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MP abre investigações sobre suposto tráfico de influências no caso Bruno

Marcelo Portela - O Estado de S. Paulo

03 Agosto 2011 | 18h 02

Juíza foi flagrada passando orientações à noiva do goleiro em escutas telefônicas feitas pela Justiça

BELO HORIZONTE - A juíza Maria José Starling afirmou à dentista Ingrid Oliveira, noiva do goleiro Bruno Fernandes, que pretendia fazer uma "lasanha" com Luiz Henrique Ferreira Romão, o "Macarrão". Ele está preso junto com o atleta e mais duas pessoas a espera de julgamento pelo sequestro e assassinato de uma ex-amante do jogador, Eliza Samudio, desaparecida desde junho do ano passado.

 

Na mesma conversa, a juíza diz que está dando "orientação jurídica" para envolvidos no processo, atitude vedada a magistrados, e critica a colega Marixa Fabiane Lopes, que determinou que os acusados sejam julgados por júri popular. As declarações fazem parte de escutas telefônicas feitas com autorização judicial, a pedido do Ministério Público Estadual (MPE) de Minas, para investigar suposto tráfico de influência no caso.

 

Em audiência na Assembleia Legislativa de Minas, Ingrid acusou Maria José Starling de cobrar R$ 1,5 milhão para conseguir a libertação de Bruno, que está preso há pouco mais de um ano. Na mesma audiência, o goleiro revelou que recebeu proposta da polícia para que a culpa pelo caso fosse jogada apenas em cima de Macarrão, até então braço direito do jogador.

 

As investigações correm em segredo de Justiça, mas o Estado obteve cópia das conversas. "Esse Macarrão, eu já estou quase fazendo uma lasanha com ele", afirmou a juíza em diálogo com Ingrid no fim da manhã de 29 de novembro do ano passado. "Ele é o que tem cara de mais sem vergonha", acrescentou a magistrada, que ainda critica o fato de Macarrão estar próximo à dentista e Bruno durante visitas na Penitenciária Nelson Hungria, onde os acusados estão presos. "Manda ele cair fora. Você tem que começar a se impor", orienta a juíza.

 

Maria José Starling era titular da comarca de Esmeraldas, na região metropolitana de Belo Horizonte, e chegou a presidir uma das audiências do caso do desaparecimento de Eliza, antes de o processo ser encaminhado para Marixa, no fórum de Contagem, também na região metropolitana da capital. Na semana passada, ela foi afastada do cargo pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que não informou o motivo da medida.

 

A juíza afirmou ainda que manteve conversas com o pai de Ingrid para dar "uma orientação jurídica" e assumiu que também conversou com Bruno após ele ser preso. "Fica tomando aqueles remédios que o sem vergonha do Quaresma dava. Eu falei: para de tomar essas porcarias porque até besteira pode falar", declarou a magistrada. Ela se referia a Ércio Quaresma, que chegou a defender Bruno, mas deixou o caso após ser suspenso pela seção mineira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG) por aparecer em um vídeo fumando crack em uma boca-de-fumo de Belo Horizonte.

 

Na mesma conversa, Maria José Starling ainda critica a atuação de Marixa, atual responsável pelo caso e pela ordem de prisão de Bruno, Macarrão, Sérgio Rosa Sales e o ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, o "Bola", também acusados de envolvimento no crime. "Estou rezando muito. Toda noite eu fico. Eu não rezo. Converso com Ele. Falo: por favor, faça alguma coisa. Debaixo do céu e na terra tudo tem hora para acontecer. Mas a pronúncia não me agrada", disse. Pronúncia é a decisão do julgamento sumário que determinou que os réus sejam julgados pelo júri popular.

 

A magistrada também se oferece para dar à dentista toda orientação necessária. "Qualquer dúvida que você tenha, liga para mim. Não fica ligando para um e para outro, não, que é pior", alerta. E ainda convida Ingrid, que mora no Rio de Janeiro, para ficar hospedada em sua casa quando estiver na capital mineira. "Pode vir que tem lugar. Fica tranquila que aqui a gente conversa e se distrai", observou.