Minas pode ter racionamento de água em quatro meses

O governo trabalha com essa hipótese caso a queda dos níveis dos reservatórios permaneça no ritmo atual; Copasa avalia impor multa

Marcelo Portela, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2015 | 20h49

BELO HORIZONTE - O governo de Minas Gerais trabalha com a possibilidade de adotar um racionamento de água em no máximo quatro meses caso a queda dos níveis dos reservatórios permaneça no ritmo atual. Para evitar o problema, segundo a presidente da Companhia de Abastecimento de Minas Gerais (Copasa), Sinara Meireles, é necessário que o consumo no Estado, que já foi conhecido como a caixa d'água do País, seja reduzido em 30% em todos os setores. A empresa também já avalia a possibilidade de cobrança de multa para quem não exceder determinado limite de consumo. E atribui ao governo anterior a falta de medidas para evitar a atual situação.

O problema atinge todo o Estado, mas é mais grave na região metropolitana, onde 31 dos 34 municípios são abastecidos pelos sistemas Paraopeba e Velhas. Neste último a captação é no fio d'água e a vazão do Rio das Velhas, que tem média histórica de 80 metros cúbicos por segundo neste período, apresenta no momento média de 10 metros cúbicos por segundo (8,85 ontem). Já o Paraopeba é composto por três reservatórios, que estão com uma média de 30% da capacidade.

A situação mais dramática é no reservatório Serra Azul, que está com apenas 5% de sua capacidade e opera no chamado volume morto. Além dele, o sistema é composto pelos reservatórios Rio Manso, que está com 45% da capacidade, e Várzea das Flores, que tem 28% do volume total. "Em janeiro de 2014, tínhamos 78% da água armazenada. Em dezembro, tínhamos 34% e hoje temos 30%" observou o diretor de Operação Metropolitana da Copasa, Rômulo Perilli. Além da região metropolitana da capital, a situação é "crítica" nos municípios de Campanário, no Vale do Rio Doce, Urucânia, na Zona da Mata mineira, e Pará de Minas, na região central do Estado.

De acordo com Sinara, o racionamento com rodízio no abastecimento e a cobrança de tarifas para quem exceder determinado limite de consumo serão as últimas medidas a serem adotadas, sendo que as multas ainda dependem de questões jurídicas a cargo da Agência Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e Esgotamento Sanitário do Estado (Arsae-MG). A princípio, a Copasa pretende iniciar, ainda neste fim de semana, uma campanha para incentivar os consumidores a reduzirem o consumo.

A medida, assim como uma possível cobrança de tarifa para quem não cumpri-la, será direcionada tanto aos consumidores residenciais quanto comerciais e industriais. Algumas das principais atividades econômicas do Estado são a mineração e a agropecuária. "A restrição no uso de atividades mineradores e outras atividades econômicas vai estar relacionado à nossa legitimidade do ponto de vista que nos permita uma sanção. Neste momento, os 30% (de redução) estão sendo solicitados para todos os setores", observou.

A presidente, que assumiu o cargo no último dia 16, declarou ainda que está sendo feita uma análise das obras e investimentos previstos e que há possibilidade de "mudanças de prioridades" porque alguns projetos têm previsão de conclusão apenas no fim do ano. E ressaltou que, apesar de o principal objetivo ser garantir o fornecimento de água, a direção está na "busca de equilíbrio" com os investimentos, já que a empresa é de capital aberto e tem ações negociadas em bolsa. "A gente tem procurado preservar os interesses dos acionistas. Vamos tentar equacionar essas diferentes forças. Mas no momento precisamos focar na questão do abastecimento de água", salientou.

Disputa política. O problema, segundo Sinara, vem se agravando há pelo menos dois anos. "Foi opção da direção anterior manter o abastecimento normal. (Mas) a situação de normalidade foi mantida à custa do esvaziamento dos reservatórios", afirmou. Até dezembro passado, o Estado era comandado pelo PSDB do atual senador Aécio Neves (MG), cujo grupo foi derrotado nas eleições de outubro pelo PT do governador Fernando Pimentel. Sinara evitou classificar a postura da antiga gestão como "negligente", mas material distribuído durante entrevista coletiva ontem afirma que "o governo anterior tinha conhecimento da situação, mas não tomou medidas necessárias para evitar o comprometimento do abastecimento".

Em audiência na Câmara de Belo Horizonte no início de novembro passado, a superintendente operacional da Copasa, Eneida Magalhães, deu inclusive "garantia" de que não havia "nem previsão" de racionamento. Desde 2010, segundo a Copasa, foram feitos investimentos de R$ 4 bilhões em diversas áreas, incluindo abastecimento de água e saneamento. "Houve uma série de intervenções da direção anterior. Se surtiram o efeito esperado, neste momento podemos afirmar que não, porque a situação que encontramos não é nem um pouco tranquilizadora. Há pelo menos dois anos, os dados vêm mostrando uma importante curva de queda no armazenamento de água a ser distribuída para a população", afirmou Sinara. O Estado tentou entrar em contato com o ex-presidente da empresa, Ricardo Simões, mas ele não foi localizado.

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