Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Modelos ‘veteranos’ desafiam preconceito

Valorização da diversidade e fato de terem a face do consumidor ampliam mercado

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Os 30 anos há muito não representam o fim da carreira dos modelos. Cada vez mais, profissionais veteranos estão sendo requisitados para campanhas publicitárias em revistas e na televisão, além de trabalhos em passarela e institucionais. Especialistas e modelos atribuem isso ao forte movimento de valorização da diversidade e pelo fato de o consumidor ter o interesse de se sentir representado por quem divulga o produto.

Há quase 20 anos atuando em propagandas, o modelo Nacib Yareb, de 81 anos, usa o nome artístico Bibo e nunca imaginou que um dia trabalharia na área. “Sempre fui vendedor, representante comercial e trabalhei muitos anos com papelaria. Minha nora falou para eu começar nessa área e entrei meio de paraquedista, sem ter noção. Fui me aprofundando e não imaginava que esse mercado era tão grande.” Ele diz que a concorrência até aumentou. “Tem bem mais gente entrando no mercado. A gente ia fazer teste e, se tinha 12 velhos, era muito. Agora, tem 30, teve um aumento nos últimos dois anos.”

Empresário e modelo, Paulo Zulu, de 54 anos, está no ramo desde os 28 anos e diz ter aprendido com a experiência e o profissionalismo a lidar até com rejeições. “Às vezes, o cliente quer outro rosto e a pessoa tem de ter a humildade para entender qual é a sua hora. O mundo da moda joga muito o modelo para cima, mas ele é um profissional que, se vender muito, é um excelente profissional. Eu sou um vendedor por meio da minha imagem”, diz.

Zulu acredita que a presença de modelos veteranos está ligada ao interesse do consumidor de se sentir representado. “Esse tabu de idade está sendo quebrado e o mercado vem junto.”

A carreira da modelo Lisa Grahan, de 52 anos, teve início quando ela tinha 19 e ainda morava na Inglaterra, onde nasceu, e durou até por volta dos 28 anos. Ela morou no Brasil e, aos 40, retomou a carreira em Nova York. “Nos Estados Unidos e na Europa, tem um grande mercado para mulheres acima de 40 anos e isso não existia aqui.” Lisa afirma que a situação está mudando. “Tinha um preconceito, as mulheres se sentiam velhas, mas é muito legal ver essas pessoas na revista. Isso é bom para todo mundo, porque é o que vemos nas ruas.”

Na última edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), o estilista Ronaldo Fraga levou a situação à passarela. “De 2009 para cá, quando fiz o primeiro desfile (com modelos mais velhos), isso mudou bastante, mas, ainda assim, a moda mostra o ideal de pessoa que quase não existe. As pessoas estão buscando representatividade, não só o novo velho, mas as questões sexuais, os grupos plus size, o deficiente físico. E precisamos lançar luz para esses grupos”, avalia.

Diferencial. Aos 52 anos, o modelo Jorge Gelati coleciona trabalhos nacionais e internacionais de uma carreira que começou quando ele estava com 23 anos e morava em Porto Alegre. Segundo ele, os cabelos grisalhos acabaram favorecendo o seu trabalho. “Nas primeiras agências que encontrei em São Paulo, falaram que eu teria de pintar o cabelo, mas isso não aconteceu.”

O modelo conta já ter se deparado com pessoas que questionaram o fato de ainda atuar na área, mas diz que isso tem ocorrido com menos frequência. “Coloquei na minha cabeça que, enquanto existir a demanda e quiserem usar a minha imagem, por que não? Eu não vejo uma razão para fechar as portas”, diz Gelati. 

Sonho. Maria Rosa Horn, de 59 anos, resolveu ser modelo e se deparou com um mercado fechado para esses profissionais. Após isso, ela resolveu criar a agência Fifty Models, voltada para modelos acima dos 50 anos. “Quando comecei, era um tabu. De cinco anos para cá, esse mercado cresceu uns 60%”, afirma. A agência tem, atualmente, 30 modelos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.