Beto Barata/AE
Beto Barata/AE

Lula e Dilma apressam volta para prestar último tributo

Emocionado, ex-presidente afirma que Alencar lhe deu 'o restante' dos votos para se eleger

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

30 Março 2011 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL / COIMBRA

Muito emocionados, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentaram ontem a morte do ex-vice-presidente José Alencar e anunciaram a antecipação do retorno a Brasília, juntos, no Aerolula, no fim da manhã de hoje, para participar do velório no salão nobre do Palácio do Planalto.

Dilma e Lula estavam no Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde estão hospedados, quando foram avisados pelo médico Raul Cutait da morte de José Alencar. Eles conversaram com a família e anunciaram que estarão presentes no sepultamento, em Belo Horizonte.

Dilma estava um pouco mais contida, mas não menos abalada que o ex-presidente. Os dois mantiveram o compromisso de participar, hoje de manhã, na Universidade de Coimbra, da cerimônia de concessão do título de doutor honoris causa a Lula. "Vou dedicar o prêmio a ele", disse Lula, chorando. "O Brasil perde um homem de dimensão excepcional. É muito fácil a gente falar das pessoas depois que morrem, porque todo mundo fica bom depois que morre, mas o José Alencar era bom em vida", prosseguiu Lula, acrescentando que ambos tinham "mais do que uma relação de um vice e um presidente", "Era uma relação de irmãos e companheiros."

Missão. Dilma chorou ao ouvir Lula narrar o episódio em que Alencar, mesmo estando muito debilitado, durante a campanha do ano passado, fez questão de subir em um carro para acompanhá-la, em Belo Horizonte. "Eu tenho que fazer isso, porque eu quero elegê-la", afirmou Alencar. "Eu cheguei a dizer que eu não acreditava que existisse no mundo um presidente que tivesse um vice como eu tive o prazer de ter o José Alencar", contou Lula, lembrando que "nunca teve uma vírgula de divergência" com ele.

Para Lula, a morte "foi um descanso", pois Alencar estava sofrendo havia seis meses e não gostava de ficar no hospital. "Um tempo atrás, eu fui chamado para conversar com ele porque ele queria pedir a minha opinião se ele deveria parar de tomar remédio, que não resolvia mais. Eu era favorável que ele parasse de tomar, que ele vivesse a vida da forma mais prazerosa que ele quisesse viver, e ele também desejava assim", contou Lula, com a voz embargada.

Eleição. O ex-presidente recordou todas as eleições presidenciais que perdeu e que só conseguiu chegar ao Palácio do Planalto quando encontrou José Alencar para ser seu vice.

"Sou muito agradecido a ele, porque perdi muitas eleições no Brasil. Eu tinha 30%, 34%, 32%, 33% e eu precisava encontrar o restante, e o restante eu encontrei no José Alencar." A decisão de tê-lo como vice foi tomada quando Lula ouviu Alencar discursar, em Minas, comemorando os 50 anos de vida empresarial. "Eu saí de lá e falei: Encontrei o meu vice."

Repercussão. O anúncio da morte de Alencar chegou ao Palácio do Planalto no momento em que o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, falava sobre futuras inspeções trabalhistas nas obras do PAC. "O Zé Alencar deu tanto baile em nós e nos médicos que a gente achava que ele poderia aguentar mais. Vocês não podem ter noção do que o Zé representou para o presidente Lula e para nós, nesses oito anos (de governo). A nossa gratidão é eterna", afirmou o ministro.

Em nota, o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, que trabalhou ao lado de Alencar no primeiro mandato de Lula, quando comandava o Ministério da Fazenda, disse que a trajetória de vida do ex-vice-presidente "eleva a autoestima do povo brasileiro". "José Alencar incentivou o empreendedorismo e o trabalho como fonte de realização das pessoas. Para mim, conviver com Alencar foi contínuo e vigoroso aprendizado", disse Palocci.

"Desde a articulação de sua candidatura para compor a chapa do PT, ele contribuiu para que o País conquistasse espaço político e econômico no cenário internacional. Sua bravura e persistência na política estão refletidas na sua luta pela vida", afirmou o ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia).

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, lembrou os tempos que trabalhou ao lado de Alencar no governo Lula: "Nos oito anos de trabalho juntos na equipe de governo, aprendi a admirá-lo e a estimá-lo pela justeza de caráter e firmeza no trato da coisa pública". / COLABOROU LEONENCIO NOSSA

Repercussão

ANTONIO ANASTASIA

GOVERNADOR DE MINAS GERAIS

"É um exemplo de luta e de coragem para todos os brasileiros, especialmente para nós mineiros. Estamos muito orgulhosos de sua vida"

AÉCIO NEVES

SENADOR, EX-GOVERNADOR DE MG

"Ele nunca baixou a guarda, ele sempre acreditava num sopro de vida, acreditava na sua recuperação, e essa crença fez com que ele adiasse tantas vezes o seu encontro com o criador"

ITAMAR FRANCO

SENADOR (PPS-MG), EX-PRESIDENTE

"Alencar foi um homem voltado ao interesse nacional, grande mineiro e brasileiro. Era um guerreiro que mostrou a sua garra não só contra a doença, mas em toda vida pública''

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA

"Seu trato ameno e sua coragem para enfrentar a doença tornaram-no familiar e querido, mesmo para quem não privou de seu convívio"

GERALDO ALCKMIN

GOVERNADOR DE SÃO PAULO

"Ele era um homem público exemplar e um empreendedor apaixonado pelo Brasil. Uma figura humana cativante, um homem de fé, de superação, que tinha um enorme amor à vida"

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