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Mais Médicos ainda enfrenta falta de estrutura e até violência após 1 ano

Fabiana Cambricoli, Tiago Décimo, Ângela Lacerda e Clarissa Thomé - O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2014 | 20h 02

Programa federal levou profissionais a 3.785 municípios, mas há relatos de infraestrutura precária, falta de remédio, déficit de profissionais e recusas de encaminhamento para especialistas

Ao completar um ano nesta terça-feira, o Mais Médicos está presente em 3.785 municípios, enquanto os 14 mil profissionais do programa - dos quais mais de 11 mil cubanos - enfrentam desafios para trabalhar. Os médicos deparam-se com infraestrutura precária dos postos, falta de medicamento, déficit de colegas, recusa de encaminhamento para especialistas e violência urbana. Apesar das insuficiências, pacientes comemoram a chegada dos doutores. 

Marcos de Paula/Estadão
Bettancourt faz atendimento no Jacarezinho

Lançado em meio à resistência de entidades médicas, o programa oferece bolsas de R$ 10 mil para brasileiros e estrangeiros e US$ 1.245 para cubanos trazidos por convênio com a Organização Pan-americana de Saúde (Opas). São os cubanos que, involuntariamente, se embrenham nos rincões e nas periferias e assistem a populações de onde antes não havia médico. 

Nas Unidades de Saúde da Família (USFs) de Beira Mangue e Nova Esperança, na periferia de Salvador (BA), há um ano, a população ficaria sem médico não fossem os médicos da ilha. As equipes estão completas, mas o posto de Nova Esperança é precário e os pacientes são atendidos em uma igreja. “O lugar não foi pensado para isso”, diz um o cubano, que prefere não se identificar. “A iluminação é insuficiente. Não é o ideal, mas a gente precisa continuar o atendimento, porque a população é muito carente de atenção.” 

“Parece piada que, quando a gente enfim tem médico que vai ficar, não tem lugar para ser atendido”, diz a dona de casa Géssica Santos, de 27 anos. “Os médicos são ótimos, mas não é lugar para cuidar de paciente.” Segundo a prefeitura de Salvador, 79 dos 112 postos foram reinaugurados e 18 estão em obras e serão entregues em 2015.

A USF de Beira Mangue chegou a ser interditada pela Vigilância Sanitária. Foi reinaugurada e agora tem de fechar por falta de segurança. “Não temos conseguido fazer as visitas às famílias porque as gangues muitas vezes proíbem nossa circulação”, conta um médico. “Há situações em que eles mandam fechar a unidade. Obedecemos.”

Em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife (PE), são 14 profissionais - 12 cubanos e dois brasileiros -, mas ainda faltam oito médicos. “A atenção básica à saúde funciona razoavelmente bem”, diz o agente comunitário de saúde Jonas Guimarães de Santana, de 29 anos. “O problema maior é a falta de especialistas, quando aqui no posto se identifica algo a ser tratado ou aprofundado.” Ele frisa que a demanda é maior que a estrutura disponível e o paciente muitas vezes desiste do tratamento por causa da demora. 

Além dos problemas, a população rende elogios. “Passei por uma consulta de 20 minutos, fiz exames e descobri que tenho pressão alta”, conta Ana Paula de Santana, de 33 anos. “Isso é que é qualidade de atendimento”, diz, referindo-se à cubana Nancy Maria Garcia Quevedo.

A médica trabalha o básico com os pacientes. “Às vezes chego mais cedo ao posto e falo coisas como não andar descalço nas ruas cheias de lixo, lavar as mãos depois de ir ao banheiro”, conta. “Prevenção é o foco.” 

Inusitado. Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ), havia postos de saúde que aguardaram até três anos pela chegada de um médico. As vagas do programa federal foram preenchidas por 30 cubanos e um português. Yudyt Rodriguez Esquivel, de 40 anos, é uma das cubanas. Com a experiência na Venezuela e na Bolívia, se deparou com uma situação que só viu aqui: pacientes atendidos por planos de saúde que procuram o serviço público em busca de encaminhamento para exames complexos e remédios do posto. “É estranho”, sorri. “Muitos pacientes não querem consulta. Já chegam com as receitas, os pedidos de ressonância. Examino e prescrevo aquilo que acho que devo.”

Na Clínica da Família da Favela do Jacarezinho, zona norte do Rio, a operadora de supermercado Maria das Dores do Nascimento, de 50 anos, diz que estranhou a língua enrolada de Rolando Bettancourt March, de 46 anos. “Mas ele fica bastante tempo com a gente. Quer ver se a gente entendeu mesmo.” Na semana retrasada, ela procurou o médico ao sofrer uma crise hipertensiva. “Ele me salvou.” O médico emenda: “A pressão dela chegou a 16x10”. Ela sorri, ao ver que o médico se lembrou. “Foi isso mesmo.”

Para March, Yudyt e os colegas, os tablets prometidos não chegaram. Eles precisam usar laptops próprios e ainda pagam a internet. Quando têm dúvidas, recorrem a colegas e ao tutor (professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro). 

Diante dos entraves, o Ministério da Saúde apresenta números. Segundo o governo, 50 milhões são atendidos pelo Mais Médicos - 5 milhões de consultas por mês. Isso implicou a diminuição de encaminhamentos para hospitais em 21%. 

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