Llosa vê ação 'esquizofrênica' de Lula

Prêmio Nobel de Literatura, escritor peruano lamenta que presidente 'não tenha uma política internacional equivalente' às realizações internas

, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2010 | 00h00

Na primeira visita que faz ao Brasil depois de escolhido como o Prêmio Nobel de Literatura de 2010, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, definiu como "esquizofrênica" a conduta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e lamentou que ele "não tenha uma política internacional equivalente" às realizações internas.

Vargas Llosa falou de política e de literatura em São Paulo, num encontro com funcionários da Editora Abril, antes de viajar para Porto Alegre, onde era convidado do seminário Fronteiras do Pensamento. Na palestra de São Paulo, conduzida por Ricardo Setti, o escritor disse que o Brasil "é visto como um exemplo a ser seguido". O presidente brasileiro, segundo ele, "teve uma evolução notável" na política interna. "Há no Brasil um desenvolvimento que impressiona o mundo inteiro, conduzido por posições democráticas admiráveis". O Nobel ainda elogiou o presidente brasileiro por ter respeitado a democracia e aplicado na economia fórmulas da social-democracia.

Mas lamentou, segundo o site da BBC Brasil, que Lula "não tenha uma política internacional equivalente" - referência à aproximação entre o presidente brasileiro e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad. "Lá estão atirando pedras em mulheres adúlteras", comentou. "Como vai legitimar um tirano assassino que representa uma forma anacrônica de fanatismo?" Para Vargas Llosa, "há razões políticas, geopolíticas, mas não há razão ética ou moral que justifique esse tipo de esquizofrenia na conduta de um governante."

"Desconcertado". Às vésperas de lançar no Brasil um novo livro, O Sonho do Celta, o autor peruano, de 74 anos, falou também de outros temas que lhe são caros - Cuba, o desmonte do comunismo, o liberalismo, a literatura. Disse sentir-se "desconcertado, entristecido e indignado" com a decisão do presidente brasileiro de encontrar-se com o líder cubano Raul Castro, no exato momento em que um dissidente, Orlando Zapata, morria em greve de fome. "Por que um democrata no Brasil vai abraçar um ditador repelente como o sr. Castro no mesmo momento em que está morrendo um dissidente?", cobrou ele.

Vargas Llosa falou ainda sobre a situação da América Latina, região que, segundo ele, evoluiu bastante nos últimos anos, e na qual se registrou uma consolidação da democracia. "Hoje só temos uma semiditadura, a de Hugo Chávez, que foi derrotada nas últimas eleições e tem um fracasso econômico enorme". Esses avanços, diz o novo Nobel sul-americano, permitem que o continente "comece a recuperar o tempo perdido". Mas deixa uma advertência: "não se pode cair na ingenuidade, porque pode haver volta".

Como zumbi. Antes da palestra de ontem, em Porto Alegre, o escritor voltou a encontrar jornalistas e falar principalmente do modo como o Prêmio Nobel entrou em sua vida, na semana passada. Disse ter recebido uma ligação - que imaginou, de início, ser um simples trote - anunciando sua escolha e uma voz dizendo que isso lhe seria oficialmente comunicado dali a 14 minutos. "Foram 14 minutos de ansiedade", resumiu, durante os quais sentiu-se "como um zumbi". "Como se outras forças conduzissem meus movimentos."

Depois de afirmar que buscou a literatura como forma de intervir nas mudanças sociais, disse ter mudado sua percepção. "Vi que a realidade não confirmava essa possibilidade. A literatura tem efeito, mas é um efeito indireto e que não pode ser controlado pelo escritor."

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