Mesmo na rua, elas cumprem pena com companheiros

Mulheres descrevem relações como ?sagradas?, mas movidas por desejo de dinheiro, status e poder

Laura Diniz e Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

05 Outubro 2008 | 00h00

Priscila, de 21 anos, é viúva. Tem carinha de menina, mas uma experiência que poucas mulheres tiveram ou terão. Por vários anos, ela viveu as delícias de ser mulher de um homem da alta hierarquia do PCC, mas que morreu de aids. "Era bom demais. O dia da visita era sagrado", diz a moça, sobre o tempo em que, praticamente, cumpriu a pena com o marido. As peregrinações para a cadeia todo domingo, lembra, compensavam pelo dinheiro ("Ele me enchia de presentes"), pelo status ("A gente passava na rua e ouvia ?olha a mulher do fulano?. Você se sentia a malandrona, a poderosa") e, principalmente, "porque o preso é o cara mais romântico do mundo". A jovem é amiga da estudante Juliana, cujo marido a abandonou logo que foi presa. Juliana pondera que, apesar de muito carinhoso, o preso é carente e manipulador e consegue qualquer coisa das mulheres. "Se você dá um recado, já é associação (participa do crime)", afirma a estudante. Foi numa dessas, quando o marido lhe pediu gentilmente para guardar um pouco de droga em casa, que ela foi presa e passou um ano e meio longe da filha recém-nascida. No início, descreveu Juliana, "rola um deslumbramento com o dinheiro" porque o tráfico é muito rentável, com pouco esforço. Depois, a paixão se fortalece pela sensação de segurança que a relação com o preso proporciona. "Eu não tinha medo de assalto. Uma vez, um sujeito veio me assaltar e eu falei quem era meu marido. Ele pediu desculpas para mim e ligou na cadeia para se desculpar com ele." Segundo Priscila, a certeza de que o homem está impossibilitado de traí-la, por estar trancafiado na cela, também é um alento. "A gente podia fazer tudo e eles estavam ali, comportadinhos. Mas nunca teve traição porque nos amávamos muito", diz, sobre sua situação e a de Juliana. Especialistas explicam o mecanismo de sedução. "A mulher sempre acha que vai recuperar o homem", avalia a criminalista Sônia Drigo. A psicóloga Márcia Setúbal, coordenadora de Saúde da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), vê outros ingredientes. "O homem da classe social da maioria dessas mulheres é muito seco. O preso, por estar sem liberdade, acaba sendo carinhoso. Além disso, tem o fato de o bandido ser fascinante e o careta, não." Embora raro, há casos em que o amor bandido não vê nem classe social. A mestre em Psicologia R., de 33 anos, conheceu P. quando eram adolescentes. Na juventude, depois da primeira vez que P. foi preso, o casal "ficou" algumas vezes. Em 1999, novamente foragido, P. a procurou e a relação engatou. R. desafiou amigos, família e policiais para ficar ao lado de seu grande amor. Chegou a ficar dois dias dentro da Penitenciária 1 de Avaré, durante uma rebelião em 2001, e o casamento persiste até hoje dentro das muralhas do Estado.

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