Na rede, ninguém ganhou

Ao final do primeiro turno, não faz nem um mês, parecia que a internet não havia feito tanta diferença assim nas eleições brasileiras de 2010. A ministra Dilma Rousseff caminhava para uma vitória razoavelmente tranquila no primeiro turno e a mobilização dos eleitores online parecia, no máximo, discreta. Era só impressão.

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

Cá nas páginas do Estado, no dia das eleições, afirmei que a internet havia tido papel coadjuvante. Estava errado.

Discreto não era o papel da rede e sim o movimento que surgia lá dentro. Fora do radar de quem não frequenta templos cristãos, os vídeos de padres e pastores condenando a candidata governista por declarações favoráveis à descriminalização do aborto corriam soltos. E eram consumidos com avidez por um público particularmente preocupado com a questão.

Aborto é um tema complexo, descriminalizar não é exatamente igual a ser a favor, mas o assunto entrou pela porta dos fundos da campanha, lançou-a no segundo turno, e a candidata achou por bem mudar de ideia ao invés de aprofundar a discussão.

A internet pode parecer uma só mas, na verdade, são muitas. Cada um tem a sua internet particular, composta dos sites preferidos que visita com frequência e da rede de amigos que enviam emails ou com os quais convive no Orkut, Facebook, Twitter e demais redes sociais. Encontramos, na internet, aquilo que queremos achar. Quem busca o desafio de opiniões contrárias à sua, encontra. O caminho mais fácil, no entanto, costuma ser procurar aqueles espaços onde suas convicções são reforçadas.

Porque pessoas buscam aqueles com quem concordam, a internet pode ampliar a polarização. Este é o tema de um livro chamado Going to Extremes, do professor Cass Sunstein, da Universidade de Chicago, assessor do presidente americano Barack Obama.

No caso do aborto, havia ali uma origem verdadeira: Dilma realmente se posicionou favorável à descriminalização. Mas nem tudo que circulou na rede era verdade. Arranjaram para ela amantes e para seu vice, o deputado Michel Temer, uma seita. Talvez a maior vítima da mentira na internet, no entanto, tenha sido José Serra no episódio da bolinha.

Na tarde do último dia 20, quando caminhava por Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Serra, jornalistas, assessores e eleitores foram interceptados por um grupo de militantes exaltados do PT. O candidato esperou, tentou caminhar um pouco mais até que, repentinamente, seus seguranças se assustaram e o levaram rapidamente para a van de apoio. Vários dos repórteres que estavam lá afirmam que é difícil determinar o que o atingiu mas, que havia tensão e que houve um susto repentino, não há dúvidas.

Há uma incontável quantidade de fotografias, vídeos e testemunhos sobre o que ocorreu em Campo Grande. No dia seguinte, no entanto, uma única versão se impôs via Twitter e a agressão se transformou em bolinha de papel.

Numa eleição polarizada, com um País dividido como está o Brasil, a internet reforça as convicções que os eleitores já têm. Toda informação contrária torna-se propaganda do adversário. É o outro que está sempre errado.

Possivelmente, nenhum dos dois candidatos saiu ganhando no tipo de briga que a internet gerou. E a qualidade da conversa política piorou. Se, em 2010, a eleição online não transcorreu como aquela que levou Barack Obama à presidência, em 2008, ela segue outro paralelo americano: o pleito de 2004.

A Guerra no Iraque ainda não era popular e o candidato democrata John Kerry tinha algo que o presidente que buscava reeleição, George W. Bush, jamais teve: um passado militar heróico. Kerry tem uma Purple Heart, a medalha dada aos oficiais feridos em batalha. O passado militar do senador era o bastião central de sua estratégia. E, no entanto, Bush tinha como seu marqueteiro o malicioso Karl Rove. Usando a internet, Rove conseguiu fazer circular a ideia de que toda a carreira de Kerry no Vietnã era fraudulenta. Mentira. Mas, circulando na rede com a velocidade de amantes, seitas e bolinhas de papel, derrubou Kerry.

Em 2008, nos EUA, imprensa e candidatos estavam escolados. Filtravam a internet para perceber qualquer início de boato para apresentar fatos e documentos desmentindo tudo rápido o suficiente para conter o abuso. Quem sabe, coletivamente, não aprendemos a lição para 2014.

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