Manifestação no Rio lembra dez mortos em ação do Bope no Complexo da Maré

Cerca de 800 pessoas ocuparam uma psita da Avenida Brasil para lembrar de vítimas baleadas em operação policial na comunidade Nova Holanda

Heloisa Aruth Sturm , O Estado de S. Paulo

02 Julho 2013 | 17h26

RIO - Cerca de 800 pessoas ocuparam no final da tarde desta terça-feira, 2, a pista lateral da Avenida Brasil sentido zona norte, em manifestação para lembrar os dez mortos da comunidade Nova Holanda, no Complexo da Maré, durante ação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) realizada na noite do dia 24 de junho. Muitos vestem camisetas pretas com a frase "Estado que mata, nunca mais!". Uma grande faixa com a mesma frase foi estendida no carro de som estacionado na esquina de uma das ruas de acesso à favela. Policiais militares acompanham, de longe, a manifestação.

Além da investigação das mortes e punição dos responsáveis, manifestantes exigem um pedido de desculpas do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) pela chacina. No dia 24, um grupo não identificado realizava roubos na Avenida Brasil e, segundo a PM, teria corrido para a Maré pela Rua Teixeira Ribeiro, um dos acessos mais movimentados. O Bope iniciou então uma incursão, oficialmente em resposta aos roubos, e um sargento foi baleado e morto.

A partir daí, moradores relataram ter testemunhado cenas de terror dentro da comunidade. Nove moradores foram assassinados. Eliana Sousa, da Redes da Maré, ONG que atua há 17 anos na comunidade, classificou os assassinatos praticados por policiais em favelas de uma maneira geral como "genocídio", e disse que um dos objetivos do ato é "forçar o governador a fazer um pedido de desculpas". "Não dá para ter respeito só onde tem UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). A cidade toda precisa ser respeitada."

Referindo-se às UPPs, o sociólogo Luiz Eduardo Soares disse que "é como se hoje tivéssemos um biombo para turistas, uma vitrine civilizada que esconde a realidade dramática que continua ocorrendo em outras áreas da cidade". Jaílson de Souza e Silva, da ONG Observatório de Favelas, um dos organizadores do ato, disse que a PM é "um instrumento" e que o governador e o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, "devem assumir responsabilidades pelo que ocorreu".

Atores com o rosto coberto encenam as mortes, deitados na pista da Avenida Brasil. Parentes e amigos levam cartazes com os nomes dos moradores mortos na chacina. Está prevista a realização de um ato ecumênico no local até às 19h.

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