindo a inclusão de metas que abordem a igualdade de gênero e o respeito à diversidade sexual nos planos de educação. No entanto, grupos religiosos são contra e dizem que seria a implementação de uma “ideologia de gênero” nas escolas, para desestruturar a família tradicional. Como você vê a possibilidade desse conceito estar incluso nas políticas educacionais?

É importante que a educação incentive o pensamento crítico, o que significa não aceitar a autoridade daqueles que clamam ter monopolizado a verdade sobre gênero. A noção de “ideologia de gênero” só quer oferecer um ponto de vista polêmico. Esses grupos [conservadores] não entendem que o que se defende é que a justiça social não vai ser construída sem o fim da discriminação de gênero. Eu acho um grande erro censurar os estudos de gênero por um medo de que isso possa reduzir o sexo biológico.

Parece que a igreja está mais interessada em uma educação moral do que em entender os fatos corretos sobre sexo. Parece que eles estão se segurando a normas conservadoras sobre gênero que pouco têm a ver com a diversidade que encontramos em estudos sobre sexo. Minha opinião é a de que eles não querem entender as variáveis biológicas do sexo, assim como não querem entender o conceito de gênero.

Porque você acha que é tão difícil para os pais e a escola para conversar com as crianças sobre sexo e gênero? A justificativa de grupos conservadores é de que a discussão pode “despertar” muito cedo essa sexualidade neles?

Muitas pessoas cresceram em ambientes religiosos em que você é ensinado qual é o papel adequado sobre sexualidade, que está ligada a reprodução, que deve acontecer dentro da família, que é heterossexual. Esse é o seu senso de realidade dessas pessoas, de seus pais e seus avôs. E então eles são confrontados com um grupo, como o nosso, que bate na porta deles e diz “não é bem assim”, que existem pessoas que não podem viver dentro dessas estruturas ou não querem; ou que querem ter mais liberdade e não sofrer por ter que se conformar com a ideia de gênero que lhes foi imposta. Algumas pessoas conseguem entender isso, mas outras não e defendem que o seu modo de viver é universal e o único que pode existir. Isso é muito perigoso, você querer que as pessoas vivam dentro das suas regras. Algumas pessoas têm a noção de que ao ensinar sobre gênero nas escolas ou incluir informações sobre homo e transexualidade você pode seduzir os alunos. Eles seguem a lógica de que há um contágio, se você se informa sobre isso, você vai se tornar um deles. As pessoas que acreditam nisso devem achar a homossexualidade, bissexualidade ou a transexualidade muito atrativas. Na verdade, se eu aprendo sobre a sexualidade de uma pessoa isso não significa que eu vá querer o que eles querem. Só significa que eu tenho uma visão mais ampla sobre o que é o mundo. Nós precisamos relaxar, tratar esse assunto de forma mais leve para aprendermos mais sobre nós, nos entendermos melhor como pessoas. As pessoas que estão raivosas não querem que o mundo mude, mas elas precisam aceitar que o mundo já mudou, independente do que elas acham.

A presidente Dilma Rousseff disse em uma entrevista no começo desse ano que sofre sexismo na forma como seu governo é criticado. Apesar dos avanços na luta feminista, como as mulheres podem e devem continuar lutando para alcançar o mesmo respeito que os homens?

Mulheres em cargos de poder frequentemente são criticadas de forma sexista, mas é importante lembrar que as mulheres fora desses cargos também sofrem sexismo e muitas vezes com consequências ainda mais graves. Mulheres que pertencem a minorias raciais sofrem ainda mais. Então a questão que eu tenho para as mulheres que estão no poder é se elas não podem usar as próprias experiências que sofreram de discriminação e preconceito para elaborar um plano mais sistemático sobre o enfrentamento ao sexismo, homofobia, transfobia e racismo. Eu sei que a presidente Dilma, por exemplo, encampou uma importante lei que endureceu as penas contra o feminicídio. Isso me pareceu importante.

A ideia da heteronormatividade tem perdido espaço em alguns países (inclusive mudanças na legislação brasileira) com a aprovação de casamentos e a parentalidade gay e a conquista de outros direitos para a sociedade LGBT?

Tudo o que você elencou são grandes conquistas, mas é importante que nós consideremos que eles não são o fim da linha. Nós temos que nos lembrar de todas aquelas pessoas que continuam vivendo fora das estruturas de família, definidas pelo casamento ou parentalidade, que não são menos importantes do que as pessoas casadas. Precisamos continuar pensando nos “queer” e nos jovens transexuais, no racismo que ainda persiste.



Na dimensão política de seu trabalho você aborda muito a questão sobre vidas que “importam” mais que outras. No Brasil, constantemente somos confrontados com situações em que a vida de negros, pobres, gays não ganha tanto destaque.

Assim como os Estados Unidos se vangloriam de seu multi-culturalismo, ainda persistem formar de racismo como vimos nos episódios em que pessoas  negras desarmadas foram agredidas e até mortas por policiais ou quando vemos o número desproporcionalmente alto de populações negras e pardas no sistema prisional americano.

No Brasil, há uma erradicação da pobreza. Mas quem está recebendo estes empregos? Quem  tem sido preparado para o mercado de trabalho? O Brasil também se vangloria da sua diversidade sexual, mas diversidade não significa igualdade.  Algumas vidas não recebem as mesmas chances que outras porque elas não são consideradas como merecedoras dos mesmos valores. 

O que você acha da atuação dos países no enfrentamento da crise de refugiados que estamos vivendo?

É uma obrigação humanitária, todas as nações que podem devem receber os refugiados. Mas o que significa receber os refugiados? Não significa apenas deixá-los entrar, mas providenciar serviços para garantir abrigo, ajudá-los a aprender a língua, a conseguir um emprego para que eles possam ter a própria vida nessa nova comunidade. Há um aparato institucional que deve ser preparado para receber os refugiados.

É preciso também uma reflexão sobre o conceito de nação. O Brasil, por exemplo, sempre foi multirracial. As pessoas imigram para cá há anos. É importante abraçar a diversidade cultural que uma população refugiada trás.

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