Alberto Pizzoli/AFP
Alberto Pizzoli/AFP

Sem mudar doutrina, papa estende a mão a divorciados e gays

Na 'Exortação Apostólica Amoris Laetitia' divulgada pelo Vaticano nesta sexta-feira, Francisco pede maior compreensão à família

Edison Veiga e Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2016 | 07h39

GENEBRA - O papa Francisco pede um comportamento de tolerância e maior compreensão em relação à família moderna, aos gays e divorciados. Em um documento de quase 300 páginas e resultado de três anos de consultas, o pontífice aponta para o entendimento da Igreja em relação à família. Ainda que mantenha a doutrina, seu texto abre as portas da Igreja e pede que párocos pelo mundo adotem uma postura de flexibilidade para não excluir pessoas da religião.

Pouco mais de cinco meses após o encerramento do Sínodo dos Bispos sobre a Família, o Vaticano divulgou na manhã desta sexta-feira, 8, a Exortação Apostólica Amoris Laetitia (em português, A Alegria do Amor), em que o papa Francisco corrobora o documento final produzido pelos bispos em outubro. 

"A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja." É com tal frase que Francisco inicia o documento. "Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimônio (…), o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e isto incentiva a Igreja." No centro, a defesa da família como "um bem que a sociedade não pode prescindir". 

Em um texto que equilibra as demandas das alas mais conservadoras da Igreja e grupos liberais, o papa pede que padres respondam às suas comunidades com misericórdia. "Cada país ou região pode buscar soluções que melhor se adaptem a sua cultura e sensibilidades às suas tradições e necessidades locais", disse.

Doutrina. O papa não apontou para uma mudança na doutrina, mas insiste em abrir as portas da Igreja. Havia grande expectativa, por exemplo, que o papa avançasse na questão dos católicos que, divorciados, vivem em segunda união. Assim como no documento produzido pelos bispos em outubro, ele é incisivo quanto à necessidade de acolhimento - mas segue não permitindo a participação eucarística, por exemplo. 

Desde março de 2013, quando assumiu a liderança da Igreja Católica, o papa Francisco vem despertando a simpatia dos jovens com suas ideias progressistas. Já os conservadores classificam suas ações como demasiado marxistas e até "perigosas". 

"Acolho as considerações de muitos padres sinodais que quiseram afirmar que 'os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civicamente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo'", disse o papa. "Não só não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e matutar como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que sempre acolhe, cuida afetuosamente deles e encoraja-os no caminho da vida e do Evangelho."

Sobre o tema, Francisco afirma que, dada a "variedade inumerável de situações concretas", é "compreensível que não se devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos".

"É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares", completou. "A proposta não é mudar o magistério, mas renovar - a partir do amor cristão - a forma como é entendido e aplicado."

Gays. No que se refere à homossexualidade, Francisco também adota um tom de respeito. Mas, uma vez mais, sem mudar a doutrina. 

Ele concorda com o documento produzido pelos bispos, reiterando a impossibilidade cristã de um matrimônio religioso homossexual. "Não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família", afirmou. "Uniões do mesmo sexo, por exemplo, não devem ser simplesmente equiparado ao casamento", indicou.

Mas, uma vez mais, o papa mostra tolerância. "Tais famílias devem ser dadas orientações pastorais respeitosas, para que aqueles que queiram manifestar a orientação homossexual possam receber a assistência que eles precisam para entender e levar a vontade de Deus em suas vidas."

"Examinei a situação das famílias que vivem a experiência de ter no seu seio pessoas com tendência homossexual, experiência não fácil nem para os pais nem para os filhos", escreveu. "Por isso, desejo, antes de mais nada, reafirmar que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, procurando evitar 'qualquer sinal de discriminação injusta' e particularmente toda a forma de agressão e violência."

Aborto e eutanásia. Na Exortação, o papa voltou a se posicionar sobre temas fortes como o aborto e a eutanásia - reafirmando sua posição contrária a essas práticas. Para o pontífice, "é inalienável" o direito à vida para uma "criança inocente" que cresce no útero de sua mãe.

"De nenhuma maneira é possível apresentar como um direito sobre seu próprio corpo a possibilidade de tomar uma decisão contra tal vida, que é um fim em si mesmo e que não pode jamais ser objeto de domínio de um outro ser humano", escreveu. "A família protege a vida em cada uma de suas fases e também no seu surgimento."

Sobre a antecipar a morte, diz o religioso que "a Igreja não sente apenas a urgência de afirmar o direito à morte natural, evitando o tratamento agressivo e a eutanásia, mas rejeita firmemente a pena de morte". "Para aqueles que trabalham em estruturas sanitárias, pede-se a obrigação moral da consciência", afirmou.

Apesar de manter a posição do Vaticano, contrária ao uso de contraceptivos, Francisco adverte sobre a necessidade de uma "paternidade consciente", criticando o que chama de "procriação ilimitada".

"A consciência reta dos casados, quando foram muito generosos na transmissão da vida, pode orientá-los à decisão de limitar um número de filhos por motivos suficientemente sérios", reconheceu. O papa, entretanto, classifica como "inaceitáveis" as medidas "coercitivas dos países à favor da contracepção, esterilização ou aborto".

Francisco falou ainda do sexo dentro do casamento como "um presente de Deus que enriquece a relação". Mas apontou que a educação sexual nas escolas estaria promovendo atitudes narcisistas. 

Família. Grande tema da Exortação, a palavra "família" é citada 547 vezes no documento papal divulgado. "Matrimônio", por sua vez, aparece em 173 partes da carta. A julgar pela quantidade de menções, Francisco exalta mais o papel da mulher - citada 74 vezes - do que do homem - 57 vezes. 

Outros termos positivos também aparecem reiteradamente, como "vida", com 355 citações; e "amor", 395 vezes. "Deus" é escrito em 216 passagens pelo papa Francisco; "Cristo", em 67. 

Mas o documento também é repleto de considerações sobre situações delicadas. "Morte" é grafada 28 vezes. "Dificuldade", 39. "Desafio" aparece em 35 passagens.

Amor. Ao longo de 270 páginas - são nove capítulos, em um total de 325 parágrafos -, o sumo pontífice exalta o amor como chave fundamental para a convivência humana, sobretudo dentro das famílias. "O ponto alto do documento é dizer que a doutrina cristã não sufoca o amor com regras, mas ajuda o ser humano a encontrar-se na realização plena de seu amor", analisou o biólogo e sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

"Nossa sociedade anseia por amar, mas as pessoas não sabem como fazê-lo e se machucam mutuamente por isso. A doutrina cristã ajuda o ser humano a encontrar as formas adequadas de praticar o amor, extraindo dele o máximo de realização, prazer e satisfação."

Como tem se tornado comum nos documento de Francisco, a Exortação não traz apenas as conclusões sobre os dois sínodos sobre a família convocados pelo pontífice, em 2014 e 2015, mas também agrega ensinamentos de seus antecessores e documentos produzidos por diversas conferências episcopais, do Quênia à sua terra natal, a Argentina.

Também há citações de personalidades como o pastor protestante e ativista norte-americano Martin Luther King (1929-1968), o psicanalista e filósofo alemão Erich Fromm (1900-1980) e até o filme dinamarquês A Festa de Babette, dirigido por Gabriel Axel e lançado em 1987. 

Locais. Para Francisco, "nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais". Para ele, muitas vezes são necessárias soluções locais, atentas a peculiaridades culturais de cada região ou país, pois "as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral, se quiser ser observado e aplicado, precisa ser inculturado". 

O papa defendeu que as mudanças, ainda que necessárias, não podem ser aplicadas com ansiedade. "Os debates, que têm lugar nos meios de comunicação ou em publicações e mesmo entre ministros da Igreja, estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação até a atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas", escreveu ele.

"Sua proposta não é mudar o magistério, mas renovar - a partir do amor cristão - a forma como é entendido e aplicado", pontuou Ribeiro Neto. "Ele não propõe mudanças doutrinais, mas convida cada cristão a renovar o próprio coração, a forma como se relaciona com esta doutrina."

Sínodo. Encerrado em 25 de outubro, depois de três semanas de discussões, o Sínodo dos Bispos sobre a Família reuniu 265 religiosos de todo o mundo no Vaticano. Os 94 parágrafos do documento final foram aprovados, um a um, por pelo menos 177 votos dos participantes. 

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