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''Minha causa me afastou de pessoas que me são preciosas''

Ela embargou a voz ao falar de Lula e falou de sua surpresa de o aborto ter virado um tema tão predominante na eleição

Daiene Cardoso / AGÊNCIA ESTADO e Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2010 | 00h00

Não foi intencional, mas Marina Silva se vestiu ontem de verde, vermelho e azul, cores que representam os três partidos com melhor desempenho no primeiro turno e que tentam se afinar para o segundo. A senadora tenta desde domingo conciliar o compromisso que sustentou com as alianças em torno de seu projeto e o anseio de setores de seu partido, o PV, por uma aliança mais pragmática.

Marina passou o dia definindo os dez pontos que apresentaria aos presidenciáveis que a cortejam como suas prioridades de discussão. Depois disso, falou ao Estado de sua surpresa de o aborto ter se tornado um tema tão predominante nesta semana. "No começo, houve uma avalanche de manifestações, criticando minha posição favorável à vida. Agora, estão tendo que se ver com um tema que foi usado para tentar me rotular de conservadora", disse.

Recorrendo a citações religiosas e de seus autores favoritos, Marina chorou ao afirmar que ainda há nela algo do PT. Embargou a voz também ao falar do presidente Lula. "Minha causa me levou a, ao menos temporariamente, me afastar de pessoas que me são muito preciosas." Mais dicas sobre o segundo turno não deu. Antes da despedida, lamentou o fato de Heloísa Helena (PSOL) não ter sido eleita senadora em Alagoas.

A senhora sempre defendeu o segundo turno, mas acabou favorecendo o tucano José Serra. A senhora se sente frustrada?

Nós favorecemos a democracia. Como diria o apóstolo Paulo, o amigo do noivo tem de se sentir tão feliz quanto o noivo. Eu estou feliz que o povo tenha oportunidade de olhar melhor os candidatos. Não tenho o direito de ficar frustrada, enfrentando as circunstâncias e as dificuldades que eu enfrentei, conseguindo 20 milhões de votos dos brasileiros com 1 minuto e 20 de televisão, com uma estrutura pequena, sem coligação, e as pesquisas não conseguindo alcançar meu desempenho.

Agora parece que todos descobriram o fenômeno Marina Silva. A senhora foi subestimada?

Se fui, não foi a primeira vez. Aconteceu em várias oportunidades. Quando entrei na universidade, um professor perguntou quem havia feito supletivo e alertou que esses alunos teriam muita dificuldade em sua matéria. Me preocupei, estudei, e na primeira prova tirei 9,5. Hoje, sinto uma mistura de alegria, humildade e gratidão, como senti na época.

Como a senhora avalia as campanhas até aqui?

Disse desde o começo que não deveríamos orientar a campanha pelo medo, já vencido pela esperança há 8 anos. Em todas as eleições, aparecem fantasmas querendo assombrar o bom desempenho do debate, da opinião. Eu preferi não rotular.

A discussão em torno do aborto é o fantasma da vez?

A imprensa manifestou um interesse grande nesse tema em relação a mim. E não é somente uma questão religiosa. É um tema complexo, que tem de ser tratado sem satanização de nenhum dos lados. Sempre me pronunciei contrária ao aborto. Me esforcei para fazer esse debate num nível adequado, não como nos Estados Unidos. Quero debater como preservar a vida em todos os sentidos, inclusive a das mulheres que são ameaçadas pelas práticas inadequadas do aborto, as sequelas físicas, emocionais. Precisamos discutir o mérito da questão.

Os candidatos estão discutindo esse mérito?

Não sei quem pautou essa questão agora. Quem pautou essa discussão? No meu caso, foi por que eu sou evangélica? Por que os candidatos católicos nunca foram tão cobrados? Havia algum interesse de que isso me causasse um incômodo? Respondi bem e nunca devolvi de maneira preconceituosa para quem pensava diferente de mim. No começo, houve um exagero ao contrário. É engraçado, lembra a música do Geraldo Vandré, em que ele diz "é a volta do cipó de arueira, no lombo de quem mandou dar".

Como assim?

Houve uma avalanche de manifestações na internet, criticando a minha posição favorável à vida, contrária à descriminalização da maconha. E o povo conseguiu atravessar isso com serenidade. Eu identificava essas queimações dos aliados dos dois lados. E agora eles estão tendo que se ver com um tema que foi usado para tentar me rotular de conservadora. Outros me disseram que talvez eu não fosse tão convertida assim. Vou tentar contribuir para que a discussão seja madura.

Os analistas e os críticos quebram a cabeça agora para entender o eleitor de Marina. Quem são os "marineiros"?

Os marineiros são uma esfinge. São uma esfinge para as visões pré-estabelecidas, para a dicotomia direita e esquerda. Eles estão dizendo: "Decifrem-nos ou vamos devorar essas velhas concepções." Esse movimento criou pelo menos o embrião de uma terceira via. Estávamos diante de um processo puramente plebiscitário e a democracia não sobrevive a isso. No plebiscito pode tudo, pode um candidato se apresentar sem programa de governo, o outro lado se apresenta com várias versões de programa e só legitimando as coisas boas, sem menção às negativas.

A senhora manteve sua aliança com o PT no Acre e alegou que foi por ter feito parte do projeto político no Estado. Vai manter a coerência com sua história, já que ajudou a construir o PT?

No Acre, minha história não é só de relações pessoais. É de um projeto político que integrou ao longo de 12 anos a sustentabilidade. Eu não saí do PT por causa do PT do Acre. Saí por causa do PT nacional, que não foi capaz de entender a sustentabilidade como um tema estratégico. O partido para mim não é um fim, é um meio.

A senhora já disse que Dilma e Serra eram iguais, "gerentões". Não seria contraditório apoiar agora um ou outro?

Eles têm um perfil gerencial incontestável. O segundo turno é uma possibilidade para compreender o sinal que a sociedade mandou, de que a questão da sustentabilidade é importante.

O que a senhora sente quando ouve agora Dilma e Serra se dizendo "ambientalistas desde criancinha"?

Espero que seja um esforço sincero. Não posso julgar se é sincero. Vou esperar o processo. O povo tem uma inteligência incrível, uma sensibilidade fina, as pessoas sabem o que é apenas declaratório.

O que pretende fazer com os eleitores que conquistou?

Pretendo estar junto com eles. Só isso. Cada um cumprindo seu papel. Neste momento, fui arco e flecha. Me dizem que eu tive os votos dos desiludidos. Prefiro acreditar que eu tive o voto dos que se reencataram com a política. É um amadurecimento, não existe essa coisa de um líder messiânico, é alguém que se coloca na perspectiva de fazer com as pessoas, não para elas.

Sua foto estará na urna em 2014?

Não podemos ficar pensando no lance lá na frente. É bom jogar as sementes na terra e esperar que elas brotem. Eu não sou a única, quero que haja uma terra fértil com muitas sementes nessa terceira via que começa a nascer.

Como foi ter pela primeira vez um palanque sem Lula a seu lado?

Dei uma entrevista a uma revista, em que disse que era a primeira vez em uma eleição presidencial que eu não votaria no Lula. É a história, é a vida, são os processos. Tem um livro chamado Filho Pródigo, de um padre polonês, e em um trecho ele diz: "Para onde me levou minha causa?" Minha causa me levou, ao menos temporariamente, a me afastar de pessoas que me são muito preciosas. Mas é o que acontece quando se tem uma causa ou quando a causa te tem.

Ainda existe algo de PT na senhora?

Quando saí do PT e me filiei ao PV, consegui uma metáfora, funciono por metáforas. Tinha carinho pelo PV por causa do Chico Mendes. Na manhã da filiação, chorei muito no hotel. Metade de mim estava alegre, metade, triste. Até que eu consegui a metáfora, que foi a frase do Guimarães Rosa, no conto Nenhum, Nenhuma: "Será que você, um dia quando a gente se separar, sem querer, sem saber, seria capaz de continuar gostando de mim, e gostando, e gostando? Como é que a gente sabe?". (chorando) E eu descobri que, mesmo depois dessa separação, sem querer, sem saber, eu ia continuar gostando e gostando. Fui para a convenção feliz. Feliz com o PV também. O PT vai continuar dentro de mim, como o PV sempre esteve dentro de mim.

Já conversou com o Guilherme Leal sobre como vai continuar a relação de vocês?

Agora estamos focados no segundo turno. Faço parte do instituto e vou continuar viajando junto com as pessoas que fazem parte desse projeto. Antes, eu percorria o País no mandato de senadora e no ministério. Agora, não tenho a estrutura de fazer isso institucionalmente, mas é a minha militância social.

O presidente Lula disputou três eleições e só foi eleito na quarta. A senhora se considera uma pessoa persistente?

Sou persistente em muitas frentes. Sou persistente para estudar, para militar na sociedade, para começar tudo de novo e para continuar na militância política-partidária institucional. E claro, organizar um pouco a minha vida e este ano espero que seja um ano de mais reflexão, estudo, descanso.

A senhora acha que no inconsciente dos eleitores está a ligação entre as trajetórias da senhora e do presidente Lula?

As pessoas olham para quem eu chamo de "liderar pelo exemplo". Cada vez mais a sociedade e a humanidade vai exigir um liderar pelo exemplo. Estamos saturados do excesso de fala, as pessoas estão olhando também suas atitudes.

A senhora tem mágoa do presidente Lula?

Não tenho mágoa de ninguém. Eu saí pela porta da frente e com a clareza de que estava dando uma contribuição à Amazônia. Quem tem mágoa não faz questão de colocar os 16 anos para citar esses dois homens (Lula e Fernando Henrique) como eu fiz.

Nasceu em Breu Velho, no Acre, em 1958. Foi alfabetizada apenas aos 16 anos. Graduada em História, ajudou a fundar o PT. Foi vereadora em Rio Branco (1988/1990), deputada estadual (1990/1994), senadora por dois mandatos (1995/2010). Em 2008, após cinco anos, deixou o Ministério do Meio Ambiente do governo Lula. No ano seguinte, filiou-se ao PV e este ano foi candidata à Presidência

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