AP Photo/Silvia Izquierdo
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MP investiga maus tratos a crianças e considera Verbo Vivo uma 'seita'

Reportagem de agência de notícias norte-americana revelou que brasileiros ligados à igreja são levados aos EUA, onde vivem regime de escravidão

Leonardo Augusto, Especial para O Estado

25 Julho 2017 | 18h56
Atualizado 25 Julho 2017 | 23h24

SÃO JOAQUIM DE BICAS - Uma placa pregada na parede de uma guarita dita as regras de quem pretende acessar a Igreja Ministério Verbo Vivo, em São Joaquim de Bicas, na região metropolitana de Belo Horizonte, às margens da Rodovia Fernão Dias, que liga Minas Gerais e São Paulo.

Quem entra tem de deixar pra trás telefones celulares, filmadoras e gravadores de áudio, conforme diz o aviso. Lá dentro, depois de percorrer uma pequena estrada, com palmeiras em ambos os lados, o visitante chega a uma grande casa, cuja fachada lembra uma suntuosa sede de fazenda.

Preocupada com a atitude de fiéis em seu interior, e ostentando certo luxo, a Verbo Vivo é tratada como seita pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), e é investigada pela Promotoria da Infância e Adolescência de Igarapé, cidade ao lado de São Joaquim de Bicas, por suspeita de maus tratos a crianças e adolescentes que frequentam o local. As apurações tiveram início a partir de denúncias que chegaram ao MP.

Os maus tratos seriam espancamentos praticados por integrantes da seita durante os cultos, supostamente para expulsão de demônios nas vítimas. Um comunicado também foi enviado pela promotoria para a Polícia Federal, com informações sobre supostos casos de envio de jovens para uma outra igreja, do mesmo grupo, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, onde também estariam sendo mal tratados. A PF não retornou pedido de confirmação sobre possível abertura de investigação sobre o caso.

Reportagem da Associated Press revelou que brasileiros ligados à igreja são levados aos Estados Unidos, onde trabalham em regime análogo à escravidão

A propriedade. Por volta do meio-dia desta terça, a reportagem esteve na entrada da igreja. Um veículo saía da propriedade. Quando o motorista abria o portão eletrônico, foi perguntado sobre a possibilidade de conversar com o responsável pela igreja. Nervoso, o homem fechou o portão e retornou para a igreja, depois de dizer que não havia ninguém na propriedade.

Três famílias vivem no local. Cuidam de pequenas plantações de verduras e legumes e tiram leite. A produção é para consumo próprio é às vezes, vendida pela igreja.

Na propriedade, é mantida ainda uma escola de primeiro e segundo graus. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, o estabelecimento é registrado no Ministério da Educação.

A escola atende a cerca de 15 alunos. Nenhum de São Joaquim de Bicas. "Acho que vêm de Belo Horizonte", afirma a secretária municipal de educação, Eunice Aparecida Maia. A mensalidade seria de R$ 700. Integrantes das famílias que moram na propriedade também estão entre os alunos da escola.

A Verbo Vivo se fixou em São Joaquim de Bicas em 2005. Quatro anos mais tarde, um boletim de ocorrência registrado na polícia mostrava o pai de uma adolescente afirmando que a igreja estava lhe "retirando a filha".

Em 2012, o Conselho Tutelar foi acionado, por denúncias de maus tratos por parte de integrantes da igreja a crianças e adolescentes, conforme informações da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. A apuração do conselho sobre o caso foi levado ao Ministério Público.

Em nota divulgada nesta terça, 25, o MP afirma que "existe um Inquérito Civil em tramitação na Promotoria de Justiça de Igarapé para apurar irregularidades na Escola Cristã Verbo Vivo, vinculada à Igreja Verbo Vivo de São Joaquim de Bicas. O procedimento encontra-se sob sigilo".

Moradores da cidade, depois de tantas suspeitas envolvendo a escola, evitam o assunto ou preferem não se identificar quando aceitam falar sobre a seita. "Que vai gente pra lá (para os Estados Unidos), e vem pra cá, isso é verdade", afirma um morador da cidade cuja filha também chegou a frequentar a Verbo Vivo.

Um frequentador da seita localizado pela reportagem disse que o que há são muitos rumores infundados sobre a Verbo Vivo. O rapaz, de aproximadamente 20 anos, trabalha em uma loja no centro de São Joaquim de Bicas. Conforme o frequentador da Verbo Vivo, há cultos aos domingo, pela manhã e à noite, e às quartas-feiras, à noite.

São Paulo. A Polícia Civil de Franco da Rocha, onde há outra unidade da igreja no País, informou nesta terça-feira que não há registro de queixas contra a congregação. O órgão acrescentou que vai apurar se houve prática de crime./COLABOROU LUIZ FERNANDO TOLEDO

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