Militares reclamam de trabalhar como domésticas para generais

MP investiga funções de taifeiros, pagos com dinheiro público para lavar banheiro, cozinhar, passear com cão...

Laura Diniz, O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2008 | 00h00

Roberto (nome fictício) gasta cerca de R$ 400 por mês para pagar a empregada doméstica que cuida de sua casa e de seus filhos, o que abocanha cerca de um terço de seu salário. Durante cerca de dez anos, ele desempenhou, na residência de generais do Exército, a mesma função que a empregada exerce em sua casa. Os generais, no entanto, não precisaram desembolsar um tostão de seus salários de cerca de R$ 8 mil para remunerá-lo porque as Forças Armadas permitem que oficiais usem militares de baixas patentes - os taifeiros - para fazer serviços domésticos. Os militares são pagos com dinheiro público. Ao tomar conhecimento do assunto, os promotores da Justiça Militar Soel Arpini e Jorge Cesar de Assis, de Santa Maria (RS), instauraram um inquérito civil para apurar a regularidade dessa prática. Por enquanto, a investigação refere-se ao Rio Grande do Sul, mas eles devem propor uma ação de abrangência nacional para tentar obrigar a União a acabar com esse desvio. Na estimativa de Arpini, cerca de 600 taifeiros trabalham em casas de generais nos País - ao custo de aproximadamente R$ 720 mil mensais. A rigor, taifeiros são os homens que cozinham e servem refeições em quartéis e missões, mas foram autorizados por normas internas das Forças Armadas a servir os generais e suas famílias.Desde abril, quando a investigação começou, os promotores já receberam inúmeras manifestações de taifeiros reclamando de situações degradantes que viveram dentro das casas de generais. "Militar tem aquele orgulho de vestir a farda, sabe? Mas a gente tem de tirar a farda, vestir uniforme doméstico e limpar banheiro, passear com cachorro, arrumar cama, lavar roupa da família inteira, inclusive cuecas e calcinhas de genros e noras. E tudo com o dedo da mulher do general na nossa cara", reclama Roberto, que conseguiu, somente a muito custo, se livrar das residências em Brasília e voltar ao cargo de cozinheiro de quartel. Há quem reclame até de trabalhar como motorista para levar a mulher do general ao shopping, à casa de amigos e para fazer outros passeios. A apuração foi brecada, no entanto, pela Procuradoria-Geral da República, que se recusou, por motivos técnico-jurídicos, a encaminhar ofício dos promotores à Presidência da Câmara dos Deputados. O objetivo deles era obter informações sobre uma investigação legislativa, de 1991, sobre o mesmo tema e comparar o que mudou de lá para cá. Os promotores recorreram ao Conselho Nacional do Ministério Público e aguardam resposta para continuar os trabalhos. A preocupação principal de Arpini e de Assis não é nem com os abusos de autoridade relatados pelos taifeiros, porque a maioria dos militares não faz reclamações formais - com medo de retaliações - e o Ministério Público só pode agir com base em provocação específica. "Nosso foco é a prática em si. A utilização de taifeiros realizando tarefas domésticas na residência de seus superiores está em manifesto descompasso com um País que quer ser republicano, onde todos deveriam ser iguais perante a lei", avaliou Arpini. "Não há nada que justifique tal benefício, que soa como uma prática corporativa." Os taifeiros, no entanto, dizem que os tais abusos têm levado grande parte da tropa a recorrer a antidepressivos e ansiolíticos para agüentar o tranco. "Pensei muitas vezes em pegar a pistola e dar um tiro na cara de um", afirmou Pedro (nome fictício), hoje na reserva, mas que serviu como taifeiro por 18 anos no Rio. A escolha da carreira dentro das Forças Armadas se dá logo na entrada. Depois, é muito difícil trocar de função. Segundo João (nome fictício), o cargo de taifeiro é "vendido" como nobre aos jovens militares, porque trabalhar com os generais seria um privilégio. "Sinto que fui iludido", disse o militar. A decisão de trocar de emprego, segundo eles, é difícil porque compromete a estabilidade da família. "A gente não sabe fazer outra coisa, não tem estudo e precisa do salário. O jeito é fazer uns bicos", afirmou João. Para Manoel (nome fictício), o trabalho virou motivo de vergonha. "Eu escondo isso tudo até dos meus filhos." INVESTIGAÇÃO O trabalho dos promotores começou quando tomaram conhecimento, pelo Diário Oficial, de que, em Bagé (RS), um taifeiro havia sido punido por pedir para sair de uma residência e voltar ao quartel. "Esse pedido foi interpretado como uma afronta, uma insubordinação, e o taifeiro, apesar de 26 anos de serviço sem ter cometido nenhuma transgressão disciplinar, foi punido", afirmou Arpini. O promotor refuta o argumento do Exército de que é "coerente" e "compreensível" os taifeiros servirem também a familiares dos generais, que moram na mesma residência. "As Forças Armadas destinam-se à defesa da Pátria e à garantia dos poderes constituídos. Não há nenhuma razão para que militares cumpram essa tarefa, que não tem a menor relação com sua missão constitucional." Ainda segundo o promotor, se houver alguma denúncia específica de abuso e ficar comprovado que o general exagerou no uso de sua autoridade, ele poderá ser processado por improbidade administrativa.

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