Menino pobre de Muriaé vira político e milionário

Alencar começou a trabalhar aos 7 anos, na loja do pai; tino para os negócios levou-o ao sucesso

, O Estado de S.Paulo

30 Março 2011 | 00h00

José Alencar Gomes da Silva nasceu em Itamuri, distrito de Muriaé, na Zona da Mata de Minas, em 17 de outubro de 1931. Era o 11.º dos 15 filhos de Antonio Gomes da Silva e Dolores Peres Gomes da Silva. Cinco de seus irmãos morreram ainda pequenos.

Aos 7 anos, Zezé, como era tratado em casa, foi ajudar o pai numa venda de Canteiro, um povoado da cidade. Vendiam mantimentos, roupas e ferramentas para os fazendeiros de café e deles recebiam só na época da colheita.

Aos 9 anos, o menino carregou no braço madeira e bambu para pôr de pé a escola do lugarejo, uma tulha - que é como chamavam o barracão onde ele conheceu os enigmas da aritmética que usaria nos negócios que o tornaram empresário bem-sucedido.

Na época, seu pai recebia um jornal do Rio, que chegava com algum atraso. Ele reunia o pessoal da vizinhança e lia as notícias da guerra - corriam os anos 40 - e as novidades do mercado. Um dia, convenceu os donos daquela terra toda sobre a importância do ensino. E eles aprovaram a iniciativa pioneira de uma escola para os filhos dos empregados. Zezé vencia na passada, todo dia, os quatro quilômetros de casa até a sala de aula.

Aos 14 anos, o rapaz já era um balconista esperto e revelou aptidão para o ofício em Miraí, na Zona da Mata, onde o pai montou um armazém de secos e molhados. Pouco depois da guerra, aos 15 anos, deixou a casa dos pais e foi ganhar a vida.

Era 1946. O gosto pelos negócios o enfiou por caminhos imprevistos e muitos foram os desafios que ele superou. Zezé virou empresário de renome e prestígio, fazendeiro e político de respeito. Primeiro foi senador e, depois, vice-presidente do Brasil. "O Zé sempre foi muito capaz, um tirocínio fabuloso para o comércio", depõe Antônio, o irmão mais novo. "Ele tinha um brilho próprio, coisa por demais impressionante."

Eleição. Quando deixou os pais, seu destino foi a cidade e logo arrumou emprego em uma loja de tecidos concorrida por aquelas bandas: A Sedutora. Logo ganhou sua primeira eleição, a de melhor vendedor da firma.

Foi morar num hotelzinho mambembe, no largo da estação de ferro. Ainda com renda esparsa - 600 cruzeiros era o salário -, não tinha como custear aposento melhor. À sua maneira, com simpatia e amabilidades que eram a sua marca, convenceu a dona da hospedaria e pôde alojar-se no corredor mesmo, lá no fundo - uma cama e uma cômoda, com janela para a rua.

Nesse hotel hospedava-se um comerciante de Caratinga que o convidou para trabalhar com ele. João Bonfim, o comerciante, ofereceu o dobro e o rapaz, com 16 anos, mudou para Caratinga, onde foi trabalhar na loja de roupas que levava o nome de seu dono, a Casa Bonfim. Em maio de 1948, como da outra vez, conquistou o título de melhor vendedor.

Quando fez 18 anos, seu irmão mais velho, Geraldo Gomes da Silva, emprestou-lhe 15 contos de réis. Com esse dinheiro, uma boa nota naqueles tempos, e umas economias, Zezé abriu seu negócio em 1950.

No dia 31 de março, Caratinga ganhou A Queimadeira, casa comercial que abriu as portas na Avenida Olegário Maciel, 520. O nome do estabelecimento foi sugestão de um viajante português, sr. Lopes. "Vai vender barato", justificou, na ocasião. "Ele não era pão duro, mas muito econômico e disciplinado", lembra Antônio, que trabalhou algum tempo com José Alencar. "Comia de marmita e morava atrás das prateleiras."

Foi esse o modelo econômico que Alencar escolheu para baixar os custos e tornar competitiva a lojinha. "Conhecia tudo do riscado, sabia onde estavam as melhores fontes do negócio, conhecia o mercado profundamente", lembra Antônio.

Na Queimadeira, a freguesia podia encontrar tecidos, tamancos, calçados, chapéus, guarda-chuvas para os cavalheiros e sombrinhas para as damas. Só não tinha empregado no estabelecimento, porque era Zezé, e apenas ele, para tocar a casa. Dona Murica, da pensão, mandava o almoço. "Mas o Zezé só comia se não tivesse freguês", conta o irmão. "Se chegava alguém, punha o prato de lado e atendia."

Em 1953 , mudou de ramo. Vendeu a loja e investiu em cereais por atacado. Foi por pouco tempo, porque logo fez sociedade com José Carlos de Oliveira, Wantuil Teixeira de Paula e seu irmão Antônio Gomes da Silva Filho. Surgia a Santa Cruz, fábrica de macarrão.

Foi por essa época que a mocinha recatada de olhos azuis e outras graças cativou o coração do empreendedor. Mariza era o nome dela, filha do sr. Luís Campos, representante comercial de bom conceito pela região. Ela havia acabado de retornar do Rio, onde se formou enfermeira.

Alencar e Mariza Campos Gomes da Silva casaram-se em 1957 e tiveram três filhos - Josué Christiano, Maria da Graça e Patrícia - que a eles deram três netos e duas netas.

Coteminas. Ao fim de 1959, morreu Geraldo, o irmão, e Alencar assumiu a União dos Cometas. Quatro anos depois, inaugurou a Cia. Industrial de Roupas União dos Cometas, mais tarde Wembley Roupas S.A. Presidia a Associação Comercial de Ubá (MG), em 1967, quando fez parceria com o empresário, poeta, advogado e deputado Luiz de Paula Ferreira, da Arena, e a ele associou-se em uma fábrica de confecções em Montes Claros, a Companhia de Tecidos Norte de Minas (Coteminas), hoje o maior conglomerado têxtil do Brasil.

"Criei um projeto de fábrica de tecidos e saí procurando sócio", recorda-se Luiz Ferreira, de 90 anos. "Meu capital não era suficiente. Gostei muito de conversar com o Alencar e o convidei."

Há 42 anos, a Coteminas tinha 400 funcionários. Hoje, são 16 mil em 11 unidades que fabricam e distribuem fios, tecidos, malhas, camisetas, meias, toalhas de banho e de rosto, roupões e lençóis para Brasil, Estados Unidos, Europa e Mercosul. A Coteminas fatura R$ 1 bilhão por ano.

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