Morumbi, Paraisópolis e o escadão da discórdia

Bairro quer que PM coloque câmeras para monitorar ocupação

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

08 Outubro 2008 | 00h00

O bairro do Morumbi está definitivamente "conectado" à Favela de Paraisópolis. Um escadão com 187 degraus, ornamentado com jardim, bancos e playground, prestes a ser concluído pelo governo municipal e já usado pela população, facilitou o entra e sai de moradores da ocupação para um trecho da Avenida Giovanni Gronchi onde estão prédios de classe média alta, sobrados de quatro andares, escolas particulares e restaurantes finos. A estrutura que interliga as ruas ainda de terra de Paraisópolis com uma das regiões mais caras da capital paulista também é considerada emblemática pela comunidade e por especialistas que defendem a urbanização em andamento na segunda maior ocupação de São Paulo desde 2005. Mas o escadão já mobiliza discussões nos dois conselhos de segurança do Morumbi e nos moradores de prédios vizinhos que defendem a instalação de câmeras da Polícia Militar no local. A população da ocupação, contrária às câmeras, classificou a iniciativa de "preconceituosa". "Por um lado foi boa essa construção no lugar do que era só mato e um monte de barraco. Mas já vimos assaltantes descerem correndo em fuga pela escada. Agora eles conseguem se refugiar na favela sem precisar estar de moto", afirma Andreia Daher, de 42 anos, moradora do Edifício Maíra, a menos de 30 metros do escadão, na Rua Manuel Antonio Pinto. Outros moradores de prédios e comerciantes das imediações da Avenida Giovanni Gronchi relatam que o escadão virou rota de fuga para marginais. Por outro lado, as escadarias são usadas por estudantes e moradores da favela que trabalham em condomínios, casas e comércios do Morumbi. "Eu acho que câmera é bom em qualquer lugar e claro que ali (escadão) também seria bom. O cidadão que não tem nada a temer poderá sentir-se mais seguro com esses equipamentos", afirma a presidente do Conseg do Morumbi, Júlia Titz de Rezende. Celso Cavallini, secretário do Conseg Portal do Morumbi, outro conselho com atuação no bairro, diz que se negocia com o comando da 6ª Companhia do 16º Batalhão da PM uma forma de policiar o acesso. "É evidente que quanto mais ligações (à favela), mais rotas de fugas vamos ter. Isso não é preconceito, é realidade. Mas já existem 16 acessos de ruas à favela. Não sei até que ponto o escadão vai facilitar tanto as fugas", ponderou Cavallini. A União de Moradores de Paraisópolis reagiu com indignação à articulação pelas câmeras. "Não existe Morumbi bom com Paraisópolis ruim. As melhorias nas condições dos moradores da comunidade reflete em melhora também para o Morumbi. O escadão facilita o acesso de centenas de pessoas que trabalham nos prédios e casas de alto padrão", argumenta Gilson Rodrigues, presidente da entidade. A PM informou que mantém sete câmeras na Avenida Giovanni Gronchi e bloqueios policiais nos principais acessos a Paraisópolis. A corporação, entretanto, não divulgou se há previsão de instalação de um equipamento para a esquina da Giovanni Gronchi com a Rua Manuel Antonio Pinto, onde está o escadão.

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