Médico será orientado a falar de riscos ao paciente que dirige

Abramet também defende alertas para motoristas no rótulo dos remédios, como nos EUA

Fernanda Aranda e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

30 Agosto 2008 | 00h00

Para chamar a atenção sobre os perigos de misturar remédios e direção, a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) defende que profissionais de todas as especialidades alertem os pacientes sobre o problema no momento da prescrição de medicamentos. "A maioria dos médicos não dá conta de que, logo após tomar o remédio prescrito, o paciente pode ir direto para o volante. Esse alerta geralmente não é feito", diz o presidente da entidade, Flávio Adura. Segundo ele, a Abramet está em fase final de avaliação de uma nova diretriz de orientação para todas as especialidades médicas, que prevê que o profissional alerte sobre os efeitos colaterais no momento da prescrição do medicamento. A inclusão das cláusulas deve ser solicitada ao Conselho Federal de Medicina (CFM) em 60 dias. "Assim, desde a faculdade, os futuros médicos saberão dos cuidados que precisam ter com os pacientes", disse. Outra medida defendida pela Abramet é a impressão, na caixa dos medicamentos, de um aviso sobre os efeitos colaterais para motoristas, como já ocorre em alguns Estados americanos. REPERCUSSÃO O aumento nas restrições para os motoristas, como defendido pelo Ministério das Cidades e encaminhado ao Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), atende a uma reivindicação da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet). Segundo o chefe do Departamento de Medicina Preventiva da entidade, Dirceu Rodrigues Alves, os psiquiatras deveriam ser obrigados a notificar os pacientes que fazem tratamento com drogas de traja preta, para que suas carteiras nacionais de habilitação (CNHs) sejam suspensas durante o tratamento. Para justificar essa medida, Alves cita uma pesquisa realizada por ele com 622 executivos paulistanos. Foi evidenciado que 73% eram usuários de ansiolíticos e 32% tomavam antidepressivos. "O efeito dessas medicações no organismo é muito semelhante ao provocado pelo álcool", afirma. Ainda não há estudos conclusivos que relacionem acidentes fatais ao uso de medicações no Brasil. Mas, conforme publicações internacionais, a estimativa é de que 6% das colisões sejam provocadas por motoristas que fazem uso dessas substâncias. O toxicologista Anthony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo, é favorável à proposta do ministro. "Hoje, há tantos medicamentos que alteram o comportamento e podem passar despercebidos até pelos médicos que uma medida governamental não seria má idéia", disse. Para o psiquiatra João Carlos Dias, da diretoria da Associação Brasileira de Psiquiatria, a proposta do ministro Márcio Fortes é "oportuna" e "vem em um bom momento", de discussão sobre efeitos de substâncias que alteram o comportamento de motoristas. "A proibição de dirigir sob o efeito de drogas já está prevista no Código de Trânsito, mas uma recomendação específica para medicamentos pode trazer bons resultados. Nas bulas dos remédios, já há instruções para não se medicar e na seqüência dirigir máquinas", ressaltou. MEDICAMENTOS E SEUS EFEITOS Os efeitos dos remédios dependem do tempo de tratamento, de associação com álcool, outros medicamentos ou drogas, e de fatores como peso, altura e etnia. De acordo com os especialistas, o recomendável é um período de pelo menos 6 horas entre a ingestão de um remédio e o ato de dirigir um carro. Confira os efeitos de cada medicação: Analgésicos (usados comumente contra dores): sonolência Ansiolíticos e tranqüilizantes (usados para controlar a ansiedade, por exemplo) : sonolência, redução dos reflexos e demora no tempo de reação Antidepressivos (para depressão e transtornos de ansiedade, por exemplo): perda de cognição e dificuldade de visão Antiepilépticos (usados em epilepsia e transtorno de déficit de atenção): sonolência e confusão mental Hipnóticos (usados para combater insônia e induzir anestesia): sonolência Relaxantes musculares (para cólicas, por exemplo): sonolência e reações lentas Estimulantes (também presentes em medicamentos para emagrecer): irritabilidade e sono após o efeito Broncodilatadores (para desobstruir as vias aéreas): taquicardia, tremores e convulsão Antieméticos (para enjôos): sonolência Hipoglicemiantes e insulina (usados no tratamento de diabetes): tremores e convulsão Neurolépticos (para o tratamento de psicoses): redução dos reflexos, demora no tempo de reação, sedação e sonolência Fonte: Abramet

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