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Madrasta disse preferir 'apodrecer na cadeia' a conviver com Bernardo

Elder Ogliari - O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2014 | 17h 37

Áudio de briga entre os dois foi encaminhado pela polícia à Justiça; pai se limita a pequenas intervenções e repreende o filho

Atualizada às 21h23

PORTO ALEGRE - A enfermeira Graciele Ugulini, madrasta do menino Bernardo Boldrini, de 11 anos, chegou a dizer que o garoto não sabia do que seria capaz, durante briga há um ano. O áudio, encaminhado pela polícia à Justiça na semana passada, foi obtido pela RBS e divulgado nesta quarta-feira por veículos do grupo (Gaúcha, RBS TV e jornal Zero Hora).

Graciele e o pai de Bernardo, o médico Leandro Boldrini, além da assistente social Edelvânia Wirganovicz e do motorista Evandro Wirganovicz, são réus do processo, apontados pela polícia e pelo Ministério Público como participantes do assassinato do garoto. Todos estão presos. No dia 4 de abril, Bernardo acompanhou Graciele em viagem de Três Passos a Frederico Westphalen e não voltou para casa. A polícia e o Ministério Público acusaram Boldrini de ser o mentor e Graciele de ser a executora do homicídio, com ajuda de Edelvânia. 

A discussão, apagada do celular do médico, foi recuperada pelos peritos. O advogado de Boldrini, Jader Marques, admitiu, ao sair de audiência para tomada de depoimentos de testemunhas, anteontem, que as cenas mostram a péssima relação familiar, mas não estabelecem nenhuma relação com o crime. 

A defesa de Graciele não comentou o assunto. O advogado Marlon Taborda, representante da avó materna, disse que o áudio mostra que Bernardo “vivia um tormento dentro de casa”. O vídeo tem cenas gravadas dentro da casa da família, em Três Passos, no noroeste do Rio Grande do Sul. A polícia supõe que, ao captar a cena, no aparelho do marido, a madrasta quisesse registrar a agressividade do garoto. 

Socorro. Inicialmente, Bernardo grita por socorro. Na sequência, diante da pergunta do pai sobre “quem começou a bagunça”, responde “vocês me agrediram, tu me agrediu”, dirigindo-se a Graciele. “E vou agredir mais; a próxima vez que tu abrir a boca para falar de mim, eu vou agredir mais”, ameaça a enfermeira. O pai intervém de novo para repreender o filho: “Xingando ela. Ninguém merece ser xingado, não é, rapaz?”

A briga prossegue com bate-boca entre o garoto, que continua reclamando de agressões, e a madrasta, que aumenta o tom das ameaças. “Eu não tenho nada a perder, Bernardo. Tu não sabe do que eu sou capaz. Eu prefiro apodrecer na cadeia do que ficar vivendo nesta casa contigo incomodando. Tu não sabe do que eu sou capaz.”

“Eu queria que tu morresse”, rebate o garoto. “Nós vamos ver quem tem mais força, vamos ver quem vai para baixo da terra primeiro”, diz a madrasta. Outras cenas mostram movimentação na casa com a chegada da polícia e Bernardo grogue, aparentemente sob efeito de um medicamento. A delegada Caroline Bamberg sustenta que o vídeo demonstra o comportamento omisso do médico e os maus-tratos impostos à criança pelo casal.