Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

‘Maratona’ da folia exige estratégia e muito fôlego

Para ir ao maior número de blocos, vale até contratar motoboy e se trocar no Uber

Paula Felix e Fábio Grellet, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2018 | 03h00

Para curtir mais de um bloco de carnaval por dia, foliões criam agendas para acompanhar os desfiles, trocam de fantasia no trajeto entre um e outro e até contratam serviço de transporte para circular entre os cortejos. O fortalecimento do carnaval de rua de São Paulo e a tradição do Rio fazem com que os fãs não só acompanhem um bloco de sua preferência, mas se tornem integrantes de vários e encarem uma maratona para não perder nenhum desfile.

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Já no pré-carnaval, o educador José Cury, de 57 anos, acertou com um motoboy e passou por cinco blocos sem ficar preso no trânsito. “Contratei como mototáxi. Ia para o bloco e ele ficava esperando. Se fosse fazer as corridas ou pagar estacionamento, gastaria o mesmo.”

Cury, que toca em dez blocos e é diretor social do Me Lembra que Eu Vou, também deu um jeito de levar as camisetas dos cinco blocos pelos quais passou. “Coloquei as camisetas na cintura para ir trocando e conseguir prestigiar cada bloco.”

O educador conta que sempre teve o hábito de viajar para outras cidades no período, mas, desde 2012, passa o carnaval na capital. “Tenho mais de dez anos de Bahia, fundei um bloco em Olinda, mas parei de viajar em 2012, quando entendi que o carnaval de rua estava voltando.” Para a maratona, diz adotar a moderação – hidratação, roupas leves e sem exagerar na bebida. 

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A arquiteta Isis Beretta, de 30 anos, também começou a curtir o carnaval de São Paulo após o boom dos blocos. “Em 2014, resolvi começar a tocar na oficina de percussão do Bangalafumenga, que tinha amado no carnaval anterior, e desfilei pela primeira vez no ano seguinte. Tocar é muito gostoso, relaxa a mente, é minha terapia.” 

Gostou tanto que hoje ainda toca surdo de terceira e tamborim no Banga e em mais outros quatro blocos – Me Lembra que Eu Vou, Confraria do Pasmado, Casa Comigo e Te amo Só como Amigo. Para cumprir tantas agendas, precisa ser criativa.

Para tocar em dois blocos no mesmo horário, ela chegou a participar um pouco de cada um. E para mudar de fantasia? “Ah, me troquei na rua e dentro do Uber, mas sempre vou com roupa por baixo, tipo short e top, para ser mais fácil trocar, sem ter de ir a lugar fechado.”

A folia múltipla, para Daniel Soares, de 28 anos, inclui também escolas de samba. “Meu recorde foram seis escolas em um ano. Em 2016, fiz quatro de São Paulo e duas no Rio.” Danielzinho, como é conhecido, toca tamborim e precisa se organizar. “Vou para o Rio e ensaio nos fins de semana. Aqui, ensaio durante a semana.” 

Aí tem uma rotina especial para a correria carnavalesca. “Minha alimentação é bem regulada no ano inteiro. Nesta época, é praticamente impossível manter alimentação regrada e acabo comendo besteira, muito lanche e coisa rápida, mas procuro descansar o máximo, tomo três litros de água por dia”, diz. 

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Fantasias em série. “Para a maioria das pessoas, o primeiro dia de carnaval foi este sábado, mas o meu começou em outubro, quando iniciei o planejamento das fantasias. Todo esse ritual faz parte da folia”, diz Mariana Andrade, de 33 anos, que curte a folia no Rio. A identificação com o carnaval vem de berço. “Minha família adora, e quando era criança meus pais me levavam para bloco em São Gonçalo (região metropolitana do Rio) e a desfiles na Sapucaí.” 

Ela não compra fantasias prontas. “Fazer minhas próprias é parte da diversão”, diz. “Tenho ideias ao longo do ano e em outubro começo o planejamento para preparar cada uma”, conta ela. 

Para este carnaval, Mariana preparou quatro fantasias. “Tem ano em que faço cinco, para ter uma ‘reserva’ ou que eu use em desfiles do pré-carnaval”, explica. Neste ano, a principal é de peixe e inclui até escamas.

O planejamento da foliã inclui dormir cedo na sexta (“às 22h já estava na cama”) e madrugar para aproveitar cada minuto da folia. “Tanto no sábado como no domingo os melhores blocos desfilam bem cedo, então acordo às 4h45 para me preparar. Gosto de chegar às 6h30, para ficar bem perto da banda”, conta. “No sábado o bloco vai até meio-dia, uma da tarde, e eu não emendo para outros, prefiro guardar as energias para o domingo”, diz Mariana.

No dia seguinte, ela prestigiou o Boi Tolo, outro bloco famoso que desfila pelas ruas do Centro do Rio. É quando ela se esbalda. “No domingo chego de novo às 6h30 e costumo aproveitar até nove, dez da noite”, conta.

O segredo para resistir a tantas horas de folia? “Beber água, comer e usar protetor solar”, conta. “Ah, também tenho sempre à mão um revólver d’água, que uso pra molhar o rosto e espantar o calor”.

Nos dois últimos dias, Mariana pretende ir a blocos à tarde. “Essa é uma tendência, os dois últimos dias têm blocos muito legais depois do meio-dia, então não preciso madrugar”, planeja.

Cuidados. Leonardo Bellini, educador físico e treinador da LPO Assessoria Esportiva, concorda com as estratégias de Mariana e Daniel. Ele diz que os foliões que pretendem sair de um bloquinho para outro devem tomar bastante líquido, usar roupas leves e se alimentar.

“Se for beber, é importante não se esquecer de tomar água entre as bebidas. O calçado tem de ser adequado e a pessoa deve fazer a ingestão de alimentos leves e de fácil digestão. Se a pessoa faz essa estratégia, prolonga o carnaval”, afirma.

Bellini recomenda ainda fazer pausas durante o desfile e descansar ao voltar para casa. “É como se fosse fazer um esporte de alta intensidade. Após um dia desses, quem for emendar vários dias pulando nos blocos deve descansar e ter boas noites de sono.”

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