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Lyra, rico e com má fama

Pai de Thereza Collor, deputado por Alagoas fez fortuna como usineiro, mas é acusado de trabalho escravo e de envolvimento em duas mortes

Ricardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2010 | 00h00

O empresário João Lyra, de 79 anos, é considerado o parlamentar mais rico do Brasil. Nascido no Recife, a 17 de junho de 1931, João José Pereira de Lyra se diz alagoano de coração. Fez fortuna como usineiro do setor sucroalcooleiro e ganhou destaque na política ao disputar o governo do Estado em 2006. Derrotado, Lyra pôs a culpa pelo fracasso nas urnas em suposta fraude eleitoral que teria beneficiado seu adversário direto, o governador Teotônio Vilela Filho (PSDB).

Até então, Lyra só era conhecido como o pai de Thereza Collor, a "musa do impeachment". Antes de ficar viúva do empresário Pedro Collor, Thereza percorreu o País com o marido para ajudar a denunciar o esquema montado por Paulo César Farias para enriquecer seu cunhado, o então presidente e hoje senador Fernando Collor.

O tempo passou, Pedro morreu, o irmão teve de renunciar à Presidência e Thereza casou-se de novo, desta vez com o empresário paulista Gustavo Halbreich.

Hoje Fernando Collor e João Lyra são correligionários, filiados ao PTB. Candidato a deputado federal nas eleições deste ano, Lyra ficou em 4.º lugar, com 111.104 votos (7,85%). Com a vitória, retorna ao Congresso, onde já foi deputado e senador por Alagoas. No Senado, era suplente de Guilherme Palmeira e assumiu a vaga de 1989 a 1991, quando o ex-senador foi eleito governador de Alagoas.

"Mãos sujas". Candidato ao governo do Estado em 2006, Lyra perdeu para o tucano Teotônio Vilela Filho. Durante a campanha, ele foi acusado por Vilela de ter "as mãos sujas de sangue". Naquele ano, Lyra fora denunciado pela Procuradoria-Geral da República como um dos mandantes do assassinato do coordenador de arrecadação tributária de Alagoas, Sílvio Vianna. O crime ganhou repercussão nacional porque Vianna era o "xerife do Fisco" em Alagoas.

Ele teria sido assassinado porque tinha decidido cobrar dos usineiros o pagamento do ICMS, que havia sido perdoado por dez anos pelo então governador Fernando Collor. O esquema entre Collor e os empresários do setor canavieiro ficou conhecido como o "acordo dos usineiros". Assinado entre 1987 e 1988, o acordo dos usineiros provocou prejuízo incalculável para a economia de Alagoas, cuja arrecadação dependia em mais de 60% do setor sucroalcooleiro.

Viana foi morto com um tiro no crânio e seis no tórax, quatro dias após entregar notificação de débitos em uma usina de Lyra. Acusado de ter sido um dos autores do assassinato, um ex-soldado atribuiu o mando do crime a João Lyra e disse que recebeu R$ 48 mil para ficar calado. A morte de Vianna não seria o primeiro crime atribuído ao empresário. Segundo as acusações do mesmo ex-policial, Lyra também teria mandado assassinar um sargento da PM alagoana, suposto amante de sua ex-mulher, no início da década de 90. Ouvido sobre a morte de Vianna, Lyra negou qualquer envolvimento com o caso. Apesar das provas que havia contra ele, não foi condenado como mandante do crime. No entanto, terminou sendo punido nas urnas de 2006. Perdeu a eleição para Vilela e ainda ganhou fama de violento.

Trabalho escravo. Apesar da trajetória bem-sucedida como empresário, João Lyra não escapou de ter o nome envolvido em escândalos. Além de ter sido acusado de ser o mandante do assassinato de Sílvio Vianna, ele já foi acusado pelo menos duas vezes de explorador de trabalho escravo.

Em agosto deste ano, foi denunciado pelo Ministério Público do Trabalho, acusado de manter 207 trabalhadores rurais em situação análoga à escravidão, em uma usina localizada no município de Capinópolis (MG).

Em 2008, ele já havia sido denunciado pela exploração de trabalho escravo, durante uma fiscalização do Ministério Público do Trabalho em sua usina Laginha, localizada em União dos Palmares, na zona da mata de Alagoas. Quando perdeu as eleições de 2006, Lyra estava endividado e chegou a decretar concordata em algumas de suas empresas.

Ajudado pelo governo federal, a pedido de Collor, ele se recuperou, pagou os débitos e se lançou candidato a deputado este ano. Está eleito.

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