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Portela e Salgueiro agitam Sapucaí no último dia de desfiles

Mangueira encerrou a segunda noite de desfiles do carnaval carioca, na madrugada desta terça-feira, com uma homenagem à cantora Maria Bethânia

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Roberta Pennafort, Clarissa Thomé, Fábio Grellet, Carla Miranda e Idiana Tomazelli,
O Estado de S. Paulo

09 Fevereiro 2016 | 01h19

Portela e Salgueiro saíram hoje da Sapucaí com chances de vitória. As duas escolas apresentaram desfiles empolgantes, coesos e de grande beleza plástica, com carros alegóricos bem acabados e integrantes empolgados. Ambas conquistaram o público, cada uma com suas particularidades. Já a Mangueira, que encerrou a segunda noite de desfiles do carnaval carioca, trouxe para a Sapucaí uma homenagem à cantora Maria Bethânia, que completou 50 anos de carreira em 2015. Embora tenha feito um desfile correto, a escola apresentou fantasias simples, longe do padrão luxuoso

Falando sobre viagens, a tradicional Portela, neste ano com o carnavalesco Paulo Barros, considerado o mais inovador da atualidade, ousou com alegorias que demandavam tecnologia para funcionar e também treinamento de seus componentes para o carnaval. Barros costuma deixar a Sapucaí boquiaberta com suas ideias originais e, dessa vez, com uma longa viagem da Antiguidade às jornadas interplanetárias, não foi diferente. 

Já na comissão de frente, Netuno, uma referência às grandes navegações dos séculos 15 e 16, era erguido pela força de poderosos tubos de água, ficando suspenso sobre uma “piscina” de 30 mil litros de água. O carro que representava as viagens de Gulliver, personagem do autor irlandês Jonathan Swift, impressionava pelo boneco de 18 metros de altura, com as feições do ator norte-americano Jack Black, que o representou no cinema. A escultura foi escalada por alpinistas, simbolizando os liliputianos da história de Swift, que amarraram Gulliver por acreditarem que se tratava de um gigante.

Barros também inovou no carro do navio pirata, que balançava para esquerda e a direita, com os integrantes mudando de lado a reboque do “balanço do mar”. O público também ficou surpreso com o disco voador do carro alusivo à série “Perdidos no espaço”, um drone que sobrevoava a Sapucaí. Da mesma forma que tiveram arrepios com a alegoria do Eldorado - em que, numa simulação de disputa, um desbravador era lançado pelo outro para a parte mais baixa do carro (era um dublê, que terminou o desfile exausto de tanto pular) -, os espectadores se divertiram com a representação de “Jurassic Park”, na qual dinossauros devoraram visitantes. A viagem muito provavelmente terá como destino o Sábado das Campeãs.

Desde 1984 sem ganhar um título, a Portela desfilou neste ano “para romper qualquer jejum”, como declarou Barros após a apresentação, ainda extasiado e sob gritos de “é campeã” dos setores populares, que ficam na Apoteose. Ele disse que a agremiação, uma das mais queridas do Rio, procurou se livrar do “ranço” da tradição e fez a sua passagem para a modernidade, credenciando-se ao título.

“O principal é que a Portela entendeu que precisava se modernizar, entendeu que tinha de fazer um desfile para competir, para ser campeã”, considera. “Na verdade, esse ranço que colocaram em cima da Portela é muito pesado. Isso vem de fora e não é real. É lógico que ela nunca vai deixar de ser tradicional, mas a Portela está cansada desse peso. Ela quer ser campeã do carnaval e entendeu que para isso tem de disputar com as armas da modernidade.”

Com uma ode ao malandro, o Salgueiro também foi saudada como “campeã”. O arrebatamento se deu muito por causa do samba, o melhor do ano, de refrão contagiante e sabor africano, e a temática simpática. A escola, mordida por dois segundos lugares seguidos, em 2014 e em 2015, retratou o malandro das ruas, dos becos, do boteco, do carteado, das corridas de cavalo, do teatro de revista e das religiões de matriz africana, “o rei das favelas”, apresentado em carros alegóricos e fantasias ricamente executados.

Na figura do Zé Pilintra, entidade de religiões africanas exaltada no enredo, o malandro sambou “num palco sob as estrelas”, acompanhado de componentes caracterizados como Maria Padilha e pomba-gira. Potentes, as performances foram muito aplaudidas. A escola ganhou o público, que a saudou como campeã na dispersão. No domingo, somente a Beija-Flor, que fez um desfile sobre o Marquês de Sapucaí, mereceu essa deferência.

O malandro salgueirense circulou pela Praça Tiradentes, no centro do Rio, conviveu com prostitutas, transformistas e mendigos. O enredo ganhou o nome de A Ópera dos Malandros, uma referência ao musical de Chico Buarque, que aprovou a ideia, mas não desfilou. Max Overseas, o malandro de sua obra, esteve na Sapucaí. Assim como a famosa Geni – a bateria de mestre Marcão usava máscaras do personagem e foi acompanhada na avenida por um zepelim prateado, que sobrevoava os ritmistas. A estrutura inflável era amarrada em cordas e levada por componentes no chão.

A Imperatriz levou para a avenida a história de Zezé di Camargo e Luciano e acabou fazendo uma homenagem a outros sertanejos. “Estamos todos representados aqui. Samba e sertanejo têm tudo a ver: é música. Está na alma”, resumiu Chitãozinho. O cantor Elymar Santos foi outro que saiu em defesa do enredo. “Criticaram muito no início, mas o P de MPB quer dizer popular. É música para o povo.” 

O carnavalesco Cahê Rodrigues lembrou a história dos irmãos cantores que começaram pobres, na região rural de Goiás, e conquistaram o Brasil. Também tratou de expressões da cultura goiana, como o Auto do Divino Espírito Santo, os festejos, e a festa sertaneja. Dira Paes e Angelo Antonio, que interpretaram no cinema Helena e Francisco, pais dos homenageados, vieram num carro que reproduz a casa da família. Seu Francisco, de 79 anos, desfilou sentado numa poltrona vermelha, no carro É o Amor, o mesmo em que estavam seus filhos. “Eu nunca vi carnaval. Nem pela televisão. É uma emoção atrás da outra”, afirmou.

A escola fez apresentação correta, com o samba bastante cantado pelo público. Mas não empolgou. Os setores populares só se levantaram com a passagem de Zezé di Camargo e Luciano e, um pouco antes, quando a cantora Wanessa, os irmãos e a mãe, Zilu, ex-mulher de Zezé, acenaram para as arquibancadas. Nem mesmo Chitãozinho e Xororó no carro abre-alas animaram o público.

Os desfiles de Vila Isabel e São Clemente trouxeram de volta à avenida os temas políticos, já abordados ontem pela Mocidade e seu enredo, em que Dom Quixote lutava contra a corrupção e os desvios na Petrobrás. A Vila abriu a Sapucaí contando a vida de Miguel Arraes, político cearense três vezes governador de Pernambuco. A agremiação retomou uma tradição de enredos políticos, com forte cunho social. Logo no começo da apresentação, a comissão de frente de Jaime Arôxa trouxe um cortejo fúnebre nordestino, com corpos carregados em redes, e a morte pairando sobre a avenida – um belo efeito da patinadora Telma Delelis, que não parecia patinar, mas deslizar. “Não é a morte física. É a morte pela falta da cultura, da educação. E combina com o carnaval, porque a vida retoma com a chegada da cultura”, explicou Arôxa.

Para homenagear o centenário de Arraes, as mazelas sociais que ele enfrentou foram lembradas na avenida: a seca, as moradias sobre palafitas, as dificuldades dos cortadores de cana, o analfabetismo. Esses temas vieram ao lado de ícones culturais de Pernambuco, como o frevo e o bloco carnavalesco Galo da Madrugada, que mereceu um enorme carro ao fim do desfile. “É obrigação da escola de samba trazer uma mensagem, apresentar uma proposta, fazer a crítica social”, afirmou Martinho da Vila, autor do enredo e um dos compositores do samba, ao lado da filha Mart’nália, de Arlindo Cruz , André Diniz e Leonel. Martinho encarnava um cangaceiro. O sambista se emocionou do começo ao fim da passagem da escola, da qual é presidente de honra e símbolo maior.

Os filhos do ex-governador, a ministra do Tribunal de Contas da União Ana Arraes e o cineasta Guel Arraes, e o neto Antonio Campos, filho de Ana, desfilaram à frente da Vila. “Esse é o enredo sobre um político que teve compromisso com o povo, que não desistiu nunca, jamais. É preciso lutar por um Brasil democrático. Toda a família está muito satisfeita”, afirmou Ana.

Se o começo do desfile apresentou tons pálidos, aludindo à seca, à caatinga e ao mangue, a escola foi ganhando cores ao longo da apresentação, quando entraram os programas de educação criados por Arraes e as expressões culturais nordestinas, como o cordel, o xaxado e os repentistas. O carro que representou o Galo da Madrugada, todo colorido, soltava bombas de serpentina e ganhou muitos aplausos do público. Arraes só foi representado ao fim, num boneco de Olinda, ladeado por integrantes vestidos como foliões do Galo da Madrugada.

A bateria veio como Leão do Norte, figura presente na bandeira pernambucana, um tributo à força do povo. Sabrina Sato era a guerreira que defendia esses leões. “Eu represento a coragem e a ousadia da mulher pernambucana. Essa mulher forte. É um enredo lindo, que faz essa união do frevo com o samba. A Vila é uma escola tradicional que sabe fazer essas misturas muito bem”, contou a apresentadora, que desfilou com grandes curativos nos ombros. Ela ficou machucada no desfile da Gaviões da Fiel, em São Paulo.

Terceira a desfilar hoje, a São Clemente decidiu replicar os panelaços que tomaram o País no ano passado contra o PT e a presidente Dilma Rousseff. A última ala da escola da zona sul do Rio, que apresenta o enredo "Mais de mil palhaços no salão", terá palhaços batendo tampas de panela e chefes de cozinha com frigideira e colher de pau na mão. "Não é um protesto contra a Dilma, nada disso. A São Clemente é uma escola irreverente e o enredo pedia”, afirmou o diretor de ala, Kleyton Macedo. “Espero que o público veja de modo positivo e entenda a brincadeira.” 

Nem todos os integrantes da ala, no entanto, bateram panela na vida real. “Não participei dos protestos. Acho que a nossa atitude vale mais. O nosso voto, fiscalizar o comportamento do candidato que você elegeu”, afirmou a analista de marketing Carla Correia, de 44 anos.

Já o casal Gabriela e Gabriel Teixeira, de 36 e 33, respectivamente, votou em Aécio Neves e participou das manifestações em Copacabana. "Batemos panela quando Dilma apareceu na televisão e nas manifestações. Queremos mudança na política do nosso país", disse Gabriela. Integrantes da bateria do bloco Spanta Neném, eles vão sincronizar com a bateria no fim do desfile, depois do segundo recuo.

O militar Carlos Alexandre Santos, de 47, que desfila na escola, criticou a reprodução das manifestações. “Quem bate panela não é quem faz a comida. Espero que a carnavalesca tenha incluído esse panelaço para dizer que isso é uma palhaçada”, afirmou. Ele apontou para onde a ala estava se arrumando. “Curiosamente, eles estão à direita.”

Mangueira. A Mangueira encerrou a segunda noite de desfiles do carnaval carioca, na madrugada desta terça-feira (9), com uma homenagem à cantora Maria Bethânia, que completou 50 anos de carreira em 2015. Embora tenha feito um desfile correto, a escola apresentou fantasias simples, longe do padrão luxuoso de escolas como Beija-Flor e Salgueiro. Alguns componentes perderam partes das fantasias durante o desfile. Os carros alegóricos, embora sem problemas de acabamento, também eram mais simples do que das escolas que devem disputar o título. O abre-alas chegou a encostar na grade direita da pista, mas não ficou danificado.

Apesar dos problemas, a escola apresentou um desfile emocionante, que começou exibindo a religiosidade de Bethânia, “filha” da orixá Oyá, também conhecida como a deusa africana Iansã e representada, no catolicismo, por Santa Bárbara. A ala das baianas vestiu-se em homenagem à santa. Depois o enredo mostrou o início da carreira da cantora baiana, as músicas com que foi lançada ao estrelato (como “Explode Coração”, “Esotérico” e “Fera Ferida”) e em seguida sua participação em shows e eventos contra a ditadura militar (1964-1985).

Bethânia desfilou no último carro alegórico, que representava o circo, uma paixão sua da infância. O irmão da cantora, Caetano Veloso, e um grupo grande de artistas, como Ana Carolina, Martinho da Vila e Mart’nália também desfilaram, assim como o ministro da Cultura, Juca Ferreira, convidado pela direção da escola verde-e-rosa.

Ao final, muito emocionada, Bethânia limitou-se a dizer que estava muito honrada por ter sido homenageada pela Mangueira e que ficou muito feliz por desfilar num carro que representava o circo.

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